Amalia Giacomini | LURIXS: Arte Contemporânea

A LURIXS: Arte Contemporânea abriu ao público no dia 14 de outubro de 2021 Borderline — exposição individual de Amalia Giacomini, em sua sede no Leblon. Com curadoria e texto de Fernanda Lopes, a mostra reúne trabalhos recentes da artista e intervenções no edifício, como a obra Cátenas (2021) na fachada e a obra Vão (2021) que atravessa os dois andares da galeria.

COMO HABITAR O MUNDO

Por Fernanda Lopes

Há quase duas décadas, a produção de Amalia Giacomini se interessa pelo espaço. Talvez o que tenha se tornado cada vez mais visível ao longo dos anos e dos trabalhos tenha sido o espaço tridimensional, arquitetônico. Não só aquele voltado para a arte (como galerias, museus, centros culturais) como outros, com outros usos (ou em desuso), ou mesmo as fachadas – esse lado da arquitetura voltado para fora e menos protegido dos imprevistos e dos descontroles do mundo. Há também o espaço do plano bidimensional, onde seu pensamento renova e reafirma interesse ao longo do tempo, em seus desenhos e intervenções na superfície, e até mesmo na sua apropriação da parede. Mas há outro espaço, esse abstrato, que é ponto de partida e motor dessa produção: o lugar entre o
projeto e a realidade, a fronteira entre pensar e detalhar no papel todas as etapas para construção de algo, e depois, tornar essa construção possível no mundo real.

O termo borderline, que dá nome à esta exposição, significa fronteira, ou, mais literalmente, linha de fronteira. Uma linha que marca o limite entre duas coisas diferentes, colocadas física ou teoricamente lado a lado. A zona
cinza, nublada, que marca essa situação de passagem, oscilando entre os dois lados. Essa situação de fronteira, do lugar entre projeto e mundo real, marca esta individual de Amalia Giacomini. As obras de sua produção recente reunidas aqui se interessam por esse espaço entre, e na linha como elemento fundador. São construídas utilizando itens corriqueiros como tapumes, correntes, linhas de costura, grafite, giz, metal, vidro – muitos encontrados em canteiros de obras – tratados aqui quase como corpos, a partir do interesse da artista em suas características individuais (e não por sua habilidade de fingirem ser o que não são). A eles se juntam outros corpos – da artista e do público – na construção e experiência do espaço.

As obras de Amalia Giacomini são como exercícios da dúvida. É como se testassem os limites da promessa geométrica de racionalidade, intencionalidade e precisão, incorporando imprevistos e imprecisões do real. Essa dinâmica é marcada não por uma frustração, mas por ironia e provocação. A geometria não como ponto de chegada, mas como ponto de partida para a discussão do mundo e de como habitá-lo.

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