Corpo Abrigo, exposição inédita da artista Bel Barcellos abre a temporada 2025 da Galeria do Lago, no Museu da República, no Rio de Janeiro, sob curadoria de Isabel Sanson Portella. Linha e agulha são suas ferramentas, tendo a costura e o bordado como linguagem essencial de suas referências femininas e dos seus saberes ancestrais, para criar trabalhos impregnados de delicadeza e memórias, que contam histórias viscerais. A mostra tem patrocínio da Equinor.
Barcellos define como “autoficcional” o conjunto de dez trabalhos inéditos desta exposição, em que Bel desenha com bordado sobre lona ou linho, tendo a figura humana feminina como ponto focal e o universo emocional como trama subjetiva. Pela primeira vez, ela incorpora a cerâmica à sua produção.
Bel Barcellos define a abrangência de Corpo abrigo:
“A exposição divaga sobre o nosso corpo, matéria com que nascemos e atravessamos a existência, pontuando questões do nosso complexo universo emocional. Partindo de um ponto de vista feminino, mergulho em experiências pessoais para falar sobre aspectos que são inerentes ao universo feminino, acreditando haver um fluxo que percorre e conecta as mulheres. Construo minhas narrativas utilizando técnicas, como o bordado e a cerâmica, fazeres historicamente relacionados ao universo feminino, expandindo suas possibilidades expressivas e ressignificando suas finalidades. Faço um elo com minha ancestralidade, revelo a potência na delicadeza do gesto e reafirmo a importância dos trabalhos manuais em seu processo artístico como forma de introspecção e autoconhecimento. O corpo, como abrigo em suas infinitas possibilidades, é instrumento e porta para estados entre o racional e o imaginário, onde a imersão e o ato criativo se tornam libertadores, transformadores e cerne para curas”.
A costura sempre esteve presente na vida pessoal de Bel Barcellos e em seu trabalho com figurinos, mas foi após o contato com a obra de Arthur Bispo do Rosário [1909 ou 1911–1989] que o bordado ganhou maior relevância em seu processo criativo, embora a artista já incorporasse símbolos e escritos bordados em suas pinturas anteriormente. Agora, sua pesquisa se expande para a cerâmica, que em Corpo abrigo surge em instalações marcadas pela figuração feminina, ora como suporte para seus bordados, ora aplicada à superfície da tela ou misturada à lona através do barro e do pó da terra.
“As obras de Bel Barcellos dizem muito mais do que se possa imaginar. Chegam carregadas do aprendizado e da energia de várias gerações de mulheres e formam um solo fértil de onde brotam as sementes compartilhadas. Elevam, ao surpreendente, o trabalho com as mãos, a delicadeza do bordado e da cerâmica. Pedem silêncio para que se possa mergulhar nesse rio e sabedoria para aceitar a inevitável passagem do tempo. Precisam de entendimento e desvelo para que se perceba que, por dentro, somos todos absolutamente iguais”, avalia a curadora Isabel Portella em seu texto de apresentação.
O que ver em Corpo abrigo:
Ânima, 2022|24
A primeira obra a ser criada foi Ânima, um políptico de seis telas, com desenho bordado em tons de vermelho sobre lona. A artista descreve este trabalho: “é um mergulho no subjetivo da alma, trazendo imagens e metáforas que relacionam o universo interno ao externo.
Do pó da terra, 2025
O trabalho, composto de desenho bordado e barro carimbado na tela junto com pó de cerâmica, traz a figura de uma mulher, em três posições, emergindo do barro, entranhada na natureza, e fortalecida pelos elementos naturais.
Manas, 2024
Esta instalação de parede, com 10 mamas de cerâmica em tons diversos de argila, com referência às cores da pele. De dentro de cada mama pendem fios de algodão, que se encontram no piso da galeria. O título remete à sororidade de alimentar os próprios filhos ou os das outras mulheres.
Mais um dia, menos um dia, 2025
É uma obra com desenhos bordados sobre lona, de pequena dimensão e em forma de cubo, pendurada por um fio na viga que divide duas salas da galeria. Em cada lado do cubo, uma frase bordada “Mais um dia”, “Menos um dia”, e a imagem de uma mulher agachada em forma fetal, ficam girando no ar, como se marcassem a passagem do tempo.
Série O rio abaixo do rio, 2025
A crochês, rendas e bordados herdados de familiares aplicados sobre linho, juntam-se os desenhos bordados da artista, que se representa como uma das mulheres bordadas, ao lado de sua tia e sua irmã. As duas obras desta série falam sobre a transmissão das práticas têxteis, através das gerações e lança luz na preciosidade destes trabalhos, ao ressignificar suas funções.
Série Iabá [orixás femininas em iorubá], 2025
Pensando nas jornadas múltiplas do cotidiano, Barcellos cria uma figura feminina carregando centenas de contas de cerâmica em formatos e cores variadas, feitas manualmente: o peso de que somos capazes de carregar. Aqui, a cerâmica é trazida pra dentro da obra, costurada sobre a lona.
Devaneio, 2025
É um desenho bordado sobre lona, cuja a imagem central é a própria artista, de braços abertos e pés imersos no mar, de onde partem outras imagens dela mesma, de cujas mãos partem outras tantas “Bels”. Barcellos descreve este trabalho: “Quero falar desse estado de devaneio, entre o racional e o imaginário, provocado pelo ato criativo e o trabalho manual”.
Oferenda, 2023|24
É uma instalação de chão, com 25 esculturas de cerâmica, representando grávidas, bordadas com fios de algodão cru, que ligam umas às outras e ao teto. “É uma ode ao universo feminino, ao corpo como abrigo de outra vida, ao fluxo e às conexões que unem as mulheres e que as une ao sagrado”, explica a Barcellos.


