Eu, você, nós dois, já temos um passado, meu amor

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As instituições de arte sempre estiveram historicamente ligadas ao poder. Com a Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, as coisas não são diferentes. O antigo engenho de açúcar parece guardar a memória da aderência econômica e todos os caminhos e descaminhos trilhados, reafirmam a importância do jogo entre interesses e desejos da sua constituição. Inclusive nas últimas décadas e no conjunto de diretores e gestores que por lá passaram. E não há mal algum nisso.

Apesar de todas as intempéries advindas das mudanças de governo, a EAV sempre sobreviveu. Em alguns momentos, com grande força e, em outros, titubeante diante da incerteza da sua continuidade. Palco de uma série de exposições e eventos importantíssimos, a escola/espaço expositivo sempre foi uma clara referência na produção em Artes Visuais e sua relevância como polo de produção e pensamento é inquestionável.

Contudo, é fundamental lembrar que grande parte de tudo isso se deu e ainda se dá pelo desejo dos professores. Para além de um clichê pedagógico de transformação absoluta do mundo, o corpo docente sempre entendeu, em sua maioria, a responsabilidade nada careta que era/é estar ali. Não enquanto lógica de poder e dominação, mas como uma tênue parceira que se estabelece de maneira intermitente em cursos, oficinas, palestras e workshops. Eles, talvez mais do que ninguém, sobreviveram ao abandono, às más gestões e aos erros e acertos pelos quais toda instituição precisa passar.

Se o seu público originalmente era especializado, vagarosamente pudemos perceber uma ampliação do espectro de atuação da escola nos últimos anos com os cursos gratuitos que, com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, conseguiu aumentar vertiginosamente o quantitativo de estudantes, bem como sua lógica de funcionamento. Talvez, naquele momento, tenhamos podido experimentar uma escola de que realmente se fez, democrática, livre e aberta. Recebíamos alunos de todos os lugares, com as mais díspares formações. O espaço assumiu então sua potência de iniciação, fundamentação e ensino.

A particularidade naquele momento era o investimento absoluto no atendimento de uma demanda pública urgente na formação de realmente novos artistas, e de um público que descobria vagarosamente sua potencialidade. Obviamente, também houve crises e atrasos monumentais no pagamento. Brigas inevitáveis. Mas tudo terminava sendo resolvido com uma boa dose de conversa e um café não tão caro, às margens da piscina.

Em 2014, a gestão da escola foi entregue a uma OS – Organização Social. Com a promessa de dinamização da sua lógica de funcionamento e a profissionalização da gestão, a OCA-Lage assumiu, e com a presidência de Marcio Botner, optou por um modelo de funcionamento ligeiramente diferenciado, mas nunca desinteressado/desinteressante ou irresponsável. Foi possível perceber um certo giro na lógica de funcionamento/produção que, por razões óbvias, investiu pesadamente em visibilidade e na aproximação certeira com eixos mais específicos do sistema de arte. Por certo também vivemos momentos de clara abertura da escola à comunidade, culminando em fins de semanas lotados e com uma programação especialíssima. Contudo, uma perda irreparável também se deu naquele momento: o pedido de demissão de Cláudia Saldanha da direção da escola.

Cláudia tem um histórico memorável e são inquestionáveis as mudanças que conseguiu fazer no MAC de Niterói e na falecida Rioarte. Na EAV, remodelou alguns espaços, instaurou programas de formação, dinamizou a escola, criou comissões de ensino e curadoria e lutou incansavelmente para a instauração de novas ideias. É em sua gestão que o Programa de Fundamentação e Aprofundamento foram inaugurados com o apoio e a concepção compartilhada de Tania Queiroz (na coordenação de ensino) e que fez a escola chegar aos quatro mil alunos. É importante destacar a criação de um plano diretor que alinhavava as diretrizes da escola em um documento composto por artistas e críticos de arte. Também não podemos deixar de considerar a habilidade e o manejo democrático na sua relação com os professores. Mesmo em casos extremamente delicados. Se pensarmos em uma escola viva e aberta, aquele momento foi histórico. Por outro lado, não é possível viver de melancolia. Cláudia Saldanha vai para o Paço Imperial e a OS Oca-Lage convida Lisette Lagnado para a nova direção da escola, que, por sua vez, também tenta construir um programa de ensino e pesquisa. E o faz, da maneira que lhe é possível. E de forma honrada. Contudo, infelizmente naquele momento, por alguma razão, o plano diretor saiu de cena. Da mesma forma que a belíssima “Portfolio”, revista digital da EAV, com poucos números publicados.

Talvez seja esse um sintoma da EAV. Por alguma razão, foram poucos os momentos em que houve uma continuidade lúcida e humilde da gestão anterior. Claro que existem particularidades e necessidades muito delicadas. Mas seria bom que todos os gestores vindouros conseguissem lembrar que não há no Rio de Janeiro nenhuma outra escola livre capaz de influenciar e potencializar a criação artística e o pensamento crítico tão fortemente. Uma escola livre, como obviamente o nome já diz, precisa viver na prática o que vem a ser liberdade. Sabendo receber críticas, sendo aberta ao debate, repensando a todo instante seu modo de funcionamento e compreendendo que, mesmo que seu objetivo de subsolo possa vir a ser, em virtude de uma demanda mercadológica inevitável, retroalimentar o próprio sistema, uma escola é sempre uma escola (por mais repetitivo que isso possa parecer). E se for imprescindível pensar/absorver as referências internacionais, que seja então a lembrança de que a relação entre escolas de arte e o(s) sistema(s) de arte pode vir a ser horizontal, honesta e nada autocrática. O diálogo de fato também pode ser de parceria, afeto, acompanhamento, compromisso e sem qualquer fronteira. Sem demagogia.

O fim da história, sabemos por enquanto. Em virtude da ausência de repasses e de toda a fragilidade que, infelizmente, o Governo do Estado do Rio de Janeiro vem passando, o contrato com a OCA-Lage foi desfeito. Aguardamos as cenas dos próximos capítulos e esperamos, certamente, por um processo democrático de reformulação e revisão das diretrizes, onde todos possamos vir a ser ouvidos e que a gestão (seja ela qual for), seja capaz de compreender que naquele espaço existe um universo infinito de outros microgestores, professores, alunos e público. E é a partir deles que precisamos erigir algo que reavalie a rota. Se for possível lembrar que a história de uma instituição jamais poderá vir a ser um único ponto, ou uma única projeção obtusa, melhor ainda.

Antes de terminar, gostaria de citar um embate que tive com um artista conhecido no Facebook (oi?). Depois de compartilhar um dos tais abaixo-assinados em defesa da escola, fui criticado publicamente e sem a menor elegância pelo mesmo. Obviamente, isso não me causa qualquer desconforto pois, como disse em tal “debate” que eventualmente esbarrou em agressões vazias (prática comum nesses dias de fúria), minha trajetória começou fora da EAV e sempre se manterá também fora dela. Por outro lado, talvez por uma burrice recôndita, insisti na manutenção do diálogo e lembrei a demissão em massa realizada recentemente pela OS. Naquele momento, o tal artista relevante disse: “Seu Iraci, virou mártir”.

Seu Iraci, era um funcionário que tinha mais de vinte anos de casa. Ajudava incansavelmente no funcionamento da escola. Ganhava pouco. Sobreviveu a todas as crises. Jamais foi demitido até o momento. Querido artista que ainda se acha dadaísta, Seu Iraci não é um mártir. Ele é um homem. Um trabalhador. Que, em virtude de sua dedicação e de seu salário bem razoável, não merecia ter passado pelo que passou. Inclusive porque, se pensarmos lucidamente, o valor do salário dele é inócuo se comparado a alguns outros que vemos por aí. Ou por lá. Esse texto é para ele. Para sempre. E também para Glória Ferreira. Minha orientadora por mais de seis anos que também ajudou a erigir parte da EAV e da qual também temos saudade.

E para você ainda, querido artista veemente em tempos de cólera, termino este texto com um bilhete que alguns alunos deixaram no meu carro, marcando um encontro e repensando alguma aula de civilidade e demolição do cinismo (de verdade). E não há mal nenhum nisso. Nunca.

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