No dia 14 de janeiro de 2026, o Projeto Maravilha apresenta a sua segunda edição com a inauguração de Typus Terra Incognita (2025), escultura de grande formato comissionada à artista carioca Anna Bella Geiger, uma das mais decisivas e relevantes da arte brasileira contemporânea. Aos 92 anos, com sete décadas de carreira, a pioneira da videoarte no Brasil assina a nova intervenção no Bosque das Artes, espaço de arte contemporânea ao ar livre instalado em área preservada de Mata Atlântica, a quase 400 metros de altura, no Parque Bondinho Pão de Açúcar® — cartão-postal formado há cerca de 600 milhões de anos.
Idealizado por Fabio Szwarcwald e curado por Ulisses Carrilho, o Projeto Maravilha propõe um diálogo entre arte, natureza e tecnologia, comissionando expoentes da arte brasileira para criarem obras de grande escala em contexto de preservação ambiental. A iniciativa é carbono neutro, com todas as emissões compensadas por meio de créditos certificados pela ONU.
A artista e a geografia como invenção
Desde os anos 1950, a obra de Geiger atravessa as relações entre geografia, linguagem, corpo e política. Nos anos 1970, ela passa a questionar sistematicamente o mapa — não como desenho neutro, mas como artefato ideológico, dispositivo que define o que pertence e o que fica fora, o que o olhar europeu colonizou e o que permaneceu como “desconhecido”.
“Se o Vergara nos fez olhar para a Mata Atlântica e para o tempo da pedra, a Anna Bella nos faz olhar para o modo como representamos o mundo”, afirma Carrilho. “Ela está há décadas dizendo que toda representação é incompleta, datada, falha. Levar essa afirmação para um mirante natural do Rio é muito potente.”
A artista conta que o convite do Projeto Maravilha a levou diretamente à forma da gaveta: “Lá em cima, naquele lugar, tinha de acontecer uma coisa sólida, com um certo sentido de permanência. Então pensei: vai ser uma gaveta. Eu precisava pôr essa situação geográfica num contêiner. A gaveta abriga e revela, mas nunca contém tudo. Nenhuma imagem dá conta do mundo”, reflete Anna Bella.
“A partir de um objeto cotidiano, como a gaveta, temos a oportunidade de pensarmos criticamente a questão da memória, da História que se pretende oficial. O arquivo, assim como o mapa, é um dispositivo de poder, um objeto cheio de carga simbólica, o que dá mais corpo e urgência à proposta que recebemos da artista para esse comissionamento”, pontua Ulisses.
“Fronteiriços”, “Macios” e a passagem para o espaço público
Typus Terra Incognita nasce de um dos eixos decisivos da pesquisa de Geiger: a série “Fronteiriços”, iniciada quando a artista começou a guardar seus mapas em cobre — dobraduras e estudos geopolíticos produzidos desde meados dos anos 1970 — em gavetas de arquivo. Ao trazer a gaveta para o Pão de Açúcar, ela monumentaliza um gesto que, na origem, era quase doméstico e artesanal.
A escultura se organiza em três nichos concebidos como compartimentos de um mesmo pensamento. Na parte superior, um mapa-múndi vazado em aço corten ocupa o centro da estrutura, remetendo diretamente à série “Fronteiriços”. Por meio desse recorte, a paisagem do Rio de Janeiro — a Baía de Guanabara, o mar e as montanhas — surge enquadrada pelo mapa, como se o território real se projetasse dentro da cartografia imaginada pela artista.
Nos dois nichos inferiores, o diálogo se dá entre linguagens e tempos distintos. De um lado, as duas gravuras da série “Arte y Naturaleza” (Local da ação, 1500–2006 [2006], que remete à pesquisa iniciada nos anos 1970 sobre o território brasileiro e os modos de nomear a terra; e Na outra margem del río Amazonas [1974], fotoserigrafia que alude ao sistema amazônico e às urgências do debate climático). Do outro lado, um frame do filme Passagens 2 (1974), no qual a artista entra e sai lateralmente do quadro, deslocando o corpo no espaço gráfico da imagem. Juntas, essas camadas de matéria e imagem constroem uma espécie de atlas escultórico, em que os gestos de arquivar e de atravessar o mundo se sobrepõem.
A artista explica: “No momento em que veio o projeto, eu soube que tinha de criar algo sólido, um objeto com um certo sentido de eternidade. Concebi uma gaveta, o contêiner possível de uma situação geográfica. Essa gaveta abriga e revela, mas nunca contém tudo. Nenhuma imagem dá conta do mundo”, afirma. “No vídeo das passagens, o tempo insere e retira o corpo. É efêmero e é intenso. Eu sempre tive essa sensação de estar aqui de passagem — não no sentido da morte, mas de que a imagem nunca é a coisa toda.”
A estrutura também ecoa a série dos “Macios”, pinturas elípticas, levemente abauladas, em que Geiger explora o abstracionismo informal e a tensão entre gesto e território. Aqui, essa lógica de “dar corpo ao plano” reaparece com uma grande estrutura vazada: com cerca de quatro metros de largura e abertura na parte superior para emoldurar o horizonte, a obra é instalada de forma a convidar o visitante a mirar através dela; e a refletir sobre como olhamos e representamos o espaço.
“Para a Anna Bella, um mapa nunca é neutro. É sempre narrativa de poder e conhecimento. O que ela faz é transformar mapa em dispositivo poético e político, lembrando que toda ciência é também imaginação”, comenta Carrilho.
A obra incorpora, ainda, quatro anjos barrocos — como os que apareciam em antigos mapas, soprando os ventos — posicionados nas extremidades da peça, indicando os pontos cardeais e evocando o imaginário das navegações e das viagens sem mapa.

