Por quase dez anos, Brígida Baltar fez pequenas ações de armazenamento poético de substâncias domésticas, tais como gotas de chuva que caem por sutis frestas de telhados.

Por quase dez anos, Brígida Baltar fez pequenas ações de armazenamento poético de substâncias domésticas, tais como gotas de chuva que caem por sutis frestas de telhados, ou o pó vermelho desprendido dos tijolos que formavam as paredes da casa que era lugar de trabalho e moradia. Algumas vezes, o acaso do tempo lhe oferecia essas matérias; em outras, as buscava de modo ativo. Sem finalidade precisa, esses gestos traziam, em potência, a locução simbólica, em meios diversos (esculturas, desenhos, vídeos, fotografias), daquilo que é quase sempre visto como substância amorfa e sem vida.

Essas ações se desdobraram, em seguida, para o espaço da rua, fundando, em período de atividade intensa, o projeto de coletas de umidade, orvalho e maresia, empenho sabidamente vão de capturar o que é intangível. Em 2005, antes de se mudar para outro lugar, a artista acumulou quantidade grande daquele mesmo pó fino de que eram feitos tijolos duros. Dessa substância, faz ainda outros trabalhos, estendendo a duração de um tempo passado e a dimensão de um espaço que era antes de tudo abrigo.

Vários desses trabalhos são desenhos de montanhas e florestas do Rio de Janeiro, cidade em que reside. O fato de serem feitos com o pó dos tijolos da casa onde morou faz dessas imagens, porém, menos descrições apuradas de elevações e de matas, e mais a afirmação de um lugar de convívio. Não se encontra nesses desenhos, portanto, interesse em reproduzir, de modo exato, o que seus olhos enxergam, mas em fazer o registro afetivo de uma geografia e de uma botânica das quais se sinta partícipe. Em vez de apenas elementos naturais desenhados, os trabalhos estruturam e sugerem, de fato, um espaço de sociabilidade conhecido; neles, montanha se torna um quintal grande e floresta, talvez, um apequenado jardim.

Feitos, igualmente, desse avermelhado pó, outros desenhos reproduzem, em traços que fazem roçar grão áspero contra papel liso, fotografias da família ou de amigos de Brígida Baltar. Sem buscar detalhar cena alguma, a artista refaz, desse modo, a orgulhosa alegria do pai que carrega o filho, a celebração de uma data feliz, ou o sono sereno de alguém querido. São trabalhos que, por sua delicada fatura, parecem tornar visíveis fatos que, embora comuns, resistem ao esquecimento que o passar do tempo autoriza. Postos sobre paredes de quaisquer partes, esses desenhos simbolicamente devolvem, ao pó do qual são feitos, sua serventia de quando era matéria dura: sustentar casas e abrigar partilhas de vida.

Brígida Baltar produz ainda, da fluida matéria que usa, tijolos e tacos em miniatura, com os quais constrói pequenas paredes e pisos que podem ser transportados de um a outro canto. Em vez de ruínas guardadas, o pó evoca, feito de novo objeto sólido, elementos arquitetônicos que constituem qualquer moradia. Torna móvel, assim, aquilo que representava a casa de onde havia partido, um lugar inscrito em uma territorialidade específica. Sem retirar dessa substância sua associação com um espaço que delimita – mas também projeta – uma história privada de vida, a artista lhe concede um sentido celebratório e público, liberto de nostalgia.

 

 

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