Roberto Corrêa dos Santos resenha a exposição SOS Poesia, do MAR - Museu de Arte do Rio

SOS Poesia – Renato Rezende e Dirk Vollenbroich

MAR – Museu de Arte do Rio

Curadoria: Paulo Herkenhoff e Clarissa Diniz

De 7 de março a 3 de maio

 

Toda poesia consiste já em si mesma uma espécie singular de código Morse: uma mensagem cifrada a transmitir-se com seus recursos específicos. Nada, pois, mais experimentante do que fazer um código (o Poema) dar-se a ver por meio de outro código (o Morse) de semelhante família processual.
Nos dois – Morse / Poema –, pulsos, ondas, sinais: que vibram.
Nos dois– Morse / Poema –, a recepção obriga-se a mover-se conforme lógicas de entendimento que não se atenham tão apenas ao que os códigos querem dizer, mas também, e necessariamente, aos variados modos e traços ‘magnéticos’ presentes tanto no Morse, quanto nas línguas, como um todo, com sua diversas ondulações – ondulações mais e mais largas, frise-se, quando sob as ordens da Poema: o Poema coloca as línguas em estado mais solene, mais agudo, mais intensivo.
Letras, números e sinais de pontuação são, no código Morse, representados com a sequência de espaços, pontos, traços, e esses são os termos fortes do efeito de presença da escrita quando em situação artística, quando, pois, em estado de Poema – nome de algo do mundo da letra, mas ainda também nome genérico para designar toda obra que por sua grandeza venha a atingir o estatuto de arte.
Diante do excessivamente atual, os dois códigos – Morse / Poema – recorrem à contemporaneidade dos arcaísmos; ambos – Morse / Poema – poetizam e serenizam a tantas vezes extremada ansiedade do agora. Morse e Poema operam com o ritmo da intermitência: intervalos, modulações, silêncios; pois foi levando em conta tal parentesco poético de linguagens graficamente cifradas que os artistas DirkVollenbroich e Renato Rezende construíram uma obra plenamente óptica, com fins de levar a distâncias e aos foras do MAR (o fora, parte do Museu) a homenagem à cidade do Rio de Janeiro, e isso em forma de oferenda visual de novos ventos e saudações à vida com mais Poiesis: para os que chegam, os que estão, os que vêm, os que partem.
POESIA: SOS – um socorro lírico: um gesto fraterno de amparo: um aceno afetivo.
A Poesia de artistas, na forma Morse, estende-se: e ilumina seus signos de luz ali, no Prédio, diante do Atlântico: expande-se: desempenha, em obra concretíssima, sua generosa sabedoria plural.

 

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