Gonçalo Ivo e a aurora amanhecida

© Divulgação

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A mostra “Aurora” reúne parte das 35 pinturas que ilustram a edição brasileira do livro Aurora, do pai do artista, o escritor e poeta alagoano Lêdo Ivo (1924-2012), publicado postumamente na Espanha, em 2013, e que será lançado junto a inauguração da exposição no próximo dia 24 de maio.

“É hora da partida/ parto sem levar nada/ no fim da madrugada, na aurora amanhecida”, são os versos que encerram o livro Aurora, de Lêdo Ivo, que conta com reproduções de pinturas de Gonçalo Ivo feitas especialmente para a edição brasileira do livro, em atenção a um desejo do poeta alagoano, falecido em dezembro de 2012. Essas pinturas não apenas condensam e deslocam a recente investigação pictórica de Gonçalo Ivo, como servem para iluminar as 15 obras presentes na mostra, entre as quais duas pinturas no formato 220 x 140 cm, feitas sobre fórmica, suporte inédito em sua produção e apresentado pela primeira vez ao público.

Numa delas, Poema noturno, homenagem a Lêdo Ivo, de 2014, pintada sobre fórmica negra, cruzes e linhas, recorrentes em suas últimas obras, estabelecem uma misteriosa constelação, cujas cores, grávidas de movimento, carregam consigo a claridade que, no dizer de seu pai sobre a aurora, “[…] permite ver/ a matéria do mundo”. Como sugerem os versos que, desta vez, abrem o derradeiro livro preparado por Lêdo Ivo, “Ao romper da aurora/ tudo é epifania”, e a pintura de Gonçalo, como se nota no conjunto agora exposto, continua a celebrar, em sua própria religiosidade, aparições que, “[…] vindo da sombra/ do mistério da noite”, devolvem ao olhar a capacidade de surpreender-se e reanimar-se com coisas terrestres.

Sob a iniciativa da Gustavo Rebello Arte e com o apoio da Contra Capa Editora, a exposição, Aurora, conjuga, assim, duas linhas de força da trajetória de Gonçalo Ivo: a incessante investigação cromática, cotidianamente invocada em seu ateliê, e o diálogo com outras manifestações da arte e do espírito, não raro estabelecido na forma de livros.

“A pintura de Gonçalo Ivo é mais do que um estudo da cor, é uma escola para a cor. Ali, ela aprende. Amadurece, como animal efetivamente caçado, que não pode mais deixar de assumir sua evidência no mundo. Cada tela é uma classe, feita de superior maestria, onde a luz incide para se adorar já não enquanto acaso, mas enquanto inteligência. É esta a diferença entre a cor por consciência e a casual. O trabalho de Gonçalo Ivo, cientista desta arte, é um modo de revelação, não enquanto delirante tentativa mas exatamente enquanto pronúncia de sábio que chega cada vez mais perto do que não se podia ver.” Valter Hugo Mãe.

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