Anna Bella Geiger | Edições Sesc São Paulo

Com apresentação do diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, o livro reúne entrevista, ensaio crítico, biografia e imagens de acervo pessoal e de obras da artista multimídia

Nascida no Rio de Janeiro em 1933, Anna Bella Geiger é escultora, pintora, gravadora, desenhista, artista multimídia e professora. A poética de sua produção contribuiu para o debate cultural brasileiro e sempre caminhou lado a lado com a sua atuação didático-educacional, tendo orientado inúmeros artistas reconhecidos nacional e internacionalmente.

Segundo volume da coleção Arte, Trabalho e Ideal (o primeiro foi sobre Evandro Carlos Jardim), a edição conta com um texto crítico que reflete sobre o conjunto da obra de Anna Bella, escrito pela docente espanhola Estrella de Diego, além de uma entrevista da artista para o curador mexicano Pablo Léon de La Barra, que se inicia da seguinte forma: “A minha postura com relação à arte é conceitual ou ideológica. Eu não fujo disso”.

Em sua apresentação, o professor Danilo Santos de Miranda destaca: “Valorizar o legado da artista e seu percurso, que se mantém perenemente forjado por uma visão crítica, política e social, bem como por inquietações dos campos subjetivos, enseja o entrelaçamento das faces manifestas do que somos, ou do que podemos vir a ser.”

Pioneira do abstracionismo, Anna Bella Geiger é uma das mais importantes artistas brasileiras da segunda metade do século XX. Sua obra começa a ser reconhecida em desenho e gravura em meados dos anos 1950 e, já na década seguinte, seu trabalho torna-se figurativo.

De 1965 a 1968, ela produz o que é chamado pela crítica de “fase visceral”, na qual as imagens concebidas investigam a realidade orgânica mediante a representação fragmentada do corpo como referência a um possível mapa do microcosmo.

Sua produção da década de 1970 recria perspectivas e traz muitas experimentações com fotogravura, fotomontagem, serigrafia, xerox, cartão-postal, vídeo e Super-8, sendo pioneira no campo da vídeo arte. Também apresenta trabalhos que abordam questões relativas à identidade e à cultura nacionais, ao local do artista na sociedade e a constituição do meio de arte no Brasil e sua posição no mundo.

Folhear as 156 páginas deste título é um convite a caminhar pelo ateliê da artista, onde se encontra, por exemplo, muitas imagens de acervo de suas experimentações, obras, fotos pessoais e os cartões-postais da série Brasil Nativo/Brasil Alienígena (1977), na qual Anna Bella dispõe nove cenas da vida indígena lado a lado com retratos de sua vida cotidiana, o que foi muito emblemático na época.Muito atual, esse trabalho demonstra a inquietude da artista ao pensar a cultura brasileira como resultado de tensões, continuidades e descontinuidades, e a negação de uma unidade cultural orgânica.

Para Anna Bella, trata-se de uma busca incessante por caminhos de expressão, sempre dentro de um processo contemporâneo,buscando refletir em cada uma de suas obras a sua percepção de realidade como forma de expressão individual e como meio de contestação.

Suas obras fazem parte do acervo de importantes instituições, como Tate Modern e Victoria & Albert Museum, em Londres; MOMA, em Nova York; Centre George Pompidou, em Paris; e Getty Museum, em Los Angeles.

Para os organizadores, investigar sobre os preceitos de arte, trabalho e ideal é como colocar em uma perspectiva triangular as relações entre o artista, os meios que ele emprega e a coletividade. Trata-se de uma geografia tão variável e mutável quanto as práticas do pensamento e indivíduos. Um triângulo sempre em movimento, como um protótipo que escapa a modelizações: “Quando o pensamento se torna forma, impulsionado por um processo coletivo, ele carrega consigo as condições de sua urgência. Urgência que, por sua vez, é renovada pela prática e inscrita em sua época, o tempo necessário para a sua realização”.

Ainda segundo os organizadores, “o triângulo arte, trabalho e ideal circunscreve o gesto artístico. O pensamento crítico o acompanha e as técnicas o torna possível. Esse gesto define a fabulosa complexidade da relação com o mundo e a insaciável necessidade que o artista tem de questioná-la, mensurá-la e inventá-la”.

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