Entre as margens dos rios e os trançados de fibras vegetais, a memória se inscreve na paisagem e atravessa o corpo. É nesse fluxo entre o visível e o ausente que se estrutura a exposição “Água mansa, vista brava”, do artista goiano André Felipe Cardoso. Em cartaz na Casa Fiat de Cultura, a mostra reúne dez obrasque propõem uma reflexão sensível sobre as relações entre corpo, território e água, a partir de rituais ancestrais ligados ao cerrado brasileiro. As obras combinam trançados, intervenções sobre imagens e escrita como formas de resistência e presença.
Remanescente quilombola da região Norte de Goiás, André Felipe Cardoso traz para o espaço expositivo um conjunto de trabalhos que entrelaçam linguagens como pintura, fotografia, colagem, cestaria e texto. Sua pesquisa parte da relação íntima com as paisagens do seu estado, especialmente os vales do Lago Serra da Mesa, do Rio Vermelho e do Rio Araguaia, para ativar memórias aquáticas e construir uma narrativa sobre as transformações que marcam esse bioma. “
Desenvolvidas ao longo de cinco anos, as dez obras tensionam o vínculo entre a memória individual e coletiva, evocando práticas tradicionais do trançado, do uso ritual das águas e da resistência das comunidades locais. André conta que o título da exposição faz referência ao contraste entre as correntezas brandas, típicas do Cerrado, e o olhar atento de quem observa as mudanças provocadas pela ação humana e pelas alterações climáticas.
Com estruturas produzidas a partir de fibras vegetais, que conectam técnicas ancestrais de cestarias, e intervenções sobre imagens antigas retiradas do livro Encantos do Oeste (1945), de Agenor Couto de Magalhães, o artista constrói dispositivos visuais que remetem a peneiras, redes e folhas: objetos que são, ao mesmo tempo, formas familiares e metáforas sobre passagem, filtragem de memórias e permanência no território. Para André, “tecer à mão” é também um gesto político, um modo de organizar as memórias sertanejas, de manifestar o vínculo com o campesinato e de refletir sobre as formas de intervenção na paisagem.

