A noite não adormece nos olhos das mulheres | Projeto Caroço + Mulheres Arquivadas

No sábado o Projeto Caroço em parceria com o Mulheres Arquivadas inaugura a exposição A noite não adormece nos olhos das mulheres, com curadoria do Mulheres Arquivadas. A mostra, cujo nome faz referência ao poema de Conceição Evaristo dedicado à pensadora Beatriz Nascimento, convida artistas para uma discussão sobre sujeiras, águas, desejos e mitos.

A exposição se apresenta como um arquipélago noturno, regido por sombras, cobras, escombros e margens. Cada ilha vislumbra o seu mergulho na boca da noite e nela se encharca em anseios próprios. É nessa busca por uma singularidade diversificada e expansiva que cada trabalho apresenta para o coletivo o seu caráter imaterial de desejar suas próprias transmutações. 

O que pode o feminino tocar quando seus desejos são narrados como armadilhas de lascívia e sua liberdade é tida como uma profanação ao mundo dos homens? A corporalidade do feminino vem se estilhaçando cada vez mais, se modificando, deformando, metamorfoseando, sendo sua matéria de afirmação: uma rede de inundadas fugas. Nessa ontologia aquática, lustrosa, lacrimejante e perplexa de sujos resíduos, novos desejos e anseios vêm tomando forma, enredados por enunciações de novos mitos em fabulação.

A noite é a parideira de velhas e novas cosmologias; nela se escondem os mistérios habitados nos mares escuros e nos solos em maturação. A noite é a eterna evocadora das liberdades, dos desejos, dos amantes e das criaturas oníricas que, despertadas, encontram em seu dorso uma uníssona sinfonia. É em seu tempo lunar que o feminino transmuta os sonhos e se forma em novas materialidades. 

Os trabalhos se apresentam por sua diversidade de pesquisas e intenções. A noite, atua como uma encruzilhada do mistério que eclode das escuridões, gerando seres outros que buscam emergir em suas próprias origens. Nesses despertares de vivendas noturnas, o feminino pode descompassar e surgir dentro de outras. Nesse sinuoso caminho dos confinamentos da feminilidade, as simbioses de corporalidades outras se apresentam como a verdadeira liberdade executada na desconstrução de ideários totalitários de gênero. O ser do feminino não é espírito de generalizações absolutas; ele deve ser gerido em partes diferentes de um todo, ou seja, validar toda fecundação particular, dar a todas/es as possibilidades de se poder encontrar nela, habitar ela, coletivamente ou de forma solitária.

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