Beatriz Santiago Muñoz | Pivô

Em sua primeira exposição no Brasil, Beatriz Santiago Muñoz (San Juan, Porto Rico, 1972) ocupará todo o espaço expositivo principal do Pivô com uma única instalação audiovisual que nomeia a exposição: Oriana. O filme em capítulos parte de temas do livro As Guerrilheiras (1969), da escritora feminista francesa Monique Wittig. A exposição, com curadoria de Fernanda Brenner, terá abertura em 5 de setembro, domingo, com visitação gratuita até 6 de novembro. A artista também participa da 34ª Bienal de São Paulo, que poderá ser visitada gratuitamente no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, de 4 de setembro a 5 de dezembro de 2021.

Em As Guerrilheiras, uma tribo só de mulheres articula um ataque à linguagem e a corpos masculinos. Dentre as armas mais poderosas usadas na investida contra os costumes literários e linguísticos do patriarcado estão o riso e o afeto. Ao longo de vários anos, Santiago Muñoz visitou o livro e trabalhou na articulação de uma espécie de tradução visual do ambiente extremamente livre e pungente criado pela autora francesa. Em 2016, ela realizou no New Museum, em Nova York, uma residência que resultou na exposição Song, Strategy, Sign. A mostra funcionou como uma espécie de prólogo do projeto que agora é apresentado no Pivô.

Oriana é um filme em processo – e que talvez ainda siga se desdobrando por muito tempo. A obra será distribuída por telas de diferentes formatos espalhadas pelo espaço do Pivô. A arquitetura fragmentada do espaço e a trilha sonora original composta pela banda brasileira Rakta funcionam como espécies de fios narrativos ou guias de montagem para uma profusão de tomadas em que corpos femininos habitam e se movem por cenários impregnados da umidade tropical caribenha em direção a uma nova sintaxe. Esta exposição reitera que mudanças estruturais importantes emergem sobretudo de revoluções formais e experiências comunitárias radicais, tais como a proposta por Wittig e retomada por Santiago Muñoz.

O trabalho da artista porto-riquenha Beatriz Santiago Muñoz é resultado de um envolvimento obstinado com os participantes, e muitas vezes coautores, de suas narrativas fragmentadas. Seus filmes e instalações audiovisuais investigam profundamente o limiar entre o documental e a ficção e são apresentados tanto salas de cinema tradicionais quanto assumem formas espaciais mais experimentais em espaços voltados às artes visuais. O ritmo particular da montagem e a densidade de suas imagens – quase sempre captadas na sua Porto Rico natal ou em outros lugares no Caribe – são um convite à desautomatização de uma maneira de ver e estar no mundo. A câmera de Santiago Muñoz habita e se faz presente na realidade mais imediata de seus sujeitos e uma vez estabelecido um vínculo importante entre quem está na frente e atrás da câmera, ela os incita a expandir camadas de sentido e a abrir diferentes canais de comunicação com ela e com seu ambiente mais familiar. A recusa do tempo linear, os encontros fortuitos, o senso de comunidade e a alternância deliberada de perspectivas permeiam toda a sua obra. Seus filmes revelam a mentalidade colonial sempre presente no Caribe e, ao mesmo tempo, celebram as possibilidades de habitar o presente de acordo com outra lógica e de uma “subjetividade compartilhada” que leva em conta tanto as confluências quanto os conflitos.

Compartilhar: