Ana Calzavara | Galeria Marília Razuk

Ana Calzavara, Over the Horizon (II), 2022

A ideia de uma natureza idílica, que convida à contemplação, em contraponto a um sistema de controle, um radar que tudo vê e inspeciona, permeiam as reflexões da nova mostra da artista Ana Calzavara. Trata-se de Além do Horizonte, individual que estreia em 17de fevereiro na Galeria Marília Razuk, na qual a artista apresenta ao público um conjunto inédito de pinturas, impressões digitais (imagens manipuladas por ela mesma) e gravuras sobre madeira – sendo algumas gravadas pela própria artista, e outras, reinterpretações do “encavo à mão” de obras anteriores, agora realizadas em máquina a laser, propondo uma reflexão entre o gesto manual e mecânico.

Há trabalhos bastante relacionais, como a pintura Revoada (2021), a partir da qual Ana desdobra a imagem de origem em várias outras (imagens digitais e gravura) e dessa forma o sentido se compõe a partir da interação de vários meios, mais ou menos matéricos, que redundam em diferentes percepções. “Aquilo que na pintura é quase uma imagem romântica vai se diluindo nas impressões digitais”, explica a artista. Neste e nos demais trabalhos, Ana Calzavara conjuga referências antagônicas e convida o visitante a experimentar o mesmo.

O título da exposição alude à canção bastante conhecida de Roberto Carlos que traz o imaginário de um lugar intocável, a ser alcançado para o pleno desfrute do prazer de estar em meio à natureza. Simultaneamente, alude, também, ao Over The Horizon (Além do Horizonte), um sistema de radar de alta tecnologia restrito a poucos países – o Brasil entre eles. Situado no extremo sul do país, em uma praia de difícil acesso e controlada pela Marinha Brasileira, o sistema detecta alvos e movimentações a longas distâncias, a dezenas de milhares de quilômetros, para além do horizonte visual.

“Esse contraponto de desejo e impossibilidade me chamou a atenção. E também é um sinônimo de situações que vivemos cotidianamente, sobretudo nesse momento de ‘espera’ do mundo e, mais ainda, do Brasil em relação às eleições presidenciais ao final deste ano. Mais que isso, traz uma reflexão da própria arte como experiência espessa, mais profunda”, reflete Ana Calzavara.

A concepção do Além do Horizonte da artista é baseada, ainda, em leituras de obras dos autores Byung Chun-Han, Liv Strömquist e Ben Lerner. Esses autores, de formas particulares, refletem também sobre o impacto da mídia digital em nossas vidas, transformando nosso comportamento, nossa percepção e nosso pensamento. A arte é um lugar fundamental nestes tempos, capaz de fortalecer em grande medida nossa capacidade contemplativa e também nos conduzir a um estado de presença e criticidade.

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