Artur Bombonato | Sobrado Dr. José Lourenço

Cantos cobertos de uma cidade esvaziada. Refletores que iluminam lugar nenhum. Imagens entre o instante em que alguma coisa passou e algo porvir. Estátuas e monumentos cegos vigiando vazios. Reflexo do desconhecido na água. Utensílios, ferramentas, borracha, plástico, metal, mato. Natureza-morta, natureza viva apesar de tudo. Uma vastidão de céu, de dunas, de desertos. Fantasmas de pedra e pixel passam na TV sem ninguém assistir, uma bandeira tremula no rádio pra ninguém ouvir. O universo imagético do artista Artur Bombonato nos chega como uma anunciação da paisagem distópica que o mundo reflete neste ano de 2020: o esvaziamento, as máscaras, as penumbras… Mas são de suas andanças pelo mundo e seus olhos assentados sobre diferentes espaços urbanos, do cinema contemporâneo, da linguagem videográfica da internet que ele constrói, em óleo sobre tela, a Exposição “Pós-tropical”, sua primeira mostra individual reunindo 18 obras, que tem curadoria de Ana Cecília Soares e Júnior Pimenta, e será aberta ao público de forma híbrida (presencial e virtual), no dia 12 de dezembro, uma manhã de sábado.

Bombonato é um artista de 31 anos que começa sua trajetória na arte urbana, é a partir do grafite e do muralismo que se conecta com as ruas de Fortaleza, cidade onde vive, e de tantas outras em países como Argentina, Marrocos e França. Desse frenesi de cores e urbes, ele salta para um trabalho de produção mais constrito, criando territórios de invenção dentro da tradicional linguagem da pintura sobre tela. Viu crescer daí o interesse pela história da arte e por estudos mais formais, passou pelo curso de artes visuais do IFCE, durante um ano, e estudou em Roma com o hiperrealista Adriano Fida. O ateliê onde trabalha fica na ferveção do Centro da Cidade, em um prédio comercial antigo, onde produz nas madrugadas silenciosas de ruas esvaziadas e desabitadas. Essa paisagem e outros afetos saltam para o realismo de suas pinturas que trazem um universo de invenção muito singular, como explica Artur. “Partindo de uma base de composição mais ou menos estruturada a uma maneira clássica e proporcional, as imagens, ao serem pintadas, vão se tornando outra coisa. As escolhas intuitivas vão estabelecendo novos diálogos sob os quais não tenho total controle, a não ser pela tendência de fugir de certezas e fechamentos. A intenção é deixar o inesperado agir na dimensão significativa, mas também em sua dimensão pictórica, eventualmente forçando erros e acidentes, “criando problemas” para então encontrar brechas com ferramentas que estiverem à mão: pincéis, espátulas, escovas, panos, réguas, solventes e os próprios dedos”. As obras ecoam em imagens e ruídos, fragmentos quase fotográficos e seus “defeitos” revelando o traço pictórico e as narrativas interrompidas, enigmáticas e distópicas de um artista brasileiro que pensa o seu tempo, “pós-tropical”, refletindo sobre ser um pintor brasileiro hoje, nessa conjuntura política em escombros.

Em um texto crítico sobre os trabalhos de “Pós-tropical”, o poeta, compositor e cineasta Uirá dos Reis escreve: “Sair das ruas para criar matéria que funcione nos espaços tradicionais de exposição não poderia se dar sem um gesto de invenção. Bombonato então decidiu-se por pintar a óleo mudando a natureza dos objetos, experimentando técnicas que o ajudassem na transcriação do realismo exigido por seus retratos e buscando a relevância em seus assuntos poéticos/pictóricos. Assim surge este corpo de trabalho repleto de paisagens onde o realismo é revisitado a partir de um espectro penumbral e quase silencioso da vida urbana, tão conhecida por seus sons sobrepostos, suas luzes coloridas que teimam em celebrar o capital e suas gentes tantas que correm de um lado a outro como se perdidas entre avenidas, automóveis e arranha-céus, sempre em vias de se atrasar para algum compromisso inadiável. É como se tudo isto já fosse passado, já não importasse ou mesmo existisse. A natureza não necessita de nossa contemplação para que ressurja, então ressurge e se recria nestas paisagens vazias: Os subsolos são tomados por água que brota do concreto, as aves insistem no céu enevoado e as árvores crescem teimosas entre os escombros de um mundo que ainda há mas não mais é, porque aqui tudo resiste mas nada é.” A Exposição “Pós-tropical” foi contemplada no VIII Edital das Artes de Fortaleza – Secultfor. A programação inclui o lançamento de um catálogo e visitas guiadas com Escolas e pessoas que nunca foram a uma exposição, além de oficina com jovens que vivem na periferia.

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