Alice Yura | Galeria Karla Osorio

Sem título 02, 2021, Série: Entre o poder e a glória

Sobre a exposição, segundo a curadora Carollina Lauriano

Na História da Arte, poucas foram as mulheres que tiveram seus nomes inscritos nos registros oficiais. Em seu artigo “Por que não houve grandes mulheres artistas?”, publicado originalmente em 1971 na revista ARTnews, a professora e historiadora da arte Linda Nochlin aponta alguns caminhos para compreendermos possibilidades para esses apagamentos históricos. Ainda na década de 70, a artista afro-estadunidense Howardena Pindell traz novos pontos para discussão de gênero na arte. “Tinha a ver com a dominação e o apagamento da experiência, cancelar e reescrever a história de maneira que fizesse um grupo se sentir seguro e não ameaçado1”, falando sobre seu vídeo Free, White e 21, trabalho que a artista fez depois de mais um confronto com as feministas brancas e o racismo no mundo da arte.

Em 2017, a artista, pesquisadora e travesti Agrippina R. Manhattan escreveu o artigo “Porque não houve grandes artistas travestis?”, atualizando os questionamentos apontados por Nochlin em seu artigo, a partir da investigação da marginalização dos corpos trans2 nos espaços da arte, apesar de sua suposta inclusão recente. Em Acalantar, primeira individual de Alice Yura, a artista apresenta um conjunto de trabalhos que apresenta ao público não somente seus trabalhos desenvolvidos recentemente, mas um panorama de sua produção artística, com trabalhos criados desde 2013. Dessa forma, Acalantar se constrói a partir das próprias contradições impostas pelo sistema da arte, uma vez que, partindo de seu processo criativo, a artista elabora seus sentimentos e pensamentos construindo e fundamentando sua subjetividade no campo da experiência poética e estética, há também uma denúncia sobre a inscrição de seu pensamento nesse sistema, uma vez que sua primeira exposição individual ocorre quase uma década depois de iniciar sua produção artística.

Apresento tais discussões, porque nesta individual, Alice Yura retoma a si e à História da Arte para discutir noções de corpo, do gênero e das subjetividades. Ao recriar imagens que, em sua maioria, remetem diretamente à construção de um imaginário feminino, a artista questiona a carga de verdade contida nessas representações e como essas narrativas foram – e ainda são – importantes para a criação de um imaginário que contempla apenas uma única possibilidade. Ao colocar-se como figura central de sua obra, Alice busca olhar para sua própria história, dos elementos e do universo que a cerca. Em seus trabalhos fotográficos, a artista recorre ao uso do autorretrato para refletir condições alegóricas das imagens, desconstruindo assim uma figuração idealizada do feminino e, por consequência, do ser mulher. As pinturas produzidas recentemente, e que a artista apresenta pela primeira vez ao público, também abarcam essa discussão. O cabelo tingido aplicado sobre a tela reafirma os códigos que recaem sobre a ideia de uma performatividade do feminino.

Essa desconstrução também pode ser pensada em outras camadas, a partir do momento que a artista reflete sobre a própria composição de sua imagem dentro de um imaginário de normatividade, que nunca coube dentro de uma história oficial. Observando a condição do tempo como determinante para sua própria reafirmação enquanto sujeito, Alice abre a discussão sobre a imortalidade da imagem ao passo que vivemos em constante processo de ressignificação da autoimagem. Ao refletir sobre o tempo na construção da sua própria subjetividade, Alice lida com as dualidades da sua própria existência, seja no campo da arte, seja na vida, devolvendo para o espectador a reflexão sobre o tempo e a história não como um lugar de sedimentação, mas sim de fluidez. Ao retomar para si a construção narrativa da sua própria existência, a artista cria um lugar de acalanto para continuar produzindo noções de futuro.

Guerrilha, 2014, Auto Retrato (registro foto performance)

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