André Ricardo | Galeria Estação

FOTO: João Liberato

“Só posso falar de pintura, pintando”. Com essa frase, diminuta, porém plena de significância, o artista plástico André Ricardo expressa o que é, para ele, o exercício de seu ofício. Aos 36 anos de idade ele abre, em 19 de outubro, uma exposição individual na Galeria Estação, a primeira dele neste espaço cultural localizado em Pinheiros e que reúne cerca de 40 telas selecionadas sob o olhar curatorial de Tadeu Chiarelli. Alinhada ao discurso do artista, o nome escolhido para a mostra, “André Ricardo: Pinturas”,é uma síntese que remete diretamente a seu fazer pictórico e fala, por si, ao apresentar ao púbico as obras escolhidas.

Para Chiarelli, nas telas que integram a exposição é visível como o artista agrega às estruturas de início de carreira signos vindos de variadas origens. “É como se ele, após seus deslocamentos reais por São Paulo, desenvolvesse agora um transitar virtual, contínuo pela história das imagens. É inegável como pontua essas alusões com citações que, de imediato, remetem tanto para aqueles universos de artistas eruditos que escrutinam a visualidade popular, quanto para aqueles que dela brotaram”, afirma o professor sênior do Curso de Artes Visuais da USP, ex-curador-chefe do MAM de São Paulo e ex-diretor da Pinacoteca do Estado e do MAC-USP. Ainda de acordo com Chiarelli, a produção de André difere daquelas de muitos de seus colegas. Ele pondera: “Isso ocorre pelo fato de que, a cada pincelada, ele denuncia um conhecimento precioso a respeito de como atuar sobre o campo pictórico, desenvolvendo em suas obras um saber sofisticado e altamente erudito aprendido na observação atenta dos trabalhos daqueles e de outros artistas do cânone mais respeitado da pintura ocidental”.

Uma opinião, por sinal, que também é compartilhada pela galerista e colecionadora de arte Vilma Eid. “O que me intrigou e encantou no trabalho do André é a sua força de imprimir veracidade e demonstrar um grande afã pela vida, além de seu comprometimento com a arte. Quando olho para ele, vejo o artista e o pintor. E, sem dúvida, é um dos mais sérios que já conheci”, afirma. Sobre a entrada dele no rol de artistas representados pela Estação, ela diz: “A vinda do André decorre de um processo natural de conhecimento que evoluiu. Além disso, ele comunga dos nossos ideais. André está conosco desde o final de 2019. Passamos juntos a pandemia trabalhando e aguardando ansiosamente o momento de mostrar a sua mais recente produção”, diz.

FOTO: João Liberato

Impactos estéticos e ressignificação

A história de André com a Estação, porém, antecede sua chegada à galeria. Iniciado no domínio de tintas e pincéis desde muito jovem, sempre expressou sua arte em telas e compartilhando seus conhecimentos por meio de aulas particulares e em instituições públicas e privadas. Entre as muitas visitas a galerias e museus da capital paulista, por várias vezes levou seus alunos à Estação. Entre tantas idas e vindas, uma em especial, em 2017, quando conheceu o trabalho do pintor mineiro Neves Torres, o impactou diretamente.

“Na Estação, acabei tendo contato com uma linguagem estética de um universo de artistas que até então pouco conhecia ou desconhecia, dentro e fora do meio acadêmico, mesmo tendo me formado em Artes Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Aqui, fiz uma imersão em uma história da arte repleta de surpresas e sagacidade. Um verdadeiro refresco de referências onde existia uma ponte entre a produção popular e a contemporânea. E é esse sentido da arte que me interessa. Nesse contexto, e particularmente após ver as telas de Neves Torrese de Alcides Pereira dos Santos, que também é outra referência marcante para mim entre os artistas que conheci aqui na galeria, parei para repensar meu trabalho diante de tudo que vi”, diz.

A identificação com essa gramática pictórica que conheceu, afirma o artista, também contribuiu para que ele acessasse suas referências de vida e memórias. “Revendo essa trajetória que culmina com minha primeira exposição como artista da galeria, avalio como coerente o estabelecimento dessa conexão com a coleção. Já havia uma certa intuição que me direcionava a rever minha produção artística a partir desse acervo de grandes nomes da arte contemporânea e popular brasileira aos quais fui apresentado”, avalia.

Nesse sentido, o de rever sua trajetória pessoal e artística, ele estabelece uma analogia recorrendo a um verso do poema “Às Vezes entre a Tormenta”, de Fernando Pessoa, que diz: Porque verdadeiramente sentir é tão complicado que só andando enganado é que se crê que se sente. “Para mim, para se entender é preciso errar. Nesse verso, Pessoa resume de forma profunda o sentido do exercício poético. E o ateliê é esse lugar onde temos a liberdade de errar, de andar enganado. Mas também é o local onde podemos exercer perseverança, paciência e, se tudo der certo, ser surpreendido por algo revelador”, afirma.

A revelação, neste caso, virá a público a partir de 19 de outubro, quando serão conhecidas as obras selecionadas por Chiarelli para a mostra. Trabalhos idealizados em 2020 e produzidos, quase na totalidade, durante quatro meses em 2021. “Ano passado foi um laboratório diante de tantas incertezas. Fiz muitos estudos, aquarelas e esboços que acabaram moldando o estofo necessário para que eu desenvolvesse os trabalhos neste ano. A pandemia, com o isolamento social que se impôs, significou um momento de intensa produção e introspecção que reflete diretamente em meu processo de amadurecimento técnico, poético e afirmativo. A convivência contínua e por tanto no tempo no ateliê criou um vácuo de tempo, abrindo um universo particular propício à criação ao ativar memórias e estimular o exercício poético que move o campo das ideias e das reflexões. Essas obras, ao meu ver, são extensões do meu próprio corpo que materializam a energia que flui nesse espaço de criação”, afirma.

Afeto e memória, como não poderia deixar de ser, estão impregnados na poética de suas telas e permeiam seu apuro profissional ao dominar, de forma quase alquímica, a milenar técnica da têmpera a ovo. Ao combinar distintos materiais, soluções e pigmentos, a criatividade de André se expressa em traços e formas que imprimem na tela uma rica e variada cartela cromática. “Na minha obra, a cor funciona muito como um indício de celebração, que também remete à abertura dessa exposição. A cor cria esse local de festa, que é tão presente tanto nas manifestações sociais quanto culturais. E a festa, vale lembrar, também é um lugar de resistência do saber popular”, finaliza.

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