Entrevista com Marcio Doctors, Curador do Projeto Respiração na Fundação Eva Klabin

Leia a entrevista que Marcio Doctors concedeu a Leandro Fazolla sobre os 10 anos do Projeto Respiração.

Criado em 2004, o Projeto Respiração tem por objetivo criar intervenções de arte contemporânea no acervo de arte clássica da Fundação Eva Klabin. Com curadoria de Marcio Doctors, o projeto consiste em convidar artistas contemporâneos a intervirem no circuito expositivo da casa museu, criando uma ponte entre a arte consagrada do passado e as manifestações contemporâneas.

Leia a entrevista que Marcio Doctors concedeu a Leandro Fazolla sobre os 10 anos do Projeto Respiração:

LEANDRO FAZOLLA: Como seleciona os artistas para o Projeto Respiração? Quais
os critérios de escolha e curadoria?

MARCIO DOCTORS: Não há um processo seletivo tradicional através de seleção de portfólios apresentados. A seleção é sempre feita através de convite, baseado na percepção de que aquele determinado artista convidado é capaz de contribuir com uma nova camada de sentido para os múltiplos aspectos de uma situação tão específica quanto a de uma casa-museu. Isso implica inserir-se em meio a uma coleção com uma coerência específica, que é dada pela presença ausente de Eva Klabin, que a constituiu, estabelecendo relações singulares com o espaço e com a história da arte. O artista precisa também ser sensível a outros aspectos de uma casa-museu, que é o fato de ser um museu da vida, por isso muitas das obras aqui construídas se relacionam com a personalidade, os sonhos, os desejos e as idiossincrasias de sua instituidora. Enfim, o artista convidado precisa ter a capacidade de aceitar e perceber que está imerso em uma situação habitada, que é uma espécie de desvio do tempo, em que ele interferirá, como se desancorasse o tempo através da experiência de sua própria atualidade. Por isso que não definimos o Respiração como um projeto de instalação, mas de intervenção.

LF: Quais as maiores dificuldades na implantação de cada instalação? Há limitações
para os projetos dos artistas?

MD: Cada proposta é minuciosamente estudada entre o artista, o curador e os museólogos da FEK porque temos uma grande preocupação com a preservação do espaço e do acervo. Este é o limite: a integridade da coleção. Isso acaba implicando em algumas limitações, que são sempre contornadas a partir de uma negociação e da enorme capacidade que a maioria dos artistas têm de contornar os problemas apresentados com novas soluções. Podemos dizer que o Respiração é resultado de um processo de negociação, muitas vezes exaustivo. Isso o torna uma experiência muito atual, no sentido de que a oferta no mundo de hoje é maior do que nossa capacidade de escolha. Com isso quero dizer que o Respiração é uma experiência que mostra que na arte, ao contrário, a escolha é sempre mais forte do que a oferta, porque ela é desejo. Acredito que esta percepção, mesmo que não revelada, é que surpreende as pessoas e que dá contundência ao Respiração, mesmo que elas não tenham consciência deste fato. O limite é a tensão positiva entre a imaginação criadora e expressiva de cada artista diante do desejo de seu devir e o tempo paralisado por Eva Klabin na sua residência.

LF: Ao longo destes 10 anos, quais mudanças que o projeto trouxe para a Fundação Eva Klabin?

MD: Eu diria que a principal mudança é que o Respiração deu um perfil para a FEK. Casas-museus há muitas pelo mundo, de artistas, de escritores, políticos, músicos e colecionadores, mas o que tornou a FEK um local diferenciado foi o fato do Respiração ser uma experiência paradigmática, ao mostrar que o sentido de um bem preservado por gerações passadas só faz sentido se as gerações que o receberam possam usufruir dele. Um dos objetivos principais do projeto é gerar reflexão sobre a história da arte e sobre o sentido que um bem reconhecido e patrimonializado no passado pode ter para as novas e futuras gerações. Por isso o título Respiração, que objetiva oxigenar a casa-museu e sua coleção de arte. Outra mudança fundamental foi o fato do Respiração contribuir para a percepção radical do que significa ser um monumento. A residência de Eva Klabin é percebida e foi pensada por ela como uma espécie de monumento à sua vida e personalidade, mas o Respiração ampliou na prática a percepção do que é um monumento, no sentido Deleuziano, ao mostrar que mais do que consagrar um feito do passado, o monumento consagra aquilo que motivou ou impulsionou a realização deste feito. Em outras palavras, em cada nova intervenção do Respiração, o que está sendo comemorado é a mesma potência inventiva e expressiva da arte, que impulsionou a realização de todas as obras reunidas na coleção Eva Klabin. Essa é a força do Projeto Respiração e sua singularidade.

LF: Quais os planos para o futuro do projeto?

MD: O Projeto Respiração começou em 2004 e estamos comemorando, neste ano de 2014, dez anos de existência. Depois de todo esse tempo e experiência, começa a se abrir novos espaços mentais para novas possibilidades. Várias ideias estão surgindo e espero que tenhamos condições de realizá-las. Prefiro, por enquanto, me reservar o direito de ainda não revelar.

 

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