A Pinakotheke Cultural abrirá a exposição “Ana Holck – Ensaios lineares”, com aproximadamente 20 trabalhos da artista carioca Ana Holck (1977), que percorrem sua produção de 2006 até agora, com quatro trabalhos inéditos criados em 2024. Com curadoria de Francesco Perrotta-Bosch, as obras ocuparão o segundo andar expositivo da Pinakotheke Cultural, permitindo ao público acompanhar o percurso da artista, nas séries “Laçados” (porcelana e aço inox), “Grades” (porcelana), “Pontes Cerâmicas” (porcelana e concreto moldado), “Perimetral” (cerâmica esmaltada), “Passarelas” (alumínio pintado e cabos de aço) e “Pontes Vinílicas” (acrílico e vinil adesivo). Nos jardins da Pinakotheke Cultural estarão duas grandes esculturas, “Torres Armadas I e II” (2012), em concreto e aço, com 2,80 metros de altura.
Francesco Perrotta-Bosch destaca que Ana Holck em vários trabalhos “desestabiliza a harmonia entre as partes tão almejada desde a Era Clássica até a Modernidade na arquitetura”. O curador salienta que “Entrocados: canto VI” (2024), “perturba os fundamentos da arquitetura”. “Quando Ana Holck decide pelo encontro de duas paredes, ela ocupa uma posição por milênios preenchida pelas pilastras, as quais, segundo o vocabulário arquitetônico clássico, são encimadas por capitéis. Tais formas não são adornos, mas advêm de séculos de aprimoramento geométrico dos helênicos para o encontro das proporções áureas de decrescimento do raio do círculo, objetivando uma espiral mais perfeita do que a encontrada em um caracol na natureza. Um tanto empiricamente, ou talvez pelo subconsciente, Holck desmesura esse modelo geométrico”, observa. “O cânone arquitetônico de busca do perfeito equilíbrio da forma é rechaçado na sua combinação de porcelana e aço inox”.
“Nos ‘Laçados’, a exacerbação dos giros e das elipses não é uma operação barroca, porque não é proliferação para reafirmação, mas gestualidade de obsessiva contestação às regras. A arquitetura incomoda Ana; e, por sua vez, Ana desafia a arquitetura”, assinala o curador.
“Com uma porcelana delicada, a artista apresenta o equilíbrio estrutural sob uma leve imperfeição: uma forma regularmente constituída por elementos metálicos é refeita sob a égide da mão – como uma inversão da marcha histórica da evolução das cadeias produtivas, Holck apropriou-se um modelo industrializado e o converteu em artesania”, escreve Francesco Perrotta-Bosch. “Tais Pontes cerâmicas aparentam estar suspensas num momento de construção que não finda, permanecendo em um vaivém entre o projetado e o incidental”. Essa correspondência com o canteiro de obras reaparece na série Torres armadas, com trabalhos compostos por elementos de concreto pré-moldado para cercas. Esse material de catálogo de construção civil tem seu propósito funcional absolutamente desconsiderado. Confere-se uma dimensão escultórica a um elemento pragmático e banal. O valor artístico reside em questões formais como o arranjo em tríade e a verticalidade encontrada numa disposição autônoma de fundações no solo.
“As referências à arquitetura não são fortuitas. É a profissão pela qual Ana Holck se formou na universidade. Também se tangencia no ofício do pai engenheiro-calculista. E se escancara no léxico — pontes, passarelas, perimetrais, grades, torres — dos títulos dos trabalhos expostos nesta mostra panorâmica”, afirma o curador.
Ele comenta que “o tênue equilíbrio encontrado em meio a uma tensão estrutural regressa nas ‘Passarelas’ (2011) de Ana Holck. É também uma composição de linhas curvas e retas, como as ‘Pontes. As ‘Passarelas’ são, sobretudo, um prenúncio dos ‘Entroncados’, no que tange à recusa à planalidade e à ambição de lançar-se no espaço sem se desprender da parede da qual irrompe”.
Ana Holck_“Passarelas II” (2011), alumínio pintado e cabos de aço, 85 x 200 x 35 cm. “Não raro, o primeiro ato dos arquitetos frente a uma folha em branco é desenhar uma grelha quadricular para estabelecer as proporções da edificação em concepção”. “Emergir do plano vertical é igualmente um pressuposto para a série ‘Grades’. Tais trabalhos se destacam por friccionarem o rigor da modulação própria à minimal art. Perdura a lógica do grid em sua ordem regular, na correlação dos eixos, na repetição das linhas e na equidistância entre as partes, mas toda a severidade métrica é sutilmente amolecida por Ana Holck. Com as ‘Grades’ compostas por retas não retilíneas, a artista fere o ato fundacional de projetos de arquitetura”, enfatiza Francesco Perrotta-Bosch.
“Móbile I” (2024), da série “Laçados”, é “constituído por curvas que o compasso não proporciona e centralizado por uma reta avessa à linearidade da régua”.
Nas “Pontes Vinílicas” (2006), “ao revisitar uma estrutura tensionada, a artista engendra dois arcos a partir de seções de retas. É uma operação de decomposição geométrica da curva”.
Obras de Ana Holck estão em coleções públicas como Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro/Coleção Gilberto Chateaubriand, Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR), Museu de Arte Moderna de São Paulo, Instituto Itaú Cultural, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Ministério das Relações Exteriores, Brasília, Museu de Arte Contemporânea de Niterói e Fundação Edson Queiroz, Fortaleza.

