André Azevedo | Simões de Assis Galeria

O campo da produção têxtil, em suas práticas artesanal, industrial e artística, é recoberto por concepções estratificadas e fetichizadas. No senso comum, está circunscrito ao universo feminino, doméstico e da manualidade, ocupando, culturalmente, um lugar da sensibilidade, mas não central. Mesmo no que se estabeleceu historicamente como referência em termos de experimentação e ousadia, como o ensino de Bauhaus considerado redefinidor da função social da arte e do artista, o preconceito foi reiterado e só mais recentemente revisado na análise das contribuições da escola.

Como projeto de desfazer territórios e de reterritorialização de concepções, é necessário pensar em estratégias e táticas que ultrapassem as práticas e narrativas históricas e suas reverberações contemporâneas. Não é casual a conexão com Bauhaus, já que um nó importante na trajetória de André Azevedo é seu meticuloso e aprofundado estudo sobre Anni Albers, os impedimentos que a artista encontrou – por ser mulher – naquele ambiente de formação e na leitura atenta de seus comentários técnicos sobre o tecer, considerado por Azevedo um pensamento sobre a própria constituição do pensar.

Nesse diálogo, Azevedo situa de forma crítica sua obra em relação à influência da arte e do design bauhausiano em contexto local, inclusive em práticas reconhecidas como caracterizadoras da arte brasileira em campo internacional, – as experiências concretas e neo-concretas. Também há vínculo com a presença e influência de Max Bill no Brasil. Sua participação em eventos do Instituto de Arte Contemporânea do MASP e a premiação na primeira Bienal de São Paulo, no início da década de 1950, têm impacto direto no movimento Concreto e seu desenrolamento neo-concreto. Baseado em princípios matemáticos, geométricos e racionais, o movimento propaga a herança europeia na arte brasileira das décadas de 1940 e 1950, algo que, nos dias atuais e no Brasil, é revisado a partir do filtro da influência das culturas indígenas e africanas, também carregadas de visualidade organizativa geométrica, mas não limitadas pelo prazer formal, e sim com significados entranhados na cultura de cada um dos grupos.

Esse ponto de vista contemporâneo em direção aos modernismos se configura como tensão e desconfiança, já que da perspectiva atual as promessas de utopias modernistas se revelaram revolucionárias, porém restritas ao olhar europeu, masculino, heteronormativo e branco. Mas se não é possível cobrar essa coerência do passado alinhado aos propósitos contemporâneos, tampouco é possível evitar um sentimento de traição, de promessa radical não cumprida. Azevedo estabelece diálogos intergeracionais com essas promessas dos passados modernistas europeu e brasileiro e refuta suas utopias. Mergulha nos modernismos racionalistas e geométricos e os desconstrói, ou desfia a narrativa já tecida, material que vai servir para novas outras.

Para a presente exposição, André Azevedo apresenta exemplos das séries Macrocélulas, Poemas e Malhas, que apontam para o enquadramento proposto pela racionalidade modernista em compasso de desconstrução. No plano de desterritorialização dessas concepções que propõe revisar, muito além da qualidade sensorial e do impacto visual que as obras operam no visitante da exposição, há um exercício permanente por parte do artista em entranhar-se na experimentalidade do universo têxtil e propor uma vivência e renomeação do mundo a partir daí. Como um antropólogo, o artista oferece ao visitante o desapego das familiaridades cristalizadas convidando o interlocutor a reelaborar seu pensamento a partir dos sentidos. Oferta que Azevedo posiciona em origens das histórias, da arte e pessoal do artista que, filho de um sericultor e de uma artesã têxtil, em uma família interessada na sensorialidade dos tecidos, busca fugir da noção de narrativa linear emblematizada na linha do tempo e tenta reconstruí-la como texto/tecido. Malhas, realizado a quatro mãos com a mãe do artista, se desenvolve a partir da tradição do tecer, desde seu planejamento matemático até à execução final, demonstrando sua afinidade artesanal com as lógicas de programação computacional e das redes virtuais. Poemas instaura a relação tecido/texto, recuperando as palavras como imagem e significado a partir dessa mesma relação.

Em seus textos e entrevistas, Azevedo aponta para a escassez de reflexões que abordem a tecitura para além dos condicionantes restritivos, para além da valorização das práticas têxteis no contexto da arte contemporânea. O que propõe com sua obra é transpor esses limites e permitir que as materialidades provoquem um sentimento de presença corporal, que define a condição humana. Nesse sentido, seu trabalho da série Macrocélula avança como uma grade dos designers modernistas para o espaço, não como organizadora desse mesmo espaço como pretendiam os arquitetos modernistas, mas como estabelecimento de um ambiente de desconstrução e esgarçamento da matéria têxtil em sua extensão temporal e seu escoamento e irreversibilidade. O artista mergulha e exibe um mundo de metáforas sobre os fios, seus processos de elaboração e seus resultantes como tecidos e textos e, nessa vivência, reflete sobre a vida contemporânea e principalmente sobre as histórias da arte em suas múltiplas referências.

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