MAM, simplifique nossa missão!

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Por Liege Gonzalez Jung

Na última terça-feira 26/10, estourou nas redes uma polêmica em torno de vídeos e fotos de crianças interagindo com um homem nu no MAM São Paulo. Ocorreu durante a performance “La Bête”, sobre a qual Leandro Fazolla escreveu em abril de 2016 na Dasartes 47, por ocasião de sua encenação no Festival de Curitiba.

A performance não tem nenhuma relação com sexo. Wagner Schwartz, artista performático, promove uma interação entre seu corpo e o “Bicho” de Lygia Clark e incentiva a participação da plateia, que mexe nele e na escultura. Assume-se assim como uma extensão também manipulável deste objeto, em uma performance de impacto e beleza plástica.

Para nossa infelicidade, no entanto, crianças foram filmadas interagindo com o artista.

Me surpreende que, neste momento pós-Santander, o MAM não tenha proibido a presença de menores de 16 ou 14 anos. Certo, havia um cartaz informando que haveria nudez. Mas alguém lê estes avisos? Nem sempre. E quando lê, nem sempre exercita o bom-senso.

Desde a criação da Dasartes, viemos usando nossa criatividade para aproximar o público de obras difíceis, de tubarões em tanque de formol a fotos de sexo com Cicciolina. Com frequência, dizem que não é arte. Na verdade, a pergunta não faz sentido. Se aceitarmos apenas o que já é, nunca evoluiremos. Isto vale para todas as áreas da criação e do conhecimento: medicina, física, filosofia…  Às vezes, é necessário colocar uma inovação em prática, mesmo que a princípio ela cause estranheza. Se ela tem valor, e acontece na hora certa, sua reverberação muda a linguagem e o modo de pensar dos que atuam na área, ainda que isto leve anos. Assim, de obra estranha em obra estranha, a arte vai mudando e evoluindo. Assim como a ciência.

No entanto, “La Bête” não requer a presença de crianças. De forma alguma defendo os que acusaram o artista e o museu de apologia à pedofilia – nem me daria o trabalho de reagir a este tipo de nazi-manifestação mal-informada – , mas não vejo nenhum ganho para as crianças em participar. Talvez algumas risadas, quando contarem para as coleguinhas da escola que viram pipi quando foram ao museu com a mamãe. Ai teremos as coleguinhas contando para suas mães e, bingo!, mas alguns indivíduos entrando para o grupo de quem tem raiva de arte porque não entende. E não apenas elas: milhares de pessoas que, sem saber nada da obra em questão, viram apenas uma foto de uma menina tocando um homem nu e não gostaram – e não apenas os quadrados de extrema-direita, mas também pessoas sensatas e inteligentes, que frequentam museus. E, fora do contexto, quem gosta? Apenas os pedófilos e os haters em busca de material para ataques mal-fundamentados.

A defesa da arte conceitual seria mais fácil se não tivéssemos que perder tempo com desvios que não tem nenhuma relação com arte. A defesa de “La Bête” seria muito mais fácil se não tivéssemos que convencer o público de que a obra vai além de uma criança tocando um homem nu. A polêmica causada pelos vídeos cria muros de preconceito contra a arte e fortifica os já existentes. Gostaria de viver em um mundo onde não houvesse estes muros, onde democratizar a arte não fosse uma luta, mas a realidade não é esta.

Venho lido pronunciamentos juntando o ocorrido no Santander e no MAM como se fosse a mesma coisa, mas, na minha opinião, não é. É fato que nenhuma delas incorre nos crimes das quais foram acusadas, mas no Santander não havia forma alguma de seguir em frente com a exposição sem levantar muros de preconceito, já que incluía ao menos algumas obras que lidavam com sexo e religião de forma pouco ortodoxa. Como coloquei em minha postagem anterior neste site, penso que o Santander deveria ter sido firme na defesa de sua produção e mantido a mostra, mas não foi.  Já a performance “LA Bête” funciona perfeitamente sem a presença de crianças, que nem ao menos tem as referências necessárias para compreendê-la. Uma vez ocorrido o drama, o MAM agiu de forma correta, defendendo sua obra e seu conceito, tão distante do percebido pelo público. Mas é pena que tenha chegado a isto, pois poderia ter sido evitado.

O MAM é uma instituição séria e tenho dificuldade em acreditar que tenha encorajado esta situação buscando presença na mídia. Se este era o intuito, foi bem-sucedido. Mas penso que foi apenas descuidado ao levar ao extremo a defesa da liberdade. Assim como muitos, sou contra a censura, mas não sou contra a censura para menores. Há de se usar o bom-senso e não apenas esperar que os visitantes o usem.

NOTA: os textos assinados nas mídias Dasartes são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes

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