Wilson Tibério: a negritude nas artes plásticas

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De acordo com o professor, poeta e ativista Oliveira Silveira (1941-2009), Wilson Mendonça Tibério nasceu, em Porto Alegre, no dia 24 de novembro de 1923. De origem humilde, este afrodescendente superou preconceitos e desafios, conquistando um vasto público com sua arte. Filho da costureira Eraldina e do ferreiro Armando, o menino demonstrava talento desde cedo. Sua mãe faleceu, quando o artista tinha sete anos, sem ver aflorar o talento do filho. Ao completar oito anos, ele começou a pintar retratos e personagens.

A oralidade perpetua que o artista nasceu no final da Rua da Praia, em Porto Alegre, a beira do Guaíba. Sua mãe, entre outras atividades, era lavadeira. Ao sentir as dores do parto, não houve tempo de retornar para a casa. Assim, Wilson Tibério nasceu, tendo como cenário as águas do Guaíba e as bençãos da Mãe Oxum.

Pintando faixas para feiras e cartazes publicitários, iniciou uma carreira que o levaria a Paris. Wilson Tibério se tornou aluno do artista italiano Cursi que o ensinou a manejar técnicas pictóricas. Diante das restritas oportunidades, para desenvolver seu trabalho, na capital gaúcha, ele decidiu mudar para o Rio de Janeiro e estudar na Escola de Belas Artes. Na cidade maravilhosa, conheceu, entre outras figuras, Jorge Amado (1912-2001) e Procópio Ferreira (1898 -1979), que lhe acirraram o seu espírito libertário e combativo contra qualquer forma de controle da liberdade de pensamento. Esta inquietação será a sua marca.

Em entrevista dada ao jornal João de Barro, nº 249, de março de 2001, seu irmão Manoel Tibério (1932-2007) declarou: “O Wilson era apaixonado pela pintura; pintava tudo o que via.” Aos 18 anos, Wilson deixou um bilhete, dizendo que saía de casa para tornar-se um grande pintor. Na mesma matéria, encontra-se um depoimento do próprio Wilson Tibério dado via e-mail: “Atravessei uma crise de adolescente. Um amante da arte gostou do meu trabalho e me aconselhou a ir ao Instituto Belas Artes, no Rio de Janeiro. Foi o que fiz.”

Graças ao domínio do idioma italiano, entre outros, aprendido em Porto Alegre, chegou a cantar no Coro da Ópera. Neste ínterim, seu irmão mais velho vai ao seu encontro no Rio de Janeiro e, infelizmente, vem a falecer. Com esta perda Wilson Tibério sofre grande abalo, mas não desiste de seguir em sua luta por um espaço no mundo das artes. Logo começou a trabalhar, por um período, nos Cinemas Parisiense e Paramount Gaumont onde pintava cartazes de anúncios de filmes e ampliava fotos.

Wilson Tibério ainda estudante tinha por hábito ir às favelas cariocas para desenhar. Numa ocasião, enquanto rabiscava, conheceu Francesca ou Francisca pela qual se apaixonou. Desta união nasceram dois filhos gêmeos que, ao completarem seis meses de vida, faleceram.

Em 1941, nosso artista expôs no Salão de Pintura, no Rio de Janeiro, fato que se repetiu por mais dois anos sucessivos. No ano de 1945, também, no Rio de Janeiro, participou de uma exposição, que foi organizada pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Naquele mesmo ano, Wilson Tibério viajou ao Mato Grosso na missão do Serviço de Proteção ao Índio junto com a Associação de Proteção aos Índios da Amazônia, visando a registrar, por meio de desenhos e pinturas, a preservação da cultura indígena. Na Bahia, o artista pintou vários registros dos rituais do Candomblé.

Embora estas atividades tenham lhe possibilitado novas oportunidades no campo das artes, o ano de 1945, foi um ano de muita tristeza para Wilson Tibério, pois faleceram seu pai e sua madrasta. Diante destas perdas, o artista veio a Porto Alegre na tentativa de levar, em sua companhia, seus irmãos Manoel e Romana. Impedidos pelos tios, que discordaram do desejo de Wilson Tibério, o artista retorna sem a companhia dos irmãos.

Finalmente, em 1946, no Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, àquela época capital federal, ocorreu a primeira exposição individual de Wilson Tibério. Na ocasião, ele conheceu um jornalista comunista e aderiu ao Partido, sendo felicitado por Luis Carlos Prestes (1898-1990) pelo seu trabalho. O marco significativo que mudaria a sua vida, ainda, estava por acontecer. Ao expor em Petrópolis, no Hotel Quitandinha, ele conheceu o conselheiro cultural da Embaixada da França que lhe ofereceu uma bolsa para seguir seus estudos em Paris. Em outubro de 1947, o artista, que nascera na beira do Guaíba, partia para a Europa. Em se tratando de um artista, infelizmente, pouco conhecido no Brasil encontra-se, em algumas fontes, o ano de 1943 como data de sua partida para o exterior.

Em 1947, ele expõs, em Paris, na Galeria L’Arc, em Ciel , desenhos alusivos ao Brasil, nos quais registrou favelas, macumbas e vendedoras de rua no Rio de Janeiro. De acordo com Emanoel Araújo, por estar distante de sua terra natal, Wilson Tibério retratou, exaustivamente, motivos afro-brasileiros. No Museu do Homem, em Paris, assistiu às aulas de Antropologia e de Etnologia acerca da Arte Negra. Pelo fato de ser bolsista do governo francês, em 1948, visitou, na condição de convidado, determinadas colônias francesas, a exemplo do Senegal, Sudão, Daomé (Benin) e Alto Volta (Burkina Faso).

De temperamento sensível e preocupado com questões de cunho social, ao visitar a África, ele se deparou com inúmeros problemas que o entristeceram bastante. Ainda assim, diante daquela cultura, que considerou original e autêntica, ele se identificou nos cantos, nas danças, rituais fúnebres e casamentos. No Senegal, ao defender um irmão de etnia, que havia sido ofendido pelo poder colonial, nosso artista foi extraditado pelo poder local.

De volta a Paris, em 1949, Wilson Tibério passou a retratar, em suas telas, temas relativos às condições socioeconômicas dos africanos, sendo um momento também de novas experiências com cores e formas. Na Livraria La Porte Latine, ele expõe seus primeiros trabalhos dentro deste contexto do mundo africano, tendo realizado também uma coletiva na Fundação de Mônaco da cidade universitária de Paris.

No ano de 1950 nasceu, em Paris, a sua filha Gisele, e Wilson Tibério participou de outra coletiva na Casa da América Latina. No ano seguinte, ele vivenciou um momento muito especial de sua carreira: participou de uma exposição de Picasso, em Paris, na Galeria Henri Tronchet. Ao chegar o Verão, nosso artista expôs, em Menton, no espaço Jean Pernet Photographe.
Em 1952, participou da 2ª Bienal de Menton e, depois, expõe, em Nice, na Galeria Pédroni- Lombard. As cores presentes em seus trabalhos reforçam todo sentimento de dor e tristeza em relação ao povo do antigo Reino de Daomé (Benin). Com o nascimento de sua segunda filha, Sônia, em 1953, na cidade de Nice, nosso artista se voltou para os temas sobre a maternidade e a infância.
Transcorria o ano de 1954, quando Wilson Tibério realizou uma amostra, na Galeria Muratore. Nesta exposição, nosso artista retomou a temática sobre o Continente Africano. O artista assumiu uma postura política ao denunciar o trabalho forçado nas colônias. A partir deste trabalho, seguiram uma sucessão de outros, como na Galeria Paul Mary, em 1955, na capital francesa. Em 1956, em meio de 500 obras de 41 países, ele expôs no Museu de Belas Artes de Paris. No ano seguinte, na mesma cidade, seu trabalho foi exposto na Galeria Marcel Bernheim. Sua obra se caracteriza pela presente obsessão do homem que reza, sofre, canta ou se revolta na qual o seu traço é, muitas vezes, incisivo e bruto.

Quando deixou, ainda tão jovem, a sua cidade natal, Porto Alegre (RS), embora carregasse no seu mundo interior uma mala de sonhos, ele não imaginava que sua arte chegaria a Moscou e noutros lugares do mundo. No ano de 1957, nosso artista foi convidado para participar do Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes na Rússia. Muitos de seus trabalhos foram adquiridos por museus russos. Após este momento tão significativo de sua carreira, Wilson Tibério foi convidado a participar da Conferência dos Artistas e Escritores da África, Ásia e América Latina, realizado em Tachkent.

Cruzando fronteiras, a arte de Wilson Tibério chegou, em 1958, à China. Nesta fase, a cor azul assumiu um papel relevante para o artista em seus desenhos e telas que foram expostos na Casa dos Escritores e Artistas de Pequim.

O ano de 1960, que foi marco de mudanças culturais e comportamentais, refletiu em sua obra e Wilson Tibério voltou o seu olhar para uma África envolta em movimentos de independência. Em Abidjan, ele instalou seu ateliê onde produziu e preparou seus desenhos para serem expostos. Nesta fase, Sita se tornou seu modelo preferido, sendo, na visão do artista, o arquétipo da mulher africana. Este período representa a sua fase erótica do artista.

Em 1961, ele expôs pela primeira vez na Costa do Marfim no Salão do Hotel de Ville em Abidjan. Logo após, nosso artista foi convidado, pelo presidente Hamani Diori, a expor em Niamey, no Níger. Retornando a Abidjan, Wilson Tibério viajou ao interior do país. Ao norte, chegou a uma região onde os habitantes viviam nus. Isto o inspirou a pintar aquarelas neste lugar. Na Costa do Marfim, o artista produziu várias esculturas em argila.No ano seguinte, preparou uma exposição no Hall de Informação de Treichville, sob a presidência de Koffi Gadeau que era ministro da Informação da Costa do Marfim.

Diante da situação política da Costa do Marfim, em 1963, Wilson Tibério retornou à França. No ano de 1965, ele expôs na Casa do Comércio, em Lille, no norte da França. Em 1966, o nosso artista teve a honra de ser convidado para o Festival da Arte Negra de Dakar, no Senegal. Terminado o Festival, ele instalou seu ateliê, em Dakar, e realizou a exposição Senegal 67 na companhia do amigo e pintor sul-africano Sekoto, passando a morar em Dakar. No ano seguinte, expôs individualmente no Teatro Daniel Sorano.

Em 1970, ele retornou à Europa e instalou-se, em Roma, na Itália. Passados três anos, ele apresenta uma exposição na Galeria Paesi Nuovi. Esta exposição constou de pinturas e esculturas em terracota, pedra e gesso envernizado. O tema preferido pelo artista continua sendo a dor da guerra, a denúncia da fome e da perseguição.

Em 1973, a crítica italiana Mara de Mercurio registrou: “na tradição da grande pintura sul-americana de pós-guerra, Wilson Tibério, artista afro-brasileiro, apesar de estar há muitos anos na Europa, coloca-se numa dimensão muito precisa: é um artista de vanguarda, um pintor completo e um homem de seu tempo. As cores densas e pastosas impregnam e aumentam o sentido de todas as coisas.”

De forma regular, nosso artista sempre voltou à França. expondo, em 1973, com seu amigo Sekoto. Em 1977, ele expôs em Cavaillon, no Centro de Animação. Ao tomar conhecimento das violências nas ruas da África do Sul, o artista se comoveu e revoltou-se, inspirando-o a realizar uma série de trabalhos em cores brutas, predominando as cores amarelo e vermelho.

No ano de 1979, Wilson Tibério retornou à África Ocidental e expôs novamente na Costa do Marfim. Desta vez, seu trabalho ficou exposto num importante espaço, conhecido como Galeria Mitkal em Abidjan. Muitas telas, naquela ocasião, foram adquiridas por figuras importantes do governo. As cores utilizadas, pelo artista, são o amarelo, o verde e o pardo, tornando as telas alegres e vivazes.

Transcorridos alguns meses na África, nosso artista voltou ao seu ateliê principal, em Roma, expondo, em 1986, no Hotel Continental de Siena. Passados dois anos, Wilson Tibério se transferiu para Mazan, na França, encerrando o ano com uma exposição na Escola Normal de Bourges num Festival chamado Tam-Tam.

Em 1990, Wilson Tibério apresenta uma série de desenhos e aquarelas na Embaixada do Brasil em Paris. No ano de 1995, na França, agora, em Lyon, ele expôs no Espaço August Comte. A exposição constou de telas, desenhos e guaches, em formatos médios, exaltando a figura da mulher.

Ainda na França, na cidade de Avignon, em 1996, ele realiza uma retrospectiva no Convento das Artes. No biênio 1998-1999 seu trabalho foi exposto na Galeria Cecil B., em Les Vans, no Departamento de Ardeche, ficando, durante um ano, aberto à visitação pública. Ainda em 1999, Wilson Tibério se impõe o desafio de transformar em bronze alguns de seus trabalhos feitos em argila, gesso e pedra. Em 2000, ele apresenta em torno de uma dúzia de peças transformadas em bronze. Esta foi outra fase deste notável artista. Ainda no início do século 21, três telas antigas de coleções particulares foram expostas durante as comemorações dos 500 anos do Brasil durante a Bienal de São Paulo.

O advogado e músico Manoel Tibério, um dos irmãos de Wilson Tibério, por parte de pai, foi reencontrar seu irmão, em 2000, após muitos anos sem contato. Ao conversarem, ambos idealizaram uma exposição a ser apresentada, no Brasil, com as pinturas, desenhos e esculturas mais significativas do nosso artista. Infelizmente, Wilson Tibério faleceu, na França, em Mazan, no ano de 2005, deixando seu irmão bastante chocado, e o projeto ficou estagnado por um período. Com seu esforço e ajuda de amigos, Manoel Alceri Tibério recuperou para o Rio Grande do Sul e o país a obra valiosa de seu irmão, reconhecida internacionalmente. Outra tarefa importante foi encaminhar a tradução da biografia do nosso artista, escrita por Yola Levine, e realizar uma exposição histórico-biográfica em banners. Manoel Tibério faleceu em 2007. Estas atividades, que o irmão de Wilson Tibério realizou, são uma contribuição cultural importantíssima, colaborando, com as artes plásticas, ao trazer a publico um nome tão relevante e praticamente desconhecido em sua terra natal.

A invisibilidade e o desconhecimento da maioria dos brasileiros, especialmente, os gaúchos, em relação à magnífica trajetória deste artista negro é motivo de reflexão. Wilson Tibério lutou, trabalhou e aprimorou seus estudos, aproveitando cada oportunidade surgida em sua caminhada. Venceu as barreiras limitadoras da sua condição social e do racismo excludente ainda tão presente no Brasil. Orgulhoso de suas raízes negras, ele registrou em sua obra cenas do nosso Candomblé e o cotidiano do povo brasileiro. Uma figura ímpar da nossa Arte que merece ser lembrada e fazer parte da galeria dos grandes nomes das artes plásticas no Brasil.

Mais informações:

ROSA, Renato ; PRESSER, Décio. Dicionário de Artes Plásticas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed. Universidade / UFRGS, 2000.
http://ligadacanelapreta.blogspot.com.br/2007_11_01_archive.html
http://revistaraiz.uol.com.br/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=1487&Itemid=163 i
http://negraldeia.blogspot.com.br/2007/05/manoel-alceri-tibrio.html

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