15ª Bienal Naïfs do Brasil – SESC Piracicaba

Esperança em pedaços, 2019, Chavonga | Foto: Isabella Matheus

o Sesc São Paulo abre ao público em sua unidade de Piracicaba a 15ª Bienal Naïfs do Brasil. Com curadoria de Ana Avelar e Renata Felinto, a Bienal reúne 125 artistas de 21 estados do país, além do Distrito Federal. A partir do tema Ideias para adiar o fim da arte – uma referência direta ao pensamento do líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro Ailton Krenak e ao filósofo e crítico de arte americano Arthur Danto -, a exposição traz 212 obras em suportes diversos. São instalações, pinturas, desenhos, colagens, gravuras, esculturas, bordados, marcheteria e entalhes. Em diálogo com o corpo expositivo, as artistas Carmela Pereira, Leda Catunda, Raquel Trindade e Sonia Gomes integram a mostra a convite das curadoras.

Ana Mae Barbosa e Lélia Coelho Frota, mulheres intelectuais brasileiras que demonstraram em suas pesquisas a preocupação e o cuidado com o entendimento da pessoa artista e de sua produção de forma mais humana e plural, também são reverenciadas no processo curatorial desta 15ª edição da Bienal.

Inicialmente prevista para inaugurar em agosto deste ano, a mostra, que teve sua abertura adiada devido às restrições impostas pela pandemia de Covid-19, poderá ser visitada gratuitamente pelo público de terça a sábado, das 14h às 18h, mediante agendamento prévio pelo site sescsp.org.br/ piracicaba . A permanência máxima na unidade é de 90 minutos e o uso de máscara facial é obrigatório para todas as pessoas durante toda a visita.

A BIENAL

Realizada pelo Sesc São Paulo em Piracicaba desde o início da década de 1990, a Bienal Naïfs é um convite para o público refletir sobre os fazeres populares inventados por artistas. Nesta 15ª edição, a partir do título Ideias para adiar o fim da arte, a mostra traz discussões sobre temas como meio ambiente; o feminino como força social, como divindade e como figura do sagrado; as violências estruturais históricas; os espaços de coletividade e sociabilidade em ritos, festas e cerimônias; e o debate sobre objetualidade e utilidade.

Segundo Danilo Santos de Miranda, Diretor Regional do Sesc São Paulo, “a longeva relação do Sesc com esse universo, que antecede à realização das Bienais Naïfs do Brasil, está ligada ao reconhecimento de que a arte popular merece um espaço condizente com sua relevância. Além disso, essa trajetória colaborou para que a própria instituição alargasse seus horizontes e sua compreensão sobre ação cultural, evidenciando as conexões entre cultura, democracia e cidadania. Cada nova edição impõe desafios sintonizados com contextos cambiantes e suas urgentes questões. Pois o presente é caleidoscópio de temporalidades, onde passados e futuros são disputados – e a arte é uma das principais expressões dessa tão humana condição”.

O Martírio de Nossa Senhora do Brasil, 2018, Shila Joaquim | Foto: Isabella Matheus

A CURADORIA

A partir da seleção feita pelas curadoras Ana Avelar e Renata Felinto – foram inscritas 980 obras, de 520 artistas com idades entre 19 e 87 anos – surgiram eixos temáticos, plurais e diversos, que compõem a mostra. O processo de seleção de trabalhos partiu do critério da representatividade e considerou as regiões de onde provêm e atuam esses artistas, suas declarações étnico-raciais, faixas etárias, os assuntos e as materialidades com as quais trabalham.

“Saltam aos olhos assuntos da maior relevância na imprensa hoje, como é o caso da questão premente da conservação ambiental, em particular no que diz respeito ao desmatamento na Amazônia, tema que há décadas ocupa o centro da política nacional, com negociações frequentes entre governos e órgãos internacionais, acionando avanços e retrocessos no debate ambiental. É também visível a associação da figura feminina à natureza, frequentemente como divindade. Nesse sentido, surgem imagens do sagrado e do fantástico, muitas vezes num amálgama sincrético de linguagens e religiões. As mulheres, aliás, são protagonistas de umas tantas cenas para além dessas fantásticas”, explica Ana Avelar.

“Nosso desejo durante a seleção foi de contemplar várias humanidades, que é a multiplicidade de cores. Nós temos, por exemplo, um grande número de pessoas não brancas participando dessa exposição, e isso é necessário porque é preciso equilibrar dentro das exposições, o número de participantes, as origens, as complexidades das pessoas humanas participantes de acordo com a complexidade da população constitucional brasileira. Temos um grande número de pessoas de povos originários e de pessoas que são consideradas também pretas, ou negras e pardas, de acordo com as categorias oficiais. E isso é muito estimulante porque foi a nossa tentativa de apresentar, na Bienal Näifs do Brasil, uma pluralidade do povo brasileiro”, ressalta Renata Felinto .

A ênfase desta 15ª edição da Bienal Naïfs numa crescente representatividade geográfica, étnico-racial, etária e de gênero, entre outros marcadores sociais, é, segundo a curadoria, uma maneira de estar à altura desse panorama. Os artistas naïfs constituem parte importante de tal questionamento, expandindo e relativizando os pontos de vista presentes na arte, campo tradicionalmente atrelado a distinções de classe. Maior diversidade de vozes e, portanto, de formas e cores, de assuntos e aproximações.

SOBRE NAÏFS

De origem francesa, o termo Naïf deriva do latim e sugere algo natural, ingênuo, espontâneo, foi utilizado originalmente no campo das artes para descrever a pintura e as propostas do artista modernista francês Henri Rousseau (1844-1910). A adoção do termo pela Bienal, no plural e desvinculado da palavra “arte”, evidencia seu foco no artista e em suas manifestações diversas e múltiplas, deixando em aberto os possíveis significados e características do que é ser naïf.

“Vale notar ainda que o termo naïf, largamente utilizado para denominar essas várias artes e que, inclusive, nomeia esta Bienal, possuía no passado um sentido de arte ingênua relacionado a uma suposta falta de formalização dos estudos por parte desses/dessas artistas. Como podemos perceber, inclusive nesta mostra, tal leitura provou-se errônea e, a julgar por artistas que tradicionalmente participam desta exposição, hoje a palavra é reivindicada por eles/elas pelo fato de compor um sistema específico no qual os critérios daquilo que define um/uma artista naïf e os interesses que suscitam suas obras são absolutamente distintos daqueles que vigoram no sistema da arte contemporânea”, afirma Ana Avelar.

Em busca de uma liberdade que ainda não raiou, 2019, Con Silva | Foto: Isabella Matheus

PREMIAÇÕES

Como forma de estimular a participação, valorizar a produção artística e diversificar a coleção permanente da instituição, – o Acervo Sesc de Arte -, o Sesc São Paulo concede a alguns dos artistas selecionados, por meio de suas obras, o Prêmio Destaque-Aquisição, o Prêmio Incentivo e Menção Especial.

Para esta 15ª edição da Bienal Naïfs, as obras agraciadas foram:

Prêmio Destaque-Aquisição

Cotidiano II, de Alexandra Adamoli (Piracicaba, SP)

Totem Apurinã Kamadeni, de Sãnipã (Pauiní, AM)

O renascimento de Luzia, de Paulo Mattos (São Paulo, SP)

O martírio de Nossa Senhora do Brasil, de Shila Joaquim (São Matheus, ES)

Prêmio Incentivo

Manto tropeiro: um breve olhar do caminho das tropas, Coletivo de Angeles Paredes e Carmem Kuntz (Sorocaba, SP)

Em busca de uma liberdade que ainda não raiou, de Con Silva (Batatais, SP)

Comadre Fulosinha dá a luz depois de degolar o caçador que a engravidou, de Eriba Chagas (São Paulo, SP)

Esperança em pedaços, de Paulo Chavonga (Diadema, SP)

Brincantes do imaginário, de Valdeck de Garanhuns (Guararema, SP)

Menção Especial

É óleo no mar…, de Alcides Peixe (São Paulo, SP)

Cantinho do benzer, de Alexandra Jacob (Piracicaba, SP)

Vazante, de Eri Alves (São Paulo, SP)

Jandira #33, de Hellen Audrey (Campinas, SP)

Aprendiz de Pajé, de Yúpury (Manaus, AM)

Umbuzeiro florindo, de Nilda Neves (São Paulo, SP)

Gorda, de Soupixo (Crato, CE)

Alma da estrada, de Thiago Nevs (São Paulo, SP)

Dia-a-dia de Finoca, de Zila Abreu (São Paulo, SP)

LISTA DE ARTISTAS

Adão Domicino (Cuiabá-MT) | Adolphe (Embu das Artes-SP) | Albina Santos (Cuiabá-MT) | Alcides Peixe (São Paulo-SP) | Aldenor Prateiro (Parnamirim-RN) | Alexandra Adamoli (Piracicaba-SP) | Alexandra Jacob (Piracicaba-SP) | Alice Masiero (Morungaba-SP) | Altamira (Penápolis-SP) | Alteridades (Campo Limpo Paulista-SP) | Ana Andrade (João Pessoa-PB) | André Cunha (Paraty-RJ) | Andrea Mendes (São Paulo-SP) | Angeles Paredes (Sorocaba-SP) | Antônio Eustáquio (Brasília-DF) | Arivanio Alves (Quixelô-CE) | Arnaldo Lobato (São Luís-MA) | Avelar Amorim (Teresina-PI) | Benedito Silva (Cuiabá-MT) | Bia Telles (Poços de Caldas-MG) | Binário Armada (São Paulo-SP) | Carmela Pereira (Piracicaba-SP) | Carmézia (Boa Vista-RR) | Carminha (Palmas-TO) | Cecílio Vera (Campo Grande-MS) | Coletivo Vermelho – Adriano Dias, Carminha, Cecília Menezes, Con Silva, Dulce Martins, Fátima Carvalho, Gildásio Jardim, Helena Coelho, Luciana Mariano, Nonato Araújo, Tito Lobo, Val Vargarida, Vânia Farah, Willi de Carvalho (Belo Horizonte-MG) | Con Silva (Batatais-SP) | Conceição da Silva (São Paulo-SP) | Cris Proença (Franco da Rocha-SP) | Dani Vitório (São Paulo-SP) | Dhiani Pa’saro (Manaus-AM) | Diogo da Cruz (Águas de Lindóia-SP) | Doni7 (São Paulo-SP) | Duhigó (Manaus-AM) | Dulce Martins (Santos-SP) | E. Pereira (São Paulo – SP) | Edgard Di Oliveira (São José do Rio Preto-SP) | Edmar Fernandes (Recife-PE) | Eduardo Ojú (São Mateus-ES) | Eri Alves (São Paulo-SP) | Eriba Chagas (São Paulo-SP) | Erlei Pereira (Sete Lagoas-MG) | Ermelinda (Rio de Janeiro-RJ) Euclides Coimbra (Ribeirão Preto-SP) | Estrack (Piracicaba-SP) | Fabiano Quaresma (Campina Grande-PB) | Fernando Araújo (Breves-PA) | Fernando JC Andrada (Florianópolis-SC) | Gilmar Antunes (São Paulo-SP) | Givagomes (Chapada dos Guimarães-MT) | Guarigazí (João Pessoa-PB) | Hebe Sol (Manaus-AM) | Helaine Malca (Embu das Artes-SP) | Hellen Audrey (Campinas-SP) | Hiorlando (Água Doce do Maranhão-MA) | Joilson Pontes (Santa Luzia-MG) | Honório (São Luís-MA) | Iranildes Bufalo (São Paulo-SP) | Ivone Mendes (Olinda-SP) | J.Lemos (Mirassol-SP) | Jonata Navegantes (Belém-PA) | José Carlos Monteiro (São Luiz do Paraitinga-SP) | Juliana Scorza (Presidente Prudente-SP) | Laz Camargo (Rondonópolis-MT) | Leandro Luiz (Quixelô-CE) | Leandro Luiz (Quixelô-CE) | Lina Ganem (João Pessoa-PB) | Lourdes de Deus (Goiânia-GO) | Lu Maia (João Pessoa-PB) | Luciana Mariano (São Paulo-SP) | Machado (Rondonópolis-MT) | Madriano Basílio (João Pessoa-PB) | Marby Silva (João Pessoa-PB) | Marcio Nehrebecki (Cotia-SP) | Marcos Akasaki (São Paulo-SP) | Maria Gobet (Piracicaba-SP) | Mauro Tanaka (Araçoiaba da Serra-SP) | Mayawari Mehinako (Gaúcha do Norte-MT) | Nando Garcia (Tracunhaém-PE) | Nene de Capela Alagoas (Capela-AL) | Neri Andrade (Florianópolis-SC) | Neves Torres (Serra-ES) | Nilda Neves (São Paulo-SP) | Nilson (Currais Novos-RN) | Gerson Lima (Salvador-BA) | Nilson Rodrigues de Oliveira (Itapecerica da Serra-SP) | Olímpio Bezerra (Cuiabá-MT) | Chavonga (Diadema-SP) | Paixão Fernandes (Belo Horizonte-MG) | Paulo Mattos (São Paulo-SP) | Paulo Perdigão (Recife-PE) | Paulo Roberto Corrêa de Oliveira (Caieiras-SP) | Pedro Zagatto (Piracicaba-SP) | Persivaldo Figueirôa (Maceió-AL) | R. Domingues (Goiânia-GO) | Raquel Gallena (Embu-SP) | Rimaro (Cuiabá-MT) | Rinaldo Santi (São Paulo-SP) | Romário Batista (Vila Velha-ES) | Rômulo Macêdo Barreto de Negreiros (Palmas-TO) | Ronaldo Torres (Serra-ES) | Rosângela Politano (Socorro-SP) | Ruth Albernaz (Cuiabá-MT) | Ruy Relbquy (Quixelô-CE) | Sandra Aguiar (Olinda-CE) | Sebá Neto (São Paulo-SP) | Sãnipã (Manaus-AM) | Schimaneski (Ponta Grossa-PR) | Seo Constante (Campinas-SP) | Sérgio Pompêo (Pirenópolis-GO) | Shila Joaquim (São Mateus-ES) | Silveira (Piracicaba-SP) | Silvia Maia (Embu das Artes-SP) | Sônia Furtado (Florianópolis-SC) | Sonia Sonomi Oiwa (São Paulo-SP) | Soupixo (Crato-CE) | Thiago Nevs (São Paulo-SP) | Tito Lobo (João Pessoa-PB) | Toninho Guimarães (Cuiabá-MT) | Valdeck de Garanhuns (Guararema-SP) | Valdivino Miranda (Cuiabá-MT) | Vânia Cardoso (Socorro-SP) | Waldecy de Deus (Carapicuíba-SP) | Wender Carlos (Cuiabá-MT) | Yúpury (Manaus-AM) | Zila Abreu (São Paulo-SP)

AÇÕES ONLINE

Ao longo dos próximos meses, o Sesc São Paulo promoverá uma série de atividades gratuitas e online com as curadoras, artistas e outros especialistas do campo das artes visuais. Serão abordados temas como as estratégias de visibilização de produções artísticas, as dinâmicas dos espaços de criação, além de diferentes perspectivas sobre o campo da arte dita popular.

A programação terá bate-papos e encontros virtuais, assim como cursos destinados a públicos específicos, com temas como fotografia de obras de arte e um curso de formação de professores, educadores e artistas a ser ministrado pela escritora, educadora e curadora Valquíria Prates. Todas as ações online da Bienal serão anunciadas periodicamente nas redes os canais do Sesc Piracicaba. no Facebook, Instagram e Twitter.

SOBRE A BIENAL NAÏFS DO BRASIL

Originada das mostras anuais realizadas pelo Sesc São Paulo em sua unidade de Piracicaba de 1986 a 1991, a Bienal Naïfs do Brasil teve sua primeira edição em 1992 na mesma cidade. Desde então, consolidou-se como uma referência para aqueles que possuem algum vínculo com sua proposta. Atualmente, a seleção dos artistas participantes ocorre via convocatória aberta, bem como por convite, a partir da formação de uma comissão composta por curadores, artistas e pesquisadores. Seus principais objetivos são incentivar a produção artística popular e oferecer espaços para sua apreciação, além de estimular o pensamento crítico a seu respeito.

 

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