Andrea Brown | Galeria Gaby Indio da Costa Arte Contemporânea

Andrea Brown conversa com linhas, planos e cores com intimidade, convidando a uma aproximação repleta de encontros inesperados. São formas que surgem nas interseções, retas que se cruzam como quem cruza caminhos, possibilitando escolhas e sentidos. Os espaços se oferecem a cada ângulo e nos elementos que se repetem antevemos sombras e mistérios infinitos. Se as formas se fecham em si mesmas cabe ao espectador atento encontrar a saída, perceber a luz que se espalha por todas as obras dessa artista que usa as sombras como ponto de partida. Caso as linhas possam parecer rígidas e impessoais, Andrea empresta a elas a afetividade e o calor das cores compostas por camadas de sombra. Interessa à artista os espaços que surgem do encontro das linhas, a geometria, grades onde podem ser inseridos traços de humanidade apesar do rigor da construção. Há um movimento constante em suas obras. O olhar ficará sempre à procura de novos desafios, como se a cada esquina espreitassem outros elementos a serem decifrados.

Andrea utiliza as cores como palavras, como meios de contar histórias de dias e horas, revelando, com cuidado, o fio condutor. Os vermelhos intensos traduzem melhor o calor das 13:48, quando o sol ainda está alto. Às 17:50 tons mais suaves se fazem necessários pois a tarde já se põe adiantada, anunciando as sombras da noite. Por trás das linhas a cor se oferece, não apenas como fundo, mas como base para uma narrativa mais perspicaz. E as sombras quase sempre têm voz própria e contam de volumes e reflexos. Surgem por vezes em tons de grafite, por vezes metálicas e mais contundentes, mas sempre parceiras da luz. Em algumas obras Andrea cria armadilhas em aço para capturar sombras que por ventura pretendam escapar. Mas elas não se submetem às linhas e nem sempre são encontradas onde se espera. Sombras crescem e recrescem, nascem da luz e decrescem.

Talvez a cultura japonesa de encantamento com a penumbra, com a sinistra quietude encontrada nas sombras, tenha marcado as composições de Brown. Para os orientais a beleza está na gradação de sombras, na “dúbia luz indireta”, que traduz o aconchego e a paz dos abrigos. E para a artista, cujos elementos da casa-abrigo se fazem sempre presentes, esses conceitos dialogam de maneira bastante eficaz. Em sua poética estão as linhas, a geometria e as sombras, mas certamente também o humano, a proteção oferecida por espaços acolhedores e a precisão das formas. A assimetria indica crescimento e a verticalidade aponta o alto. Ou não? Assim começam as conversas e trocas para quem tiver o mesmo olhar atento e observador de Andrea Brown.

Isabel Sanson Portella

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