300 anos de Mulheres Mineiras Poetas | Casa Fiat de Cultura

Em 2020, a criação da Capitania de Minas do Ouro, separando-se da Capitania de São Paulo, completa 300 anos. A ocasião marca o início de Minas Gerais. Para celebrar os três séculos de história do estado e também o aniversário de 123 anos de Belo Horizonte, a Casa Fiat de Cultura apresenta uma ação poética que une versos escritos por uma mineira do séc. XVIII, na voz de uma atriz belo-horizontina do séc. XXI. A atriz Inês Peixoto faz uma interpretação exclusiva do texto “Conselhos aos meus filhos” da poeta, mineradora e ativista política Bárbara Heliodora, que viveu de 1759 a 1819. A performance faz uma homenagem a poetas mineiras que atravessaram esses séculos e que por meio de versos e rimas traduzem a força e a sensibilidade do pensamento e opinião femininos.

A ação poética será realizada nas redes sociais da Casa Fiat de Cultura. A performance ficará disponível no canal da Casa Fiat de Cultura no YouTube.

 Poetas Mineiras homenageadas:

Bárbara Heliodora

Henriqueta Lisboa

Alaíde Lisboa

Beatriz Brandão

Carolina de Jesus

Isabel Câmara

Conceição Evaristo

Ana Elisa Ribeiro

Vera Casanova

Yeda Prates Bernis

Elizabeth Rennó

Carmen Schneider Guimarães

Laís Corrêa de Araújo

Maria José de Queiroz

Adélia Prado

Laura Conceição

Carina Gonçalves

Thaís Campolina

Maria Esther Maciel

Ana Martins Marques

Lacyr Schettino

Edmeia Miriam Cupertino

 

CONSELHOS A MEUS FILHOS

Bárbara Heliodora

Meninos, eu vou dictar

As regras do bem viver,

Não basta somente ler,

É preciso ponderar,

Que a lição não faz saber,

Quem faz sabios é o pensar.

 

Neste tormentoso mar

D’ondas de contradicções,

Ninguem soletre feições,

Que sempre se ha de enganar;

De caras a corações

A muitas legoas que andar.

 

Applicai ao conversar

Todos os cinco sentidos,

Que as paredes têm ouvidos,

E também podem fallar:

Ha bixinhos escondidos,

Que só vivem de escutar.

 

Quem quer males evitar

Evite-lhe a occasião,

Que os males por si virão,

Sem ninguem os procurar;

E antes que ronque o trovão,

Manda a prudencia ferrar.

 

Não vos deixeis enganar

Por amigos, nem amigas;

Rapazes e raparigas

Não sabem mais, que asnear;

As conversas, e as intrigas

Servem de precipitar.

 

Sempre vos deveis guiar

Pelos antigos conselhos,

Que dizem, que ratos velhos

Não ha modo de os caçar:

Não batam ferros vermelhos,

Deixem um pouco esfriar.

 

Se é tempo de professar

De taful o quarto voto,

Procurai capote roto

Pé de banco de um brilhar,

Que seja sabio piloto

Nas regras de calcular.

 

Se vos mandarem chamar

Pâra ver uma funcção,

Respondei sempre que não,

Que tendes em que cuidar:

Assim se entende o rifão.

Quem está bem, deixa-se estar.

 

Devei-vos acautelar

Em jogos de paro e tópo,

Promptos em passar o copo

Nas angolinas do azar:

Taes as fábulas de Esopo,

Que vós deveis estudar.

 

Quem fala, escreve no ar,

Sem pôr virgulas nem pontos,

E póde quem conta os contos,

Mil pontos accrescentar;

Fica um rebanho de tontos

Sem nenhum adivinhar.

 

Com Deus e o rei não brincar,

É servir e obedecer,

Amar por muito temer

Mâs temer por muito amar,

Santo temor de ofender

A quem se deve adorar!

 

Até aqui pode bastar,

Mais havia que dizer;

Mâs eu tenho que fazer,

Não me posso demorar,

E quem sabe discorrer

Póde o resto adivinhar.

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