A Máquina Lírica | Galeria Luisa Strina

Anis Jaguar e Sumé Aguiar, Edificação, 2020

Não é raro, em 2021, constatarmos nossa incapacidade frequente de distinguir realidade e ficção. Fato é que o presente soa delirante: não sobrou acordo algum a respeito de fatos sociais básicos, os parâmetros de leitura do real caducaram ou tornaram-se descontínuos e episódicos, e o pacto democrático parece cada vez mais longínquo. Há gente adoecida por toda parte. Dormência, enjoo e vertigem. Multiplicam-se as abstrações e subtraem-se os estados de direito. O que resta?

No entanto, se o projeto de poder em curso é delirante ao seu modo, a fabulação também existe enquanto força propositiva — estratégia de reinvenção do mundo e produção de sentidos desviantes aos modelos vigentes. É a imaginação, afinal, que expande os horizontes negociáveis do possível e se afirma enquanto prática social essencial para a construção de identidades coletivas, afirmando-se enquanto operação fundamentalmente política. Mesmo por isso, os artistas aqui reunidos buscam ter na fabulação um empreendimento de saúde: possibilidade de vida.

É nessa direção que A MÁQUINA LÍRICA se produz. Uma exposição em torno do delírio e do sonho, que aproxima ecos do passado e sussurros do presente, fazendo lembrar que memória e imaginação são instâncias indissociáveis. Sabe-se que é difícil imaginar sem mergulhar, com mais ou menos intenção, nas gavetas do passado. E não é possível lembrar sem uma dose de criação. Mesmo por isso, passado e futuro são vetores que se entrecruzam e se transformam continuamente (como diz o ditado iorubá, “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”). Quem não lembra, e tampouco imagina, está fadado à visão curta e nublada do presente. Além disso, traçamos diálogos entre artistas “populares”, “emergentes” e “consagrados”, pondo em crise certas categorias normativas que enquadram a prática artística. Nesse ponto de convergência, a exposição se anuncia como espaço de suspensão: embaralha os pontos cardeais, interrompe os fluxos do relógio e convida o público a devanear junto a obras que questionam os regimes de visibilidade e produção de sentido.

Aqui, os enunciados são imagens fantasiosas, endereçamentos oblíquos, alucinações, profecias, sussurros e segredos que buscam torcer e friccionar a sintaxe de suas línguas, no anseio de vislumbrar outros horizontes e rearranjar relações entre viventes, extra-viventes, não-viventes, pós-humanos, ciborgues e outros gêneros. Não será possível optar pela realidade ou pela ficção, mas somente produzir outras negociações entre esses elementos antes de tudo indissociáveis. Ante ao sonho da razão, reivindicamos o riso, o assombro e o desvario como ferramentas de sobrevivência. É preciso delirar o país.

Curadoria: Pollyana Quintella

Artistas: Anis Jaguar e Sumé Aguiar, Anna Maria Maiolino, Aurelino dos Santos, Brasilandia.co, Chico Tabibuia, Cildo Meireles, Davi de Jesus do Nascimento, Eduardo Basualdo, Jarbas Lopes, Jorge Macchi, Laryssa Machada, Laura Lima, Luiz Alphonsus, Marepe, Panmela Castro, Paulo Pedro Leal, Pedro Escosteguy, Rafael Bqueer, Tadáskía, Thiago Honório, Wagner Olino, Yan Copelli

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