A menina mais feia do grupo | Ateliê 397

Angela Od, Modelo para Um Futuro 2, 2019

Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde.

(VINÍCIUS DE MORAES, “Receita de mulher”)

 

A palavra grotesco é derivada de grotto — em latim, gruta ou pequena caverna — e teria sido utilizada pela primeira vez no século XIV, em Roma, quando escavações levaram, por acaso, a salões e corredores de um antigo palácio, construído mil e quinhentos anos antes. Entre os itens soterrados, estavam pinturas, imagens e esculturas de figuras híbridas: pessoas ou divindades que eram metade gente, metade animal ou figura mítica.

As formas que hoje nos parecem monstruosas habitavam o imaginário da Antiguidade Clássica com certa naturalidade. Quando esses objetos deixaram o mundo subterrâneo, o mundo aqui de cima havia se transformado de tal modo que foi preciso criar uma expressão nova para designá-los.

O termo grotesco, que acabou se tornando sinônimo de esquisito, bizarro, disforme, também foi incorporado pela literatura. As manifestações grotescas podem ser observadas em diferentes movimentos literários, sempre ressignificadas a partir do momento histórico e das convenções sociais. Portanto, o grotesco é uma categoria não-estanque, uma verdade sempre provisória, que revela muito da cultura de seu tempo.

Quando Emma Bovary diz “como é feia essa menina”, no auge do realismo francês, o estranhamento que a filha causa à personagem de Flaubert é certamente diferente do estranhamento que qualquer figura monstruosa causaria. A filha de Emma é uma criança considerada normal para os padrões de sua época, mas, a mãe, que sente dificuldade em se ligar afetivamente a ela, d um incômodo que só consegue externar nessa afirmação brutal.

Em 2019, quando Elena Ferrante retoma a formulação em seu novo romance (“Dois anos antes de sair de casa, meu pai disse à minha mãe que eu era muito feia”), o deslocamento da ideia de estranho para o que é familiar ecoa o efeito insólito, como propôs Freud no ensaio “O inquietante”, publicado cem anos antes.

Os comentários também têm um recorte de gênero que não poderia passar despercebido: tanto a filha de Emma quanto a narradora de Ferrante são mulheres, para quem a feiúra ainda soa como uma espécie de pecado mortal. A célebre frase de Vinícius de Moraes, abertura do poema citado na epígrafe, ilustra a gravidade do delito: “As muito feias que me perdoem. Mas beleza é fundamental”.

Quando o atual presidente do Brasil faz um comentário sobre a aparência da esposa do presidente da França de forma pejorativa, a aberração de seu gesto parece menos incômoda do que o corpo e o rosto de uma mulher. O que deveria ser bizarro tem sido naturalizado pelo discurso, tecendo a vida cotidiana e estampando as manchetes dos jornais.

Nessa exposição, com curadoria de Juliana Bernardino, 35 artistas apresentam trabalhos que transitam pelo abjeto e representam um mal-estar: “O momento é feio, gore e insalubre. E o que a gente tem para dizer também é bem grotesco”, diz Bernardino.

A partir de uma sobreposição do plano coletivo e do plano subjetivo, A menina mais feia da turma procura dialogar com tensões profundas, atualizadas a partir do horror próprio que assombra o nosso tempo.

Texto: Fabiane Secches, psicanalista e doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo

Artistas: Abajur / Angela OD / ANNA / Aurora Bernardini /Be Lopse / Bia Leite / Caroline Maria / Carolina Wan / Camila Soato / Eduarda Freire / Élle Bernardini / Felipa Queiroz / Fernanda Azou / Fernanda Galvão/ Fernanda Vallois / Fotos dos Outros / Gabriela Monteiro / Heloisa Brandão / Heloisa Pajtak / Isaac Ebner / Julie Dias / Julia Milward / Juliana Bernardino / Lívia Aquino / Lyz Parayzo / Luisa Callegari / Manoela Cezar / Maria Livman / Mari de Camargo / Mari de Queiroz / Marie Queau / Mariana Manhaes / Marina Ribas Borges / Mayla Goerisch / Nicole Venturini / Pepi Lemes / Roberta Uiop / Yan Copelli

Curadoria: Juliana Bernardino

Imagem: Angela Od, Modelo para Um Futuro 2, 2019.

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