Nara Roesler Rio de Janeiro tem o prazer de inaugurar a exposição O rio (e o voo) de Amelia no Rio, com obras da grande artista Amelia Toledo (1926, São Paulo – 2017, Cotia, São Paulo) desenvolvidas no período em que viveu no Rio de Janeiro, nas décadas de 1970 e 1980, trazendo também uma seleção de obras mais recentes, que dão seguimento às experimentações que ela iniciou naquele período. São mais de 50 obras, em diversos meios, como pinturas, esculturas, objetos, aquarelas, serigrafias e desenhos, entre trabalhos históricos e outros inéditos, como pinturas e aquarelas criadas por Amelia Toledo na década de 1980. A artista e seu legado são representados por Nara Roesler.
Ponte permanente entre a natureza concreta da abstração moderna e a própria natureza, a pesquisa carioca de Amelia Toledo marca o desenvolvimento de uma obra pioneira, que poderia se qualificar como abstração ecológica. A artista, ao manter o mundo orgânico como fonte e destino de sua obra, foi renovadora das fontes organicistas da modernidade.
Além de trabalhos icônicos, como “Divino Maravilhoso – Para Caetano Veloso” (1971), um livro-objeto em papel, acetato e fotomontagem, dedicado ao cantor e compositor – um dos exemplos na mostra de seu caráter profundamente experimental, com um interesse voltado para formas orgânicas e linguagens pouco usuais, produzidos pela artista na década de 1970 – “O rio (e o voo) de Amelia no Rio” reúne pinturas e aquarelas inéditas criadas na década de 1980, como as quatro obras da série “Anotações da Casa”, em acrílica sobre tela, em que a artista busca representar sua experiência com a luz, seu espaço criativo e sua morada no Rio de Janeiro.
A diversidade de meios de Amelia Toledo é reveladora de um espírito voltado para uma investigação expandida das possibilidades artísticas. A partir dos anos 1970 a produção da artista ultrapassa a gramática construtiva, que fazia uso de elementos geométricos regulares e curvas, e passa a se debruçar sobre formas da natureza. Ela começa a colecionar materiais como conchas e pedras, e a paisagem passa a se tornar um tema fundamental de sua prática. Já a pintura da artista possui inclinações monocromáticas, revelando seu interesse pela pesquisa com a cor.
Também estão na mostra obras da artista que integraram sua impactante individual em 1976, no MAM do Rio de Janeiro, “Emergências”: “Reunião” (1976), constituída por cinco painéis de 15 cm x 100 cm com moldagem em gesso; e as séries feitas com estampas de mãos ou pegadas de onça sobre páginas de jornal, que, ao mesmo tempo indicam rastros de uma presença, e obliteram a leitura das notícias. A mostra, de modo geral, e essa série, em particular, dialogavam com os tempos sombrios da ditadura então em vigor no Brasil. Exemplos desses trabalhos são “Emergências” (1975), que deu nome à exposição, uma página de jornal com intervenções de várias mãos feitas com tinta de carimbo; e duas obras “Pegada da Onça” (1975) – uma serigrafia sobre jornal, e a outra com impressão de carimbo de pegada de onça em jornal.
Outros marcos da produção de Amelia Toledo criados no período em que viveu no Rio de Janeiro são as obras “Gambiarra” (1976), “O Cheio do Oco” (1973) e trabalhos da série “Frutos do Mar” (1982), em que a artista expõe moldes de conchas produzidos em poliéster à ação do mar, até que ficassem cobertos por cracas e briozoários, conferindo a essas esculturas um aspecto vivo, e explorando o encontro entre o natural e o artificial. Esses trabalhos são resultado do aprofundamento de suas investigações sobre as relações entre arte e natureza, e elementos naturais passam a ser incorporados às obras.
Nesse mesmo período, Amelia Toledo reinsere a pintura abstrata em sua prática, trazendo muitas de suas observações anteriores para o campo pictórico, que irá desenvolver até o fim da vida em séries como “Campos de Cor”, presentes na exposição com quatro pinturas em acrílica sobre linho ou juta; e “Pinturas de Horizonte”, três obras em tinta ou resina acrílica sobre linho. Nelas, a artista explora sobretudo a cor e a paisagem, presentes também em outras linguagens de sua poética, por meio de pinceladas gestuais delicadas.
Dentre os trabalhos feitos posteriormente pela artista a partir das pesquisas iniciadas nos anos 1970 e 1980, estão presentes na exposição quatro trabalhos com pedras e minerais, que passaram a ser centrais na obra de Amelia Toledo a partir dos anos 2000. A artista faz uso de pedras para investigar cores, brilhos, transparências e as variadas formas do que chamava de “carne da terra”. Amelia Toledo criou composições nas quais as peças coletadas das profundezas de cenários naturais são dispostas em variados arranjos, algumas em diálogo com materiais “modernos”, como o aço inoxidável. As rochas não foram submetidas a nenhum tratamento que alterasse suas características originais, sendo apenas polidas de modo a destacar seus desenhos internos feitos pelos delicados veios capazes de revelar sua temporalidade.

