3ª edição de Frestas – Trienal de Artes | O rio é uma serpente | Sesc Sorocaba

Jaider Esbell, Os Parixaras

Trazer para a prática o debate sobre economias de acesso, refletir sobre as políticas e poéticas de exibição, investigar quais estratégias de solidariedade são possíveis, bem como aquilo que dizem os corpos que, habitando estruturas de poder assimétricas, estão a criar um vasto mundo fora do mundo. Essa é a proposta da 3ª edição de Frestas – Trienal de Artes, cuja exposição, com curadoria do trio Beatriz Lemos, Diane Lima e Thiago de Paula Souza, entra em cartaz dia 21 de agosto de 2021 no Sesc Sorocaba. Essa edição de Frestas leva o título O rio é uma serpente e conta com assistência de curadoria de Camila Fontenele e coordenação educativa de Renata Sampaio. No dia 21, às 19h, haverá ainda a transmissão de um programa de abertura conduzido pela jornalista e apresentadora Adriana (Didi) Couto, exibido pelo Youtube do Sesc SP. O programa apresentará um pouco do que se pode esperar de uma visita à exposição, assim como detalhes do seu processo de realização.

Participam da mostra, em Sorocaba, 53 artistas e coletivos de diferentes nacionalidades [confira a lista completa abaixo]. São nomes do Brasil, da África do Sul, Bolívia, Chile, Colômbia, Estados Unidos, França, Holanda, México, Peru, República Dominicana e Suíça, que residem em diferentes países e exibem obras nos mais diversos suportes, desde pinturas até instalações e performances. 15 destes artistas participaram de um grupo de estudos, programa de média duração para desenvolvimento e reflexão sobre seus processos, no segundo semestre de 2020, juntamente com equipes de curadoria, arquitetura e produção.

Dos 53, 32 foram convidados a criarem obras comissionadas e inéditas para o projeto, são nomes como Castiel Vitorino Brasileiro, Dalton Paula, Denilson Baniwa, Diego Araúja, Gê Viana, Lia García (La Novia Sirena), Sallisa Rosa e Sucata Quântica, Ventura Profana e Vijai Patchineelam.

Denilson Baniwa, Parte da obra Nhíromi

Para Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo, com a realização desta edição de Frestas, “procura direcionar sua ação cultural, fomentando propostas que buscam saídas em meio a uma conjuntura de crises. A pandemia de Covid-19, experiência coletiva trágica que integra esse panorama, veio a se interpor na trajetória de Frestas, exigindo que seu curso fosse alterado. Nesse retraçado, a Trienal duplica sua aposta na resiliência, expandindo-se para além dos tempos e espaços anteriormente concebidos”.

Originalmente prevista para ter sua mostra aberta ao público em agosto de 2020, a Trienal acabou se iniciando, naquele momento, com uma série de ações formativas. Agora a instituição se prepara para a abertura da exposição que ocupará a unidade do Sesc e espaços públicos da cidade de Sorocaba. A ponte estaiada da unidade, por exemplo, recebe uma intervenção artística da obra Entidade, de Jaider Esbell, que já pode ser visualizada do lado de fora do Sesc Sorocaba. O Parque da Biquinha recebe obras dos artistas Engel Leonardo e Salissa Rosa e Sucata Quântica. Jota Mombaça apresenta a obra Pavimento nº 1, uma pintura em via pública e Zumvi Arquivo Afro Fotográfico terá uma de suas fotografias veiculada em um outdoor na cidade.

Em 2020, parte das atividades programadas ocorreram integralmente em ambiente digital: o Programa de Estudos, que contou com a presença de quinze artistas da edição; O rio é uma serpente: tópicos para a diferença e justiça social, um programa formativo para professores da rede pública de Sorocaba que integra o núcleo educativo; a mentoria artística Anti-análise, orientada por Pêdra Costa; e o Programa Orientado a Práticas Subalternas (POPS), conduzido pelo Colectivo Ayllu, um grupo colaborativo de pesquisa e ações artístico-políticas.

Para a curadoria, “a plataforma da 3ª Frestas – Trienal de Artes investiga as possibilidades, potências e desafios que transitam por múltiplos ecossistemas naturais, espirituais e subjetivos, reunindo um conjunto de tecnologias forjadas por outros corpos que, em tempos e espaços históricos distintos, foram condicionados a agenciar permanências e acessos. Para que a mostra enfim chegasse em seu momento de abertura, foi necessário recalcular algumas rotas, fabular estratégias e negociações, reimaginar o porvir. Assim, ao desaguar em Sorocaba, O rio é uma serpente intui a abertura de um portal que suscita possibilidades, reflexões e diálogos para além do agora”.

No campo das artes visuais, o Sesc São Paulo oferece ao público programações presenciais e remotas. Com acesso gratuito, as mostras presenciais seguem rígidos protocolos, conforme orientação dos órgãos de saúde pública, como a ocupação reduzida dos espaços e sua constante higienização. Além disso, nesse momento, a visitação é permitida somente mediante agendamento prévio pelo portal do Sesc São Paulo.

Nohemi Perez, Panorama Catatumbo

O rio é uma serpente

Ao questionar os limites entre o negociável e o inegociável na realização de uma exposição de arte contemporânea nos tempos atuais, o trio de curadoria convidado pelo Sesc investiga, na Trienal, as possibilidades, as potências e os desafios que transitam por múltiplos ecossistemas naturais, espirituais e subjetivos, reunindo um conjunto de tecnologias forjadas por outros corpos que, em tempos e espaços históricos distintos, foram condicionados a agenciar permanências e acessos como único modo de garantir a manutenção de suas existências.

A serpente como metáfora expandida por sua ampla cosmologia nas mais diferentes narrativas míticas e culturais atua como mirada para discutir o tempo não linear e os efeitos das inúmeras contradições destravadas pelo avanço do capital neoliberal e pelos processos sistêmicos de captura de subjetividades como geração de valor e reencenação de uma ética colonial.

Das curvas dos rios navegados durante a viagem de pesquisa dos curadores em outubro de 2019, surgiram as palavras cheias de imagem que deram nome ao título-estopim da 3ª edição de Frestas. Segundo o trio curatorial, “foram as formas serpenteadas por um tempo não linear que nos ajudaram a traduzir as experiências intangíveis dos contratos, conflitos e acordos que vivenciamos, bem como das estratégias de solidariedades praticadas por todos aqueles que fazem parte da plataforma Frestas. O rio é uma serpente porque se esconde e camufla e, entre o imprevisível e o mistério, cria estratégias em seu próprio movimento”.

A pesquisa para esta 3ª edição se iniciou com processos de escuta e trocas com diferentes agentes culturais de Sorocaba e região, expandindo-se para Boa Vista e para a terra indígena Raposa-Serra do Sol, em Roraima; Manaus e arredores do rio Tupana, no Amazonas; Belém, no Pará; Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí; Alcântara e São Luís, no Maranhão.

Ao desaguar em Sorocaba, O rio é uma serpente retoma o diálogo com a cidade articulando olhares para suas geografias e possibilidades de afetação, encontro e memória com agentes, coletivos, grupos, artistas, centros de cultura independente, rádios e bibliotecas comunitárias. Desse modo, cria novas paisagens questionando de que forma códigos e linguagens são criados e quais mecanismos compactuam com a manutenção de infraestruturas que regulam dinâmicas de poder, legitimam discursos, condicionam acessos, travam a crítica e forjam uma ideia de pacificação e consenso.

Elvira Espejo Ayca, Jiwasan amayusa El pensar de nuestras filosofías

Frestas – Trienal de Artes

Frestas é uma iniciativa trienal estruturada em três eixos – programa público, publicações e exposição – que compõe a ampla agenda cultural realizada pelo Sesc São Paulo. É, sobretudo, uma plataforma transdisciplinar que promove novas atuações e reflexões num campo mais amplo das artes visuais, trazendo também a atenção do público e do circuito de maneira mais descentralizada. Frestas trata de passagem, de racha, de ruptura, ou seja, é uma abertura para um novo lugar democrático de atuação.

A fim de aproximar artistas locais de produções regionais e internacionais e estabelecer o diálogo entre questões sociais próprias ao contexto brasileiro e às reflexões da esfera global, a Trienal apresenta desde outubro de 2020 uma programação pública e online de atividades, debates e oficinas – ações que promovem discussões diversas do campo da arte contemporânea – e, a partir de agosto de 2021, trará o lançamento de publicações e a inauguração da exposição.

A realização do projeto ocorre na unidade do Sesc localizada em Sorocaba, a 100 quilômetros da capital do estado. Desde 2014, a Trienal de Artes vem se dedicando a discutir e a problematizar as questões urgentes que pautam os dias de hoje. A construção de uma trienal a partir das urgências de uma cidade do interior do estado de SP evoca olhares para descentralizar os eixos consagrados dos circuitos artísticos, ampliando o alcance de públicos diversificados, criando e expandindo redes processuais e viabilizando trocas simbólicas. Pela dimensão e relevância do programa, Frestas tem colaborado com a ampliação da cena artística contemporânea no estado de São Paulo. Além disso, tem também contribuído com a capacitação de arte-educadores e com a formação de redes de profissionais da cultura fora das capitais, e, em âmbito local, incentivado, por consequência, o fomento às artes no interior do estado, bem como a descentralização das atividades culturais.

Frestas é uma realização do Sesc São Paulo e, nesta edição, conta com apoio do Consulado Geral da França em São Paulo, da Fundação Suíça para a Cultura Pro Helvetia, da PlattformPLUS, da Kulturreferat Munchen, AVEK, Kenno Filmi, Aue-Stiftung e da Prefeitura Municipal de Sorocaba.

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