A artista visual Alexandra Eckert se inspirou em um conto do escritor argentino Jorge Luis Borges para realizar a exposição Bibliotecas de Areia: Livros de Fogo, Café e Memória. A curadoria é de Ana Zavadil.
Professora e pesquisadora na graduação e no pós-graduação em Artes Visuais da Universidade Feevale, de Novo Hamburgo (RS), a porto-alegrense Alexandra é uma especialista em livro de artista, linguagem artística aludida no título da mostra.
“Nesta exposição, o livro abandona sua condição de suporte da escrita para assumir a forma de escultura, instalação e experiência. Já não importa apenas aquilo que pode ser lido em suas páginas, mas aquilo que sua presença material é capaz de despertar. O livro torna-se espaço, memória, o tempo condensado em matéria”, diz ela. O conto de Borges que a inspirou chama-se O Livro de Areia (1975).
Para criar “não uma biblioteca de classificação e ordem, mas uma biblioteca de afetos”, a artista, que já fez individual no MARGS (Museu de Arte do Rio Grande do Sul) e participou de coletiva no MON (Museu Oscar Niemeyer), em Curitiba, lança mão de barro, porcelana, fogo, café, papel. E de palavras e frases que escreveu ao longo dos anos.
“Agora, esses fragmentos deixam a intimidade da escrita particular e passam a habitar o grés, a porcelana, o papel filtrante e o espaço compartilhado da atual instalação. E os manuscritos permanecem abertos, permitindo que cada pessoa, cada visitante da exposição, reconheça neles suas próprias sensações e lembranças”, acrescenta Alexandra.
A instalação reúne 60 livros de artista em cerâmica (20 x 2 x 12 cm), 44 livros de artista de filtro de café com serigrafia (28,5 x 20 cm) e mais 14 xícaras de cerâmica. Entre as cerâmicas, há esmaltada e sem pintura, e os filtros de café com serigrafia são reciclados.
“Ao final do percurso, é possível compreender que não estamos diante de uma coleção de objetos artísticos, mas de uma biblioteca viva, que continua sendo escrita a cada encontro, a cada leitura e a cada memória despertada”, assegura a artista.
A curadora Ana Zavadil destaca que Alexandra “é uma “artista obstinada em sua criação, que constrói, desde 1999, uma trajetória vinculada ao livro de artista, fazendo desse território um espaço de investigação, memória e experimentação”. Mestre em História, Teoria e Crítica de Arte e ex-curadora-chefe do MARGS e do MACRS, Ana observa que Alexandra desenvolveu ao longo de sua produção “uma linguagem singular, na qual a delicadeza não se apresenta como fragilidade, mas como uma força capaz de sustentar uma pesquisa rigorosa e persistente”.


