A mostra permanente Arte Pública Cerâmica – Edição Saquarema está entregue para preservar a memória de Saquarema, valorizar o patrimônio e suas comunidades tradicionais, com 67 imagens em fotocerâmica, em painel com 2m². Fixado no dia 7 de maio de 2026 em área externa da emblemática Casa da Pedra, o painel resgata as memórias do município, que estão preservadas e aberta para visitação dos moradores, turistas e público em geral que frequenta o espaço (abaixo, Serviço, fotos originais e suas fotocerâmicas e, outros links).
Idealizado pela artista visual e ceramista, Julia Botafogo, com curadoria de Joanna da Hora, a partir da pesquisa histórica de Tainá Miê, o projeto Pedagogia do Barro destaca um dos eixos centrais da realização, quando uma chamada pública reuniu mais de 400 fotografias – cerca de metade enviadas por moradores, revelando narrativas sobre pesca, modos de vida, relações familiares, transformações da paisagem e memórias afetivas do território.
A artista destaca que o conceito de “Pedagogia do Barro” amadureceu ao longo da experiência, especialmente a partir da reflexão sobre memória e permanência. “Uma das ideias que surgiu desse processo foi pensar a criação de vestígios para o futuro. A cerâmica permanece. Mesmo que um dia o painel não exista mais na parede, esses fragmentos podem sobreviver enterrados, como acontece com os sambaquis. Talvez daqui a milhares de anos alguém encontre esses cacos e reconstrua histórias sobre esse lugar.” Para Julia, essa dimensão amplia o sentido da obra pública: “O projeto não fala só do presente. Ele cria marcas materiais capazes de atravessar o tempo.”
Fotografias do arquivo pessoal das comunidades e, também, com a colaboração de instituições locais, responsáveis por cerca de 200 fotografias provenientes de diferentes acervos, como: o Museu do Sambaqui; o Templo do Rock; o Museu de Conhecimentos Gerais; e, o acervo do Centro de Memória de Saquarema, de onde vieram mais de 170 imagens e que foi fundamental como ponto de partida para a pesquisa e para a definição dos recortes curatoriais da ação.
“Os painéis de fotocerâmica estimulam o conhecimento e reconhecimento da história do lugar e sua ancestralidade. Valorizam e divulgam o patrimônio cultural e suas memórias – fundamentais na manutenção e conservação do lugar”, reflete Julia Botafogo.
A seleção das imagens aconteceu a partir de uma reunião curatorial aberta, que promoveu escuta ativa e troca entre participantes. O encontro reuniu relatos, histórias e memórias compartilhadas coletivamente, em um ambiente marcado por forte envolvimento emocional e construção narrativa. Um episódio simbólico desse processo ocorreu quando o historiador Caio Silva levou à reunião uma fotografia da Miss Saquarema de 1968, que, por acaso, é a mãe da artista visual e idealizadora do projeto, Julia Botafogo. Esse fato evidencia como as camadas de memória pessoal e coletiva se entrelaçam na oportunidade do resgate da história.
A curadoria foi conduzida por Joanna da Hora, em diálogo com a pesquisa histórica de Tainá Miê, organizando o conjunto de imagens a partir da diversidade de acervos — institucionais e pessoais –, reunindo imagens que refletem a diversidade cultural, histórica e afetiva do território. A obra nasce de um processo coletivo que envolveu pesquisa histórica, mobilização territorial, articulação institucional e participação direta da comunidade local.
“No processo de curadoria se confirmaram temáticas muito importantes para o território, como a presença dos sambaquis e centralidade da pesca tradicional e do surf, mas surgiram também eixos temáticos que não imaginávamos em um primeiro momento, como a história da educação em Saquarema”, conta a curadora Joanna da Hora
“A arte participa do ciclo da memória: aquilo que o tempo leva, ele também transforma em vestígio, permitindo que novas histórias sejam contadas a partir do que permanece.”, afirma a historiadora Tainá Mie, que assina a pesquisa histórica territorial.
Produzidas manualmente, uma a uma, utilizando argila, óxido de ferro, vidrado e queimadas a 1000ºC, garantindo durabilidade e permanência no espaço público (quando até a lava de um vulcão não pode derreter, já que a temperatura expelida pelo vulcão é de 900º). Cada peça é única e resulta de um processo artesanal que articula técnica, tempo, observação e escuta.
“Com o barro, aprendi algumas lições: não existe erro, tudo é resposta do tempo; e que a matéria é viva, não adianta forçar, é preciso senti-la. Talvez, por isso, a cerâmica seja tão adequada para trabalhar memória e ancestralidade”, ressalta a artista.
Continuidade e expansão é o legado que o projeto Pedagogia do Barro deixa para o território, que além da instalação física do painel na Casa da Pedra, o projeto contará com uma exposição virtual no perfil @artepublicaceramica, que apresenta o processo, os bastidores e as narrativas construídas ao longo do processo, ampliando sua dimensão como jornada artística e pedagógica.
Também, com a busca pela continuidade, um ateliê-móvel foi criado e concebido como estrutura para circulação, permitindo a continuidade do selo Arte Pública Cerâmica em outros territórios.
“Com a Pedagogia do Barro reafirmamos a arte pública como ferramenta de educação patrimonial, salvaguarda da memória e fortalecimento cultural, ao cruzarmos acervos institucionais e pessoais, relatos orais, pesquisa histórica e prática artística. Transformar acervos dispersos em presença material e acessível no espaço urbano é inscrever no espaço público, narrativas que atravessam o tempo e projetam futuros possíveis. A cerâmica é resistente ao clima – sol e chuva –, e o tempo cronológico atravessará muitas gerações. E assim, perguntamos: o que se quer eternizar e o que desejamos compartilhar com as futuras gerações!!?”, ressalta Julia Botafogo.


