Videobrasil e SP-Arte inauguram exposição centrada na tragédia em Mariana

© Divulgação

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A ideia para a individual surgiu da relação do artista com pessoas diretamente afetadas pelo desastre ambiental, ocorrido no final do ano passado em Mariana – causado pelo colapso de duas barragens em Minas Gerais. O projeto, criado em colaboração com moradores da região que se recusaram a sair de suas terras, gerou uma potente plataforma – capaz de dar visibilidade ao tema e provocar o público. Dessa forma, Gunn-Salie estabelece sua arte como ativismo e ação para transformação social. A mostra é resultado do 1º Prêmio SP-Arte/Videobrasil, premiação especial do 19º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Panoramas do Sul (2015) – e segue em cartaz no Galpão VB até 11 de junho de 2016.

Em Agridoce, o sul-africano Haroon Gunn-Salie renova o assombro sobre os eventos do desastre. Ele parte do desejo de afirmar o trabalho em conjunto como resposta aos desastres da vida real e da insistência em simbolizar algo que se perde repetidamente – a experiência dos vencidos. Uma instalação em larga escala, um registro em vídeo, uma série de fotos e um filme foram produzidos por Gunn-Salie em colaboração com os moradores cujas propriedades foram cobertas por uma camada de lama misturada a metais químicos pesados. Mortes, além da destruição de imóveis e do ecossistema da região, são resultado do acidente. O artista coletou e transportou do próprio local todo o material (incluindo a lama e as paredes de uma casa parcialmente soterrada, por exemplo) que compõe sua obra site specific. Impregnado da urgência do tempo presente, esse conjunto de obras exibido no Galpão VB busca – no silêncio que age sobre as experiências e narrativas pessoais – resgatar a dimensão humana da história.

O projeto surgiu após viagens do artista a Minas e do contato que ele teve com as comunidades de Paracatu de Baixo e Pedras, entre outubro de 2015 e janeiro de 2016. Em sua primeira ida à região, passou duas semanas viajando, documentando as comunidades e colhendo relatos orais. Poucos dias depois de sua volta à África do Sul, ele soube da tragédia, ocorrida nas propriedades da Samarco e da Vale do Rio Doce. Foi quando decidiu voltar, e qual tema teria sua mostra no Galpão VB.

“Usei essa oportunidade para me envolver em um projeto de arte transformador, na fronteira com a responsabilidade social, que convoca à participação pública”, explicou Gunn-Salie, preocupado em contar histórias que são normalmente esquecidas. “Traduzindo narrativas e histórias orais em obras de arte e intervenções colaborativas, baseadas no diálogo, quis trazer para o contexto brasileiro um modo de trabalhar que insiste que a arte pode ser usada para a transformação social e o ativismo de base”, finaliza.

No mesmo dia da abertura de Agridoce, o Galpão VB apresenta o resultado da segunda edição do projeto Videobrasil em Contexto, que integra o Programa de Residências Videobrasil. A exposição Acervo Videobrasil em Contexto #2 apresenta trabalhos do brasileiro Vitor César e do polonês Karol Radziszewski, convidados pela Associação Cultural Videobrasil e pelo A-I-R Laboratory – programa de residência artística do Centre for Contemporary Art Ujazdowski Castle, em Varsóvia (Polônia) – para participar desta edição, que tem apoio do Instituto Adam Mickiewicz (IAM).

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