Atrás da Grande Muralha – Nova Arte Chinesa e Brasileira | Centro Cultural Correios

Yao Lu, O barco do vinho no rio Pine, 2012| FOTO: cortesia do artista.

Após temporada de sucesso em Brasília, a exposição internacional “Atrás da Grande Muralha – Nova Arte Chinesa e Brasileira” segue sua itinerância pelo país e chega ao Rio de Janeiro na próxima quarta-feira, dia 15 de junho. Com curadoria do brasileiro Clay D’Paula, a coletiva traz ao Centro Cultural Correios, com entrada gratuita, a preciosa e pouco conhecida diversidade da arte contemporânea chinesa. Além de trabalhos de nomes de destaque no cenário artístico atual da China, como Angel HUI Hoi Kiu e Sun Xun, a mostra também apresenta obras de artistas brasileiros já consagrados, como Christus Nóbrega e Dulce Schuck Schunck, promovendo um intercâmbio cultural entre a produção dos dois países. A exposição fica em cartaz até o dia 29 de julho e a entrada é gratuita.

Um dos objetivos do curador Clay D’Paula é mostrar as diferentes maneiras pelas quais os artistas chineses utilizam elementos tradicionais da própria cultura, como a caligrafia, a tinta chinesa e os vestígios da pintura realista socialista, para criar obras criativas e impactantes, voltadas a questões atuais e globais. São trabalhos que traduzem esteticamente a pandemia da Covid-19, as desigualdades da globalização, a fragilidade da matéria, problemas ambientais, a hipocrisia humana e o território estreito e desolador do preconceito.

“Os artistas chineses primam por criar obras cheias de frescor, com reflexões sobre o mundo em que vivemos, mas, ao mesmo tempo, valorizam técnicas e temas locais e tradicionais. A partir de um mergulho na própria cultura, produzem trabalhos inovadores. É isso que faz dessa produção algo único e vibrante na arena internacional da arte”, afirma o curador, que fez diversas viagens à China para reunir as obras expostas na exposição.

Entre os artistas chineses de grande destaque, dentro e fora da China, está Sun Xun, presente na mostra com três trabalhos inéditos produzidos durante a sua passagem pelo Brasil, em 2017. Xun é um expoente da nova geração de artistas chineses e suas obras ambiciosas carregam narrativas pluriversais, ou seja, voltadas a várias sociedades e modos de pensar, ainda que lancem mão de suportes tradicionais, como a xilogravura e a tinta chinesa. “O visitante vai se impressionar com o talento excepcional desse artista, que busca inspiração em culturas diversas e na literatura para compor uma produção dinâmica e reveladora”, promete o curador.

Outros artistas com grande virtuosismo técnico participam do projeto, como Angel HUI Hoi Kiu, que se inspira na Dinastia Ming (1368-1644), período das brilhantes e celebradas porcelanas brancas e azuis, em suas pinturas com tinta chinesa, trazendo elementos do cotidiano de Hong Kong, como os parques, a flora e a fauna do lugar. Ela também transmuta objetos, ao desenhar e pintar sobre papel higiênico e lenços para assoar o nariz, por exemplo. “Assim eu transformo a natureza desses materiais, conferindo propriedades da parte a esses objetos antes utilitários”, explica Kiu.

Um ponto alto da exposição é a relação que alguns artistas brasileiros estabelecem com a cultura chinesa. “É tão forte, que quando o visitante chegar às salas da exposição será praticamente impossível para ele determinar se a obra foi criada por um artista chinês ou brasileiro. Há uma convergência estética imensa entre os dois grupos. É justamente essa confluência cultural que me estimulou a produzir a exposição, que levou quatro anos para ser oganizada”, conta Clay.

O curador afirma que já foram realizadas no Brasil algumas exposições de artistas chineses, mas não de forma tão imbricada com a cultura brasileira e vice-versa. “Neste projeto, não existe separação entre os dois grupos de artistas. As obras relacionam-se, fluem juntas, como águas de um mesmo rio. E, ao mesmo tempo, ao criarem novas conexões, suscitam reflexões sobre a sociedade global em que vivemos. É uma arte do aqui e agora”, explica.

O público encontrará obras em suportes e linguagens variados, como pintura (a tinta acrílica, a óleo e com tinta chinesa); escultura; fotografia; azulejaria, arte in situ; animação; e recorte em papel (ícone da tradição chinesa). Esta última técnica é trabalhada com maestria pelo paraibano radicado em Brasília Christus Nóbrega, na série “A Roupa Nova do Rei”, de 2016, fruto de uma residência artística de 60 dias em Pequim, no ano anterior.

Desse mesmo artista, o público poderá apreciar também a série inédita “Coleção vermelha”, de 2021, na qual estabelece paralelos entre os povos indígenas do Brasil e da China por meio da cor vermelha. “Graças à mobilidade e à curiosidade intelectual humana nos conectamos, aprendemos, compreendemos e evoluímos com outras culturas. As exuberantes obras de Nóbrega dificilmente poderiam ser materializadas sem a sua imersão na vida chinesa”, elucida o curador.

A exposição acolhe obras inovadoras e provocativas de outros artistas brasileiros, como a gaúcha radicada em Brasília, Dulce Schuck Schunck, que há trinta anos desenvolve sua arte. Elas se conectam com narrativas chinesas, mas têm uma visão global, nada provinciana. Com isso, oferecem novas perspectivas e leituras estimulantes para o observador”, diz Clay.

Para celebrar a sua jornada, Schunck ganhou uma sessão exclusiva na exposição para expor sua série mais celebrada e dinâmica, “Flora do Cerrado” (2012-2021), totalmente impregnada pelo vocabulário chinês. “Minhas obras estabelecem conexões com a cosmovisão milenar chinesa: uma percepção orgânica da natureza, baseada na consciência da unidade e na integração de seus fenômenos”, descreve a artista.

O curador Clay D’Paula conclui que “essa é uma oportunidade ímpar para o público carioca conhecer artistas com prestígio internacional, obras sofisticadas, e, principalmente, dotados de imensa sensibilidade para representar, com rigor e mestria, as belezas e principalmente os desafios que a humanidade atravessa em nosso tempo”.

Christus Nóbrega, A roupa nova do rei (2015-2017)| IMAGEM: cortesia do artista

Acessibilidade

As obras da artista Dulce Schuck Schunck presentes na exposição possibilitam uma experiência tátil para pessoas com deficiência visual, ampliada por um audioguia musical. “Com a possibilidade de tocar as obras, os visitantes entram em uma nova dimensão. A experiência permite o sentir das linhas, das formas e contornos das obras de arte com as mãos. Isso torna o meu trabalho mais inclusivo, oferecendo oportunidades para esse público que muitas vezes são deixados de lado em projetos de arte”, esclarece ela.

Segundo a artista, além da questão estética, as suas obras também focam na preservação ambiental. “Quero chamar a atenção do público para as belezas naturais de nosso planeta, ao aguçar a sensibilidade das pessoas sobre a importância de cuidar dos ecossistemas”, comenta ela, que possui doutorado em “Aplicação da arte na educação ambiental”.

Entre as obras que podem ser tocadas está a “Caliandra”, uma planta nativa do cerrado brasileiro, cujas flores surgem na primavera e no verão. “A criação da artista nos oferece flores etéreas e eternas. Estão sempre floridas. Com cores pulsantes e com linhas que nos permitem ver o invisível. Mas como assim ver o invisível? É possível com as mãos sentir a seiva que leva a água, os nutrientes, o oxigênio e o gás carbônico para o corpo das plantas”, considera o curador da mostra.

Além de tocar as obras de arte, os visitantes podem apreciar a exposição por meio de um audioguia musical, criado especialmente para a mostra. A jornalista Cleide Lopes, da EBC, e o curador Clay D´Paula narram obras chaves que contribuíram para a criação do conceito geral da exposição.

Para acessar o audioguia é só apontar a câmera do celular para os QR codes colocados perto das obras de arte e ouvir as faixas que trazem informações sobre a coleção exposta. Para uma experiência mais ampla, é recomendado que o visitante leve o fone de ouvido de casa.

Sun Xun, O cenário da América do Sul, 2017 | IMAGEM: cortesia do artista

Artistas

Alberto Oliveira 阿尔贝托·奥利维拉

Angel HUI Hoi Kiu 許開嬌

Christus Nóbrega 克里斯图斯·诺布雷加

Dulce Schuck Schunck 杜尔塞·舒克·顺克

Eduardo Tropia 爱德华多·特罗皮亚

Fernanda Pacca 费尔南达·帕卡

Glênio Lima 格莱尼奥·利马

Joseph Tong 唐子良

Ligia de Medeiros 利贾·德·梅代罗斯

Mzyellow 黄建国

Phil 菲尔

Pu Jie 浦捷

Raquel Nava 拉奎尔·纳瓦

Sanagê 萨纳吉

Sun Xun 孙逊

Taigo Meireles 太古·梅雷莱斯

Tianli Zu 祖天麗

Wang Hsiao Po 王晓波

Wilson Neto 威尔逊·内托
Yao Lu 姚璐

Zinan Lam 林子楠

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