Ananelia Meireles | Fundação Athos Bulcão

A Fundação Athos Bulcão recebe, a partir de 18 de março, a exposição individual da artista Ananelia Meireles, composta por uma série de estandartes têxteis que combinam bordado manual, materiais ornamentais e frases curtas que transitam entre humor, crítica e conselho. A artista utiliza tecidos nobres, rendas, lantejoulas e pequenos brilhos aplicados à mão para construir obras que evocam simultaneamente a estética das celebrações populares, das procissões religiosas e das tradições domésticas transmitidas entre gerações de mulheres. O resultado é um conjunto delicado que acolhe o olhar, ao mesmo tempo em que provoca reflexão sobre os modos de vida contemporâneos.

A mostra entitulada Amos tem, mas acabou, tem a palavra como elemento central. As frases bordadas surgem como pequenos ditados ou conselhos de mãe, mas carregam camadas ambíguas de sentido: podem soar como elogio, como advertência ou como crítica. Esse jogo de linguagem permite que cada espectador encontre um lugar dentro da obra, deslocando o sentido das palavras e reorganizando seus destinatários. Entre o humor ácido e a sabedoria cotidiana, as mensagens atravessam temas como relações interpessoais, convivência social, pertencimento e as tensões presentes na própria cena artística.

A escolha do estandarte como suporte também é significativa, o objeto é apropriado pela artista como um espaço de fala. Bordadas com paciência e minúcia, as palavras ganham corpo público sem perder o tom íntimo de quem observa o mundo a partir da experiência diária. A manualidade, assumida como gesto deliberado, inscreve no trabalho o tempo do fazer , transformando o bordado em um exercício de insistência e cuidado.

Ananelia Meireles embaralha hierarquias culturais e coloca em diálogo diferentes tradições visuais. O têxtil aparece como técnica, memória e linguagem: um campo para a construção de narrativas críticas a partir da delicadeza.

Entre brilho e ironia, acolhimento e incômodo, os estandartes apresentados na Fundação Athos Bulcão convidam o público a experimentar a voz da artista, sobre duas perspectivas, enfatizada pela expografa Leticia Lofego. A exposição revela instrumentos de pensamento, afirmando o espaço da voz feminina e a força das palavras bordadas à mão.

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