A Pinakotheke Cultural, no Rio de Janeiro,abrirá para o público no dia 18 de março de 2024 a exposição Anjos com armas, apresentando aproximadamente 50 obras dos artistas Sergio Camargo (1930-1990), Lygia Clark (1920-1988), Mira Schendel (1919-1988) e Hélio Oiticica (1937-1980. A curadoria é de Max Perlingeiro, diretor da Pinakotheke Cultural, com a colaboração do artista Luciano Figueiredo.
A mostra é um tributo ao crítico e curador britânico Guy Brett (1942-2021), que desempenhou papel decisivo na internacionalização da arte brasileira, ao criar, junto com o artista filipino David Medalla (1942-2020), e outros amigos, a lendária galeria Signals, que de 1964 a 1966 exibiu obras desses fundamentais artistas que são Lygia Clark, Hélio Oiticica,Mira Schendel e Sergio Camargo. Quatro obras que estiveram originalmente na Signals, estarão expostas na Pinakotheke Cultural: “Bicho-Contrário II” (1961), “Espaço Modulado nº 4” (1958) e “Espaço modulado nº8” (1959), de Lygia Clark, e “Relief” (1964), de Sergio Camargo.
A respeito da Signals, Max Perlingeiro comenta que “contracultura pra eles era tudo que saia do mainstream, e não tinha na época nada mais fora do pensamento dominante do que a arte latino-americana na Inglaterra dos anos 1960”.
Até o fim de sua vida, Guy Brett foi próximo dos artistas brasileiros. “Guy Brett sempre foi a grande referência para uma melhor compreensão da produção artística no Brasil a partir dos anos 1960. Sua amizade com artistas como Sergio Camargo, Hélio Oiticica, Lygia Clark e Mira Schendel, na década de 1960, e, mais tarde, com Lygia Pape, Cildo Meireles, Antonio Manuel, Tunga, Waltercio Caldas, Regina Vater, Roberto Evangelista, Maria Thereza Alves, Jac Leirner, Ricardo Basbaum e Sonia Lins, propiciou a divulgação da produção artística brasileira através de diversos artigos e livros”, afirma Max Perlingeiro. Para ele, o livro “Brasil experimental-arte/vida: proposições e paradoxos” (editora Contracapa, 2005), com textos de Guy Brett sobre esses quinze artistas citados acima, com organização e prefácio de Katia Maciel, e tradução de Renato Rezende, é “leitura obrigatória”.
Na abertura de “Anjos com armas”, estará presente o crítico, historiador e filósofo da arte Yve-Alain Bois (Constantine, Argélia, 1952), pesquisador no prestigioso Institute for Advanced Study, em Princeton, EUA. Em 2022, Yve-Alain Bois publicou na “October Magazine”, do Massachusetts Instituteof Technology (MIT), o ensaio “Angels with Guns” (“Anjos com armas”), em que faz reflexões sobre o pensamento de Guy Brett (1942-2021) e do artista filipino David Medalla (1942-2020). Yve-Alain Bois foi amigo próximo de Lygia Clark desde o final dos anos 1960 até a morte da artista.
Max Perlingeiro lembra que o contato com o grande crítico Yve-Alain Bois surgiu quando pensou na exposição comemorativa do centenário de Lygia Clark – realizada de agosto a outubro de 2021 na Pinakotheke Cultural, no Rio de Janeiro, e de novembro de 2021 a 15 de janeiro de 2022, na Pinakotheke em São Paulo. Naquela mostra, ele obteve a “preciosa colaboração” de Yve-Alain Bois, e publicou um trecho de seu ensaio “Angels with Guns”, que agora chega na íntegra ao público brasileiro, com a exposição “Anjos com Armas”.
Na abertura da exposição será lançada a dupla publicação “Anjos com Armas”– dois volumes envolvidos por uma “luva” – bilíngüe (port/ingl), em formato de 21 x 27 cm. O primeiro, com 132 páginas, traz na íntegra o texto “Anjos com Armas” (“Angels with Guns”), de Yve-Alain Bois.
Quando o filósofo enviou o texto para a tradução em português, ele instigou a Pinakotheke a montar uma exposição com base no ensaio, que trata-se de um texto muito amoroso sobre a importância da Signals e a amizade.
O volume 2, com 128 páginas, contém as imagens das obras da exposição, e fotografias de época, como as que mostram a Signals. Os textos são de Guy Brett sobre os artistas Sergio Camargo, Lygia Clark, Mira Schendel e Hélio Oiticica, apresentação de Max Perlingeiro, e ainda um texto de Luciano Figueiredo, que em 2017 organizou, com Paulo Venâncio Filho, no Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro, a exposição “Guy Brett: a proximidade crítica”, em “reconhecimento ao longo interesse intelectual e afetivo do crítico por nossos artistas”, assinala Max Perlingeiro.
Outros destaques da exposição são os Bichos, de Lygia Clark, em alumínio: Bicho caranguejo (1960) e Bicho-contrário II (1961); o conjunto de sete “Metaesquemas” de Hélio Oiticica, de 1957 a 1959; o conjunto de seis “Relevos”de Sergio Camargo, entre eles o Relevo nº 172 (Fenditura spazio orizzontal e lungo), de 1967; os seis trabalhos da série “Monotipias” dos anos 1960 de Mira Schendel, além de seu “Caderno de artista” (1966), o “Diário de Londres”, em que a artista usa, “ao que parece, pela primeira vez, as letras decalcadas (letraset)”, afirmou Taisa Palhares, no catálogo da exposição “O espaço infindável de Mira Schendel” (2015), na Galeria Frente.
Além dos textos de Guy Brett sobre os artistas, e outros de Max Perlingeiro, Yve-Alain Boise Luciano Figueiredo, estará em uma parede da exposição uma linha do tempo da Signals, com fotos.
O título do ensaio de Yve-Alain Bois, que dá nome à exposição – “Anjos com Armas” – é tema de uma longa reflexão do pensador, desenvolvida em seis páginas do livro. Ele inicia o capítulo escrevendo que: “Talvez o texto que, para mim, melhor sintetiza o tom inimitável de Guy Brett, que é também o que eu chamaria de seu método, é sua reflexão sobre as recorrentes imagens de anjos na arte latino-americana pós-conquista, em especial a profundamente perturbadora e ambígua imagem do anjo com uma arma”. Continua o autor: “Bastante apropriado, portanto, que ele se perguntasse o que o atrai una enigmática figura do anjo com uma arma (“tanto oficial e coercivo quanto não oficial e subversivo”) e ponderasse sobre sua popularidade nos Andes ao longo do século XVIII!”.
Yve-Alain Bois destaca que “Brett menciona sua relutância em ‘impor sua visão’, seu anseio pelo ‘apagamento de si’: ‘Sempre desejei me posicionar como um observador de mente aberta, um pouco como os aventureiros ingênuos de romances picarescos que se deparam com diferentes situações ao longo do caminho e reagem a elas como podem ou como querem’. Contudo (…) seu olhar picaresco não se deixa seduzir pelo exotismo”. (…) Paradoxos e ambiguidade são a ‘obsessão pessoal’ de Brett — a luta dialética de opostos e sua colusão/colisão num único objeto é o leitmotiv desses ensaios”,
“Não é por acaso”, segue Yve-Alain Bois, “que este livro se inicia com ensaios sobre Hélio Oiticica, Lygia Clark e David Medalla, artistas a quem Brett foi o primeiro a apoiar na Europa e aos quais ele sempre faz referência. O que esses três artistas têm em comum é uma recusa a se fossilizar a qualquer custo (daí seu constante recurso ao efêmero como um ataque camicase às instituições) e um profundo desejo de questionar a identidade estável do autor”.
“Brett conclui ‘Being Drawnto na Image’ invocando o cineasta brasileiro Glauber Rocha a respeito do potencial revolucionário do sonho (‘o sonho é o único direito que não se pode proibir’). Bakhtin [filósofo russo; 1895-1975] concordava com essa ideia, embora ele provavelmente não tivesse usado a palavra ‘evolucionário’”.
“Sonhos são carnavalescos, irreverentes – eles acolhem contradições, eles invertem ou colapsam o alto e o baixo, assim como todos os opostos hierárquicos; por natureza, pervertem qualquer discurso monológico, lançam dúvidas sobre todas as afirmações. Guy Brett nos conta que certas ‘imagens dialéticas’ podem desempenhar a mesma função — isto é, desde que alguém seja curioso ou paciente o bastante para interrogá-las. Pensando no anjo com uma arma, gostaria de terminar com outra invocação de sonhos — a definição de ambiguidade de [Walter] Benjamin em seu ensaio de 1935, ‘Paris, capital do século XIX’: ‘A ambiguidade é a imagem pictórica da dialética, a lei da dialética vista em paralisação. Essa paralisação é utopia, e a imagem dialética, portanto, uma imagem onírica’”.

