Queermuseu: A exposição menos vista e mais comentada do Brasil

Criança viada de Bia Leite

Criança viada de Bia Leite

Primeiramente, este texto traz um ponto de vista pessoal e não é uma condenação à censura. O cidadão mediano já leu muitas críticas ao encerramento da exposição Queermuseu e não carece de mais outra. Mas sim, é uma crítica, a dois grupos que se sobrepõem, no qual ouso encaixar quase todos que se manifestaram pró e contra: o dos intolerantes e o dos mal-informados.

Entendo quem rechaça qualquer tipo de censura, faço parte deste grupo. No entanto, há por trás do encerramento da mostra o desejo de uma instituição de proteger a integridade seus funcionários e das obras de arte frente a atos e ameaças de violência e isto não se pode condenar. É uma pena que o manifesto do Santander sobre o assunto seja praticamente um pedido de desculpas ao MBL ao invés da dura crítica que este mereceu. Não desmente a apologia a práticas sexuais criminosas e não reafirma seu compromisso com a arte e com a liberdade de expressão. A falha do departamento de comunicação foi grave: despertou o desgosto dos ilustrados sem apaziguar os intolerantes.

Se a direção do centro cultural foi corajosa ao assumir o polêmico tema da diversidade, talvez lhe tenha faltado a firmeza necessária para intervir na curadoria quando o volume de obras selecionadas saiu do controle. O curador Gaudêncio Fidelis contou em diversas entrevistas que não foi informado do encerramento, mas correm rumores de que ele já não vinha se comunicando com o Santander há dias, em função de desentendimentos. O resultado foi uma exposição na qual, de acordo com Justo Werlang, as obras “tiveram seus significados reduzidos ao script que lhes foi desenhado pelo curador.” Com 263 delas amontoadas em um espaço onde talvez coubessem 120 ou 140, a contemplação que um objeto de arte pede torna-se impossível e o propósito curatorial assume protagonismo, sem conseguir passar a mensagem de celebração das diferenças que lhe serviu de guia.

Ainda no grupo dos mal informados estão o que estão repetindo papagaiamente que a exposição incita a pedofilia. Os maiores cúlpritos são duas obras. “Eu e Tu” de Lygia Clark traz dois macacões repletos de zíperes, ligados por um tubo. Ela foi exposta em manequins e não podia ser tocada, mas algum incendiário postou que crianças poderiam vesti-la e tocar a genitália da outra através dos zíperes e a inverdade se espalhou, indo parar até nas redes sociais do deputado Bolsonaro, aquele ícone da direita cega de quem a própria direita sente vergonha. Outra suposta apologia à pedofilia estava nas telas de Bia Leite, imagens de crianças estampadas com dizeres como “Criança viada travesti da lambada”. A artista se inspirou em no perfil do Tumblr “Criança Viada”, que postava fotos de meninos que já eram afeminados desde pequenos, enviadas pelos adultos LGBT que eles se tornaram, mostrando que a sua sexualidade se desenvolveu naturalmente desde seus primeiros anos. A intenção era celebrar a infância e criticar o abuso e o desrespeito à individualidade da criança. Basicamente, o oposto da pedofilia.

Acumulando intolerância e ignorância, os defensores dos valores morais apelaram pra violência verbal, atacando perfis nas redes e perseguindo indivíduos. Em um caso que acompanhei, chegaram a enviar mensagens à empresa onde o jovem trabalha, acusando-o de apoiar a pedofilia e zoofilia. Seu crime: postar uma imagem com os dizeres “If it disturbs you, it’s art” em uma discussão sobre o encerramento.

Já os grupos de defesa da religião cristã sentiram-se ofendidos por obras como “Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva”, de Fernando Baril, pintada há 21 anos. Se vivesse nos dias de hoje, imagino que Cristo, meu filósofo predileto e ser humano modelo, desejaria ter oito pares de braços para levantar o peso de nossas mazelas e ficaria curioso sobre o hinduísmo. Mas ainda que se sentisse insultado pela pintura, certamente toleraria, usaria de sua infinita empatia para entender que não houve má intenção, perdoaria e ofereceria a outra face.

Aqui temos outro caso de falha do departamento de comunicação: se, em complemento à Bíblia, tão críptica e aberta a interpretações, os apóstolos tivessem divulgado um resuminho mais enfático das lições de Jesus, talvez a civilização entendesse que a tolerância e o amor são os pilares sobre o qual construiremos um mundo melhor. Resta aos bem-informados tolerar a boçalidade de nossa humanidade e defender com unhas e dentes estes princípios. Os intolerantes e os ignorantes continuarão divulgando suas ideias mal fundamentadas publicamente, mas que o façam sempre respeitando ao próximo. Toleraremos. E que entendam que, se não gostam do título da exposição, melhor nem visitar.

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