Roberto Cabot: o ateliê como território-móvel

Roberto Cabot abre as portas de seu ateliê e apresenta Luo Dong

A pintura fina e precisa acumula camadas e disfarça caminhos. Acima, o óleo sobre tela de quase 3x6m de Roberto Cabot introduz o que o artista chama da grande viagem e o movimento. O resultado é ambicioso e igualmente poderoso. Deparamo-nos com uma série de véus que mascaram possibilidades: há coisas escondidas e metamorfoseadas, transformadas, impossíveis. Um corcovado flutuante, um arquipélago nas tranversais do tempo, múltiplos tecidos em centros urbanos imaginários. A ilusão de não saber se as coisas são o que parecem ser, ou de serem mais do que o olho capta à primeira vista, pedem ao espectador tempo para se aventurar em sua própria navegação de cabotagem em busca de tesouros no espaço.

Recém-chegado de Taipei, onde ele participa com a tela acima e outros três grandes trabalhos da bienal com curadoria do escritor, crítico de arte e ensaísta francês Nicolás Bourriaud, “Great Acceleration” , ele abre as portas de seu ateliê-móvel. Cabot fala sobre desterritorialização e reencontro, da natureza líquida desse seu lugar de trabalho que se molda e se revela em diferentes configurações. Num papo poético que vai de Deleuze-Guattari até Estética Relacional, ele apresenta também Luo Dong, um nome chinês com o qual recentemente tem assinado trabalhos. 

Catálogo da exposição “Étant donné la peinture…” que ocorreu na galeria Thomas Rehbein em Colônia em 1996, com o carimbo de Luo DongCatálogo da exposição “Étant donné la peinture…” que ocorreu na galeria Thomas Rehbein em Colônia em 1996, com o carimbo de Luo Dong 

PK – ANTES DE TUDO, QUEM É LUO DONG? TENHO VISTO VOCÊ ASSINAR TRABALHOS ANTIGOS COM ESSE NOME…
Cabot: Luo Dong nasceu na minha primeira viagem a Taiwan para a bienal de Taipei, é o meu nome mandarim. Me foi dado por um jovem artista de lá. Ele me parece ser um elo transversal entre diferentes momentos do meu percurso. Junta momentos passados e presentes, alterando o devir. Ele não se manifesta na linearidade habitual da narrativa coletiva. Ele transpõe, ou transgride, a idéia de evolução linear da obra. Ele é mais uma peça, um “trabalho”, que surge no biotopo criado pela obra e que densifica a trama. Ele me permite pensar essa questão da transitoriedade e da planearidade da experiência. Aliás, o nome surgiu da experiência, fui batizado após alguns dias de convívio intenso. 

Não sendo organismo, como o corpo sem órgãos, ele pode transitar lá onde os órgãos limitariam o movimento. Luo pode ser “espiral” em mandarim, o que faria do nosso sujeito o “mestre da espiral” ou o “piloto da espiral”. Essas dualidades da tradução do mandarim são uma verdadeira característica do cara…

PK – INTERESSANTE A IDEIA DE UM CORPO SEM ÓRGÃOS… ME DESPERTA CURIOSIDADE O FATO DE DAR NOME PRÓPRIO E EXISTÊNCIA A UMA ENTIDADE…
Cabot: Esse pode ser o termo mais correto, entidade. A Umbanda e o Candomblé compartilham um certo senso de “entidade” com o budismo que vi ser praticado em Taiwan. Luo Dong seria uma sorte de Exú, entidade, veículo e produtor de um desejo, corpo sem órgãos. Traduzindo a um vocabulário mais científico, ele seria uma configuração. Você pode “guardar” uma configuração para usá-la mais tarde, portanto é um objeto, um objeto que participa do comportamento de outros objetos. Ao mesmo tempo, essa entidade não é prevista nem controlada.

Ateliê em Paris, 1984-1986 (com Ciro Cozzolino na foto)
Ateliê em Paris, 1984-1986 (com Ciro Cozzolino na foto)

PK – QUANDO LUO DONG APARECEU PELA PRIMEIRA VEZ E COMO ELE TRANSITA?
Cabot: Ele navega esse plano conforme um mapa próprio, não linear. Ele se forma no ateliê Alechinsky na Beaux Arts em Paris em 1983, de quem eu era aluno. Logo se manifesta em 1996, e praticamente produz uma exposição inteira que é mostrada em Colônia. Para finalmente ganhar nome em Taipé, em 2014. Ainda estou pesquisando outras aparições que possam ter passado despercebidas. A questão é que, no delírio absoluto, ele está criando um ateliê (território) que se estende planearmente no tempo.

PK – QUERO ME CONVIDAR PARA FAZER UMA VISITA A SEU ATELIÊ AGORA, MAS ANTES DE SAIR DE CASA, QUERO SABER PARA ONDE ESTOU INDO? VOU ENCONTRAR LUO DONG?
Cabot: O ateliê agora é uma pergunta difícil. Às vezes, fica mais fácil de identificar a posteriori. Mas deve estar entre o Santo Cristo, na região portuária, e Copacabana, atualmente. Não sei se dá para “ir” a esse atelie do qual falamos. Com certeza dá para se conectar com ele. Não saberia te dizer onde se encontra Luo Dong atualmente.

Cabot pintando ao ar livre na ilha de Schiermonnikoog, Holanda. Recorte do jornal Leeuwarder Courant, 1995
Cabot pintando ao ar livre na ilha de Schiermonnikoog, Holanda. Recorte do jornal Leeuwarder Courant, 1995

PK – COMO SE DÁ O DELINEAMENTO REAL, IMAGINÁRIO E SIMBÓLICO DOS LIMITES DESSE ESPAÇO?
Cabot: O contorno, assim como o próprio objeto, é transitório. Gosto do termo transitório, que lembra o trânsito, e que transporta o passageiro. Além da noção de território deuleuziana-guattariana, acho que a idéia da TAZ do Hakim Bey descreve características aplicáveis ao ateliê transitório. O ateliê é também um espaço de distanciamento, de liberação do mundo interior, sendo mais um espaço simbólico que físico, com tamanho e local definidos. Vendo o pessoal consertar panelas, fabricar insetos de palha, ou ajustar carburadores nas calçadas de Copacabana, penso que o bairro inteiro é uma espécie de grande acampamento de ateliês transitórios.

PK – AQUI VOCÊ FALA DE ISOLAMENTO DO MUNDO DE FORA, COM BARREIRAS QUE PARECEM SER FLUIDAS E MUTÁVEIS. QUAL A INFLUÊNCIA DE CIRCUNSTÂNCIAS E ELEMENTOS DE CADA MOMENTO NESSE TERRITÓRIO QUE NÃO PODE SER FIXADO?
Cabot: Relações. Esse termo é importante. O hub de gestão das relações, ou um espécie de roteador das relações com o mundo. Essa concepção vem do tempo em que discutíamos o relacional na arte com o Bourriaud e outros amigos franceses em Paris, na virada dos anos 1980 pra 1990. Sempre pensei as relações como fenômeno, a idéia é se relacionar com o mundo, com as coisas, os bichos, as plantas, as pessoas, e essas todas entre elas.

PK – NO ABC DO DELEUZE, LOGO NA LETRA A, EM ANIMAL, ELE FALA SOBRE SEU ENCANTAMENTO COM O BICHO NÃO DOMÉSTICO E SEU MUNDO. CONSIGO FAZER UMA RELAÇÃO COM “O ARTISTA E SEU MUNDO”?
Cabot: Tenho uma obsessão total com o processo. Sempre estou nele… como o caracol com a espiral dele nas costas… aliás é outra boa metáfora. Às vezes, o cara se recolhe na casca, é o distanciamento. Acho que se fosse um bicho, seria um camaleão-caracol não domesticado.

Projeto de centro de arte vertical com ateliês na cratera Copérnico, Lua - 2012
Projeto de centro de arte vertical com ateliês na cratera Copérnico, Lua – 2012

PK – COMO É O MOVIMENTO DESSE ATELIÊ-MÓVEL?
Cabot: Voltando a metáfora marítima que costumo usar, vejo o ateliê, como elemento de uma produção nômade, mais próximo do acampamento estabelecido ao longo da viagem de cabotagem, nas paradas costeiras e nas ilhas dos arquipélagos percorridos, do que do assentamento de uma fábrica ou um office. A única coisa chata de deslocar é a biblioteca…

PK – QUAL A RELAÇÃO DO ESPAÇO COM O SEU TRABALHO?
Cabot: A questão do ateliê está ligada a questão da forma da produção artística e a como essa se integra no contexto. O ateliê já foi fábrica, laboratório, “office”, oficina, dependendo do modo de produção e inserção da arte em questão. No meu caso, meu trabalho e minha vida sempre foram totalmente imbricados, e o deslocamento sendo um dos elementos fundamentais na minha produção, existe a necessidade de deslocar a produção e a vida de quando em quando. Ou seja, não é só o ateliê que é deslocado, mas o próprio artista e sua vida. O delineamento de um território é o primeiro gesto artístico e a natureza desse território vai definir o resto, já que o gesto seguinte é a desterritorialização consequente do pensamento e da experiência. Depois disso, estamos no território transitório, que é uma espécie de desterritorialização permanente.

Vista do ateliê na Babilônia durante a produção para a bienal de Taipei. 2014
Vista do ateliê na Babilônia durante a produção para a bienal de Taipei. 2014

PK – O QUE DEFINE A NATUREZA DE UM ATELIÊ? ELE TEM UM PRINCÍPIO PRÓPRIO DE ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURA?
Cabot: Esse acampamento se estrutura em torno de uma prática, portanto ele assume características recorrentes em seus diferentes momentos. Quando tenho que organizar um espaço para um projeto específico, este assume então características ligadas aos requerimentos do projeto. No caso da bienal de Taipé, por exemplo, as dimensões das peças foi determinante na procura de um espaço para executar as pinturas. O fato de o local ser no morro da Babilônia teve influência no processo, nas idéias. Mistificando um pouco, acho que não existe o aleatório, e a situação que se oferece está dentro de uma lógica, existe um impulso e uma inércia, reflexos, relações pré-existentes, atrações-repulsões. Todos elementos que vão definir o que se apresenta.

Vista do ateliê em Colônia, no bairro de Deutz. 2006
Vista do ateliê em Colônia, no bairro de Deutz. 2006

PK – VOCÊ JÁ MOROU EM MUITOS LUGARES, ARGENTINA, FRANÇA, ILHAS CANÁRIAS, ALEMANHA, ESPANHA, BRASIL. FICOU MAIS DE 20 ANOS FORA E CONQUISTOU UMA CARREIRA INTERNACIONAL MUITO JOVEM. COMO VOCÊ ENCONTRA ESSE TERRITÓRIO-MÓVEL EM TRÂNSITO?
Cabot: Durante vários anos, e em vários momentos, trabalhei em hotéis, costumava alugar um quarto para dormir e outro para produzir. Sempre gostei da imersão num contexto novo para inventar. O entorno, o contexto em que se insere, traz influências circunstanciais que se integram na produção, o ateliê fazendo aí um certo papel de hub ou mesmo de “filtro” para a relação imediata com o mundo.

PK – JÁ QUE CHEGUEI ATÉ AQUI, OUSO PEDIR UM BILHETE PARA VIAJAR PARA SEU PRIMEIRO ATELIÊ. É POSSÍVEL? ONDE FOI? O PÉ DE UMA ÁRVORE COM VISTA PARA 50 MIL GALINHAS?
Cabot: Meu primeiro ateliê foi na Pampa argentina, uma casinha de madeira que construí com 11 anos num canto do sítio em que morávamos, a 600 km de Bs As. Era o lugar onde passava horas observando minha criação de formigas em vidros, ou desenhava e montava meus foguetes a pólvora, lia, desenhava, pintava… eram 16 horas de caminhonete por estradas de terra para chegar lá, de Bs As, na época.

Página do catálogo de 1996, com carimbo Luo Dong em 2014

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