Ferreira Gullar: Crítico de arte, artista e grande poeta

Ferreira Gullar. Foto: Marcelo Magalhães

Em homenagem póstuma ao poeta Ferreira Gullar, que faleceu neste último dia 4/12, a Dasartes prepara a releitura de sua entrevista feita em 2009 em sua quinta edição. Com sábias palavras o artista provoca pôlemica em diversas áreas da cultura no país. Em breve na edição 55 da Dasartes.

Veja em nossa galeria, imagens exclusivas do artista em sua residência em Copacabana assinando suas gravuras.

Batizado como José de Ribamar Ferreira, Ferreira Gullar nasceu em São Luís do Maranhão em 10 de setembro de 1930. É poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta. Aos 19 anos, publicou com recursos próprios seu primeiro livro de poesia, Um pouco acima do chão, e dois anos mais tarde mudou-se para o Rio de Janeiro, cidade em que mora até hoje. Colaborou para jornais e revistas, escreveu peças de teatro, letras de músicas, diversos ensaios e publicou algumas das mais importantes obras da poesia brasileira como o Poema sujo, escrito na década 1970, período em que esteve exilado, e os livros A luta corporal (1954), Dentro da noite veloz (1975), Na vertigem do dia (1980), Barulhos (1987) e Muitas vozes (1999). Em 2010, ganhou o Prêmio Camões pelo conjunto de sua obra. Em 2012, as ilustrações que fez para seu livro Bananas podres deu a Gullar o Prêmio Jabuti, o primeiro que ganhou como ilustrador.

Curta! homenageia Ferreira Gullar com exibição de série dirigida por Sílvio Tendler

Para homenagear o poeta Ferreira Gullar, que morreu no último domingo, 4, o Curta! disponibiliza com exclusividade no NOW (sistema da NET para conteúdos sob demanda) a série documental inédita na TV por assinatura “Há Muitas Noites na Noite”. Com direção do cineasta Sílvio Tendler, a produção é inspirada em um dos principais trabalhos de Gullar, “Poema Sujo”.

Ao longo de sete episódios, “Há Muitas Noites na Noite” traça um panorama sobre o período de exílio do poeta durante a ditadura militar, mesclando animações, músicas, leituras, documentos e ilustrações.

O projeto, que começou em 2010, conta com depoimentos do próprio Gullar, além de registros históricos de intelectuais, artistas e amigos como Fagner, Eduardo Galeano, Sérgio Britto, Alcione, Nathalia Timberg, Eric Nepomuceno, entre outros. Em um dos episódios a atriz Letícia Sabatella, a cantora Maria Bethânia, o compositor Edu Lobo e o violonista Lula Galvão cantam, separadamente, os versos de “Trenzinho Caipira”, composição de Ferreira Gullar para a melodia de Heitor Villa-Lobos que integra a peça Bachianas Brasileiras nº2.

Após a estreia exclusiva no NOW, a série “Há Muitas Noites na Noite” entra na programação do Curta! a partir deste sábado, 10, às 21h.

LINHA DO TEMPO

1930

Setembro, 10 –– Nasce na rua dos Prazeres, em São Luís, Maranhão.

Ferreira Gullar é o nome literário de José de Ribamar Ferreira, o quarto dos 11 filhos de D. Alzira Goulart Ferreira e do comerciante Newton Ferreira.

 

1943

Ingressa na Escola Técnica de São Luís, profissionalizante, onde irá adquirir conhecimentos de marcenaria, serralheria e sapataria. Escreve o primeiro poema.

1945

Em uma redação sobre o Dia do Trabalho, obtém nota 95, e a professora diz que só não deu 100 porque havia dois erros de português. O texto é centrado na ideia de que “no Dia do Trabalho ninguém trabalha”, um sucesso na turma. Acha que descobriu sua vocação e decide estudar português para se tornar escritor: durante dois anos dedica-se ao estudo da gramática.

1946

Desperta interesse pelas artes plásticas. Tem vontade de pintar. Depois de algumas tentativas malsucedidas, o pai o coloca num curso: aprende o básico, chega a pintar alguns quadros e a fazer desenhos a nanquim.

1947

Começa a trabalhar como locutor na Rádio Timbira, a PRJ-9, de São Luís.

1948

Colabora no suplemento literário do Diário de São Luís. Com o amigo Lago Burnett lança a revista Saci e, nos dois anos seguintes, o jornal Letras da Província e a revista Afluente, em sucessivos empreendimentos de curta duração. Uma das características desses periódicos era ser contra a Academia Maranhense de Letras.

 

1949

Publica, com recursos próprios, seu primeiro livro, Um pouco acima do chão. A coletânea de poemas é marcada pela leitura dos clássicos e parnasianos. No mesmo ano, descobre a poesia moderna de Drummond, Murilo Mendes e outros, e começa a mudar a maneira de escrever.

1950

Seu poema “O galo” vence um concurso do Jornal de Letras, do Rio de Janeiro.

Reprodução do poema “O galo” (Cadernos de Literatura Brasileira)

1951

Em agosto, transfere-se para o Rio, adoece de tuberculose.

1952

Trabalha na revista do IAPC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários). Torna-se amigo dos jovens pintores da época e também do crítico Mário Pedrosa.

1953

Começa a trabalhar como revisor de texto na revista O Cruzeiro.

1954

Lança o volume de poemas A luta corporal, com um projeto gráfico inovador; o livro aprofunda suas experiências de linguagem e abre caminho para o movimento da poesia concreta. Trabalha na revista Manchete. Casa-se com Thereza Aragão Miranda, com quem teria três filhos.

 

1955

Trabalha no Diário Carioca. Nasce a filha Luciana.

1956

Integra a equipe que elabora o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (SDJB) e deflagra a renovação de todo o jornal. Participa da I Exposição Nacional de Arte Concreta, em São Paulo e, no ano seguinte, no Rio de Janeiro.

1957

Os concretistas de São Paulo rompem com o grupo do Rio de Janeiro, liderado por Gullar, porque os cariocas não concordam com a tese da poesia matemática, defendida pelos paulistas. Ainda no Jornal do Brasil, passa a escrever crônicas na coluna “Rodízio”, revezando-se com outros escritores, como Manuel Bandeira.

Nasce seu filho Paulo.

1958

Publica o livro Poemas, no qual estão reunidas suas experiências concretistas.

Trabalha no Diário de Notícias.

1959

Escreve o “Manifesto neoconcreto” e a “Teoria do não objeto”. É concebido o “Poema enterrado”, que tem seu projeto publicado no SDJB.

Nasce seu filho Marcos.

1961

Nomeado presidente da Fundação Cultural de Brasília. Concebe e começa a construção do Museu de Arte Popular, projeto de Oscar Niemeyer. Com a renúncia do presidente Jânio Quadros, sai da fundação e retorna ao Rio.

1962

Ingressa no Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional de Estudantes (UNE). Publica os poemas de cordel “João Boa-Morte: cabra marcado pra morrer” e “Quem matou Aparecida”, assumindo claramente uma nova atitude literária de engajamento político e social. Participa das Ligas Camponesas de Francisco Julião. Começa a trabalhar na sucursal carioca de O Estado de S. Paulo, jornal ao qual estaria ligado por mais de 30 anos.

1963

É eleito presidente do CPC da UNE.

1964

Filia-se no dia seguinte ao golpe militar, 1o de abril, ao Partido Comunista Brasileiro. A primeira edição de seu livro de ensaios Cultura posta em questão, recém-publicado, é queimada por militares dentro da sede da UNE.

Funda o Grupo Opinião, ao lado de Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes, Armando Costa, Thereza Aragão, João das Neves, Denoy de Oliveira e Pichin Plá.

1965

É editado na Suíça o Livro-poema, da fase neoconcretista, de difícil confecção, com as páginas cortadas e recortadas, orientando a leitura.

1966

Publica o cordel História de um valente, escrito a pedido do PCB, sob o pseudônimo de José Salgueiro. Lança A luta corporal e novos poemas. Escrita em parceria com Oduvaldo Vianna Filho, a peça Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come é encenada no Rio de Janeiro pelo Grupo Opinião, e ganha os Prêmios Molière, Saci e Governo do Estado de São Paulo.

1967

É publicado seu primeiro trabalho como tradutor: O inspetor geral, de Gogol, em parceria com João das Neves.

1968

É preso pela primeira vez, durante 20 dias. Publica Por você por mim, que traduzido para o vietnamita, foi distribuído para os guerrilheiros durante a guerra no Vietnã.

1969

Lança Vanguarda e subdesenvolvimento, livro de ensaios.

1970

Perseguido pela polícia, passa a viver escondido em casa de parentes e amigos.

1971

Seu pai morre em São Luís.

Depois de um ano vivendo na clandestinidade, parte em agosto para o exílio em Moscou, onde permanece dois anos.

Reprodução do poema “Meu pai”

1973

Muda-se para Santiago do Chile. Estava lá no 11 de setembro, dia em que o presidente Salvador Allende é derrubado e, por isso, comete o suicídio. Em seguida vai para Lima.

1974

No dia da morte do presidente Perón, 1o de julho, desembarca em Buenos Aires, onde passa a residir. Enquanto mora fora do país, colabora para O Pasquim, Opinião e outros jornais, e para sobreviver dá aulas particulares sobre literatura. É absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM) da acusação de pertencer ao Comitê Cultural do Partido Comunista Brasileiro.

Caricatura de Ziraldo: “Grupo de amigos”

1975

Dentro da noite veloz, livro de poemas, é editado no Brasil. Vinicius de Moraes traz de Buenos Aires uma fita cassete em que Gullar diz seu Poema sujo, um novo livro, escrito nesse ano; cópias passam a ser ouvidas no Rio de Janeiro em sessões privadas.

1976

O Poema sujo é lançado no Rio sem a presença do autor.

1977

Em 10 de março, Gullar volta ao Brasil, mas é preso no dia seguinte e levado para o DOI-Codi, onde é interrogado durante 72 horas. Recebe os Prêmios Personalidade Literária do Ano, da Câmara Brasileira do Livro, Intelectual do Ano, do Instituto de Arquitetos do Brasil, e o da Associação Paulista de Críticos de Arte pelo Poema sujo. Lança Antologia poética, seleção do autor.

1978

Sua peça Um rubi no umbigo é encenada no Teatro Casa Grande, no Rio. Publica Uma luz do chão, um ensaio em forma de depoimento.

1979

Grava o disco Antologia poética, pela Som Livre, com seus poemas acompanhado de Egberto Gismonti ao violão. Essa experiência em disco se completará com o Gullar compositor, gravado por diversos artistas: tem parcerias com Milton Nascimento, Caetano Veloso, Fagner e outros. É dele a letra do “Trenzinho do caipira” para a música de Heitor Villa-Lobos, gravada, pela primeira vez, por Edu Lobo. Começa a trabalhar no núcleo de teledramaturgia da Rede Globo, adaptando textos teatrais. Nos anos seguintes, cria episódios para as séries Carga pesada e Obrigado, doutor, e escreve novelas e minisséries.

1980

Publica Na vertigem do dia, com novos poemas, e Toda poesia, reunindo a obra para marcar seus 50 anos de idade.

1982

Lança Sobre arte, livro de ensaios.

1983

Recebe os Prêmios Mambembe e Molière pela peça Vargas, uma parceria com Dias Gomes e música de Chico Buarque e Edu Lobo.

1984

Recebe o título de Cidadão Fluminense da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

1985

Recebe o Prêmio Molière pela sua tradução de Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand. Lança Etapas da arte contemporânea: do cubismo à arte neoconcreta (ensaios).

1986

Publica Crime na flora ou Ordem e progresso (poesia).

1987

Lança o livro de poemas Barulhos.

1988

Estreia no Teatro Guaíra, em Curitiba, o balé Dança da meia-lua, roteiro de Ferreira Gullar e Chico Buarque, com música de Edu Lobo e Chico Buarque.

1989

Agraciado, no grau de comendador, com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Lança Indagações de hoje (ensaios) e o primeiro livro de crônicas A estranha vida banal.

1991

Edita O formigueiro, escrito em 1955, início do movimento concretista.

Morre Marcos, seu filho mais novo.

Foto ampliada da folha entre as folhas de “O formigueiro”

1992

Nomeado pelo presidente Itamar Franco diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura (Ibac), do Ministério da Cultura. Permaneceria no cargo até 1995, devolvendo à instituição seu antigo nome, Funarte.

Escreve, em parceria com Dias Gomes e Marcílio Moraes, um dos trabalhos de maior sucesso na TV: a minissérie As noivas de Copacabana.

1993

Provoca polêmica com o livro Argumentação contra a morte da arte, em que faz a análise crítica da vanguarda.

Morre Thereza Aragão, sua esposa.

1994

Conhece em Frankfurt, durante a Feira do Livro, a poeta Cláudia Ahimsa, sua atual companheira.

 

1996

Publica Gamação, primeiro livro para o público infantojuvenil. Lançamento de O canto e a fúria, documentário sobre Ferreira Gullar, dirigido por Zelito Viana.

1998

Publica Rabo de foguete: os anos de exílio, livro de memórias. É homenageado no 29º Festival Internacional de Poesia de Roterdã, na Holanda.

1999

Lança Muitas vozes, coletânea de novos poemas, distinguido com os Prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e o Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional, em 2000. Inauguração da avenida Ferreira Gullar, em São Luís.

2000

A exposição “Ferreira Gullar –– 70 anos”, com curadoria de Carlos Dimuro e em parceria com Cláudia Ahimsa, é aberta no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, para marcar seu aniversário. É eleito o Intelectual do Ano, obtendo o Prêmio Multicultural 2000 do jornal O Estado de S. Paulo. Fundação da Biblioteca Ferreira Gullar (Biblioteca Pública de Xerém, Duque de Caxias, RJ). Lança Um gato chamado Gatinho, 17 poemas sobre o seu gato de estimação, escritos para crianças. Convidado como escritor visitante da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ministra oficina de poesia durante dois anos.

2002

Recebe o Prêmio Príncipe Claus, do governo da Holanda.

2003

Lança Relâmpagos: dizer o ver, reunindo 49 textos curtos sobre artes. Suas traduções de Dom Quixote de la Mancha e As mil e uma noites são premiadas, respectivamente, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e pela International Board on Books for Young People. É escolhido o Intelectual do Ano pelo Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro. Em Portugal, é publicado Obra poética, reunindo toda a sua poesia.

2004

Sua mãe morre em São Luís.

É eleito o Homem de Ideias do Ano, pelo caderno Ideias do Jornal do Brasil.

2005

Inicia sua colaboração como colunista do jornal Folha de S. Paulo, assinando crônicas dominicais no caderno Ilustrada. Recebe os Prêmios da Associação Brasileira de Críticos de Arte, na categoria Personalidade; o da Fundação Conrado Wessel, na categoria Literatura; e o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra.

Foto de FG com Ivan Junqueira na entrega do Prêmio Machado de Assis na ABL

2006

Em 17 de março, profere a aula magna da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publica Resmungos, seleta de crônicas publicadas no jornal Folha de S. Paulo. No Centro Cultural Justiça Federal, é inaugurada a exposição comemorativa das três décadas do Poema sujo, sob curadoria de Carlos Dimuro, e em parceria com Cláudia Ahimsa.

2007

Publica Experiência neoconcreta: momento-limite da arte (ensaios). Recebe com o volume Resmungos, o Prêmio Jabuti de melhor livro na categoria Contos e Crônicas e o de melhor Livro do Ano no gênero Ficção.

2008

Sai, pela Nova Aguilar, Poesia completa, teatro e prosa, em volume único.

Caixinha do livro Poesia completa, teatro e prosa, da Editora Nova Aguilar

2010

É lançado Em alguma parte alguma, vencedor, em 2011, dos Prêmios Jabuti na categoria Poesia e Livro do Ano em Ficção, e também do Prêmio Moacyr Scliar de Literatura. Recebe o Prêmio Camões, considerado a mais alta distinção concedida a um autor de língua portuguesa. O Instituto Moreira Sales produz o DVD Poema sujo, lido por Gullar. Lança Zoologia bizarra, com ilustrações suas (colagens), para o público infantojuvenil. O Instituto Benjamim Constant edita Antologia poética (em braile). Recebe o título de doutor Honoris causa, na Faculdade de Letras da UFRJ. A exposição “Ferreira Gullar 8 e 80”, com curadoria de Carlos Dimuro e em parceria com Cláudia Ahimsa, é aberta no Museu Nacional de Belas-Artes para marcar seu aniversário de 80 anos.

2011

Publica Bananas podres (poemas), com ilustrações de sua autoria (colagens), que recebeu o Prêmio Jabuti de 2012 na categoria Ilustração.

2012

Publica Arte contemporânea brasileira (crítica).

2013

Lança A menina Cláudia e o rinoceronte e Bichos do lixo, com ilustrações suas, para o público infantojuvenil.

2014

É o vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais, pelo conjunto de sua obra. Exposição e lançamento do livro A revelação do avesso – colagens em relevo de Ferreira Gullar.

Toma posse em cinco de dezembro na Academia Brasileira de Letras.

Duas caricaturas, de Chico Caruso: “Gullar de fardão”

2015

Recebe, no Edifício do Ministério da Fazenda, no Rio, o Grande-Colar do Mérito do Tribunal de Contas da União. A TV Brasil inicia a apresentação, em sete capítulos, do documentário Há muitas noites na noite, de Silvio Tendler, sobre a vida de Gullar.

2016

Publica o Cancioneiro de Ferreira Gullar (letras de músicas).

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