ADINKRAS – ESCREVIVÊNCIA ARTÍSTICA DO COTIDIANO NEGRO | ESPAÇO CULTURAL CORREIOS NITERÓI

A exposição “ADINKRAS: Escrevivência artística do cotidiano negro” é a abertura oficial do Novembro Negro da cidade de Niterói e ocupa todas as galerias do Espaço Cultural Correios Niterói. Esta mega exposição coletiva reúne artistas negros de diversas linguagens e atuações e reafirmando seu lugar como fazedores de arte. A mostra busca fugir das narrativas de tragédia e dor, comumente impostas ao povo negro, para mostrar a potência, alegria, beleza e diversidade existentes dentro da cultura afro. A curadoria é de Walkíria Nitcheroy e Valda Neves.

Os Adinkras são um conjunto de símbolos pertencente ao povo Ashanti, atualmente localizados principalmente nos países Gana, Burkina Faso e Togo, na África Ocidental, mas também estão presentes em outros lugares do globo, principalmente em consequência dos processos das diásporas africanas. São, também, um conhecimento e uma tecnologia ancestral africana, que trabalha no campo da linguagem. Nesse sentido, são ideogramas que expressam valores tradicionais, ideias filosóficas, códigos de conduta e normas sociais. Podem ser divididos em algumas categorias, como animais, seres humanos, objetos artesanais, corpos celestiais, plantas e ideias abstratas.

A palavra Adinkra tem um significado de despedida na língua Twi do povo Ashanti. O sufixo “Kra” é traduzido como alma, então Adinkra é como um adeus à alma.
Ao longo do tempo, o conjunto de símbolos sofreu alterações em relação aos seus usos, além do surgimento de novas figuras e se espalhou pelo mundo. Logo, passou a ser utilizado também em contextos menos formais, como roupas de uso cotidiano, jóias, paredes, objetos, e chegaram ao Brasil também aparecendo nesses contextos. Hoje, em portas, janelas e diversas ferragens os Adinkras aparecem estampando casas brasileiras. Silenciosos, selando estes lugares com uma história e significados, na maioria das vezes desconhecidos pelos moradores, por quem os
esculpe e por quem os vê.

Assim também a experiência de vida negra passa despercebida aos olhos da maioria. O mundo acostumou-se ao sofrimento, preconceito e desigualdades jamais superadas pela crueldade colonial. Como se tal condição nos fosse natural e sua origem fosse desconhecida.

O povo negro por muito viveu como Adinkras, desprovidos de sua história, origem e significado. Como os símbolos que vemos nas janelas e pensamos ser “desenhos”, vazios de conteúdo, o negro brasileiro foi esvaziado.

Mas há uma luta histórica travada desde as fugas para os quilombos, as insurgências nas fazendas e movimentos que culminaram na abolição. Que segue em curso até os dias de hoje na disputa do estado democrático, pela aquisição da cidadania plena e principalmente pelo resgate de nossa história, autonomia e significância de nossa existência, raízes e lutas.

E assim como a “escrevivência”, cunhada por Conceição Evaristo, não pode partir de outro corpo que não o negro. pois constitui-se da escrita carregada de sua história e experiência única com o mundo pós colonial, a arte negra expressa-se como mais uma linguagem da resistência e reafirmação do que somos e nossa visão sobre o mundo.

Por isso, a mostra reúne artistas que praticam em sua arte a escrevivência de suas narrativas, experiências com o mundo, dores, mas principalmente sua potência. Crescendo à revelia de tudo que nos desafia e ousando expressar no lugar da arte a própria voz.

Os artistas presentes, assim como os Adinkras, estampam paredes, telas e casas. Talvez alguns já tenham sido capturados por olhares desavisados. Mas neste  mês, que historicamente celebramos e lutamos por um lugar, nós nos vemos e gritamos o que significa em cada um e sua arte.

 

Artistas participantes:

Alberto Pereira

Desirée Brito

Henry Vida

João Maia

Jhon Batalha

Josemias Moreira

Marlon Amaro

Pérola Santos

Ruana Carla

Tati Vader

Thiago Paixão

Vinicius Peixoto Ribeiro

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