Casa Daros se despede com arte cubana

© Los Carpinteros, Granada de mano, 2004 - FOTO: Dominique Uldry - Bern

© Los Carpinteros, Granada de mano, 2004 - FOTO: Dominique Uldry - Bern

Basta uma olhada nas primeiras imagens de divulgação da próxima exposição da Coleção Daros Latinamerica no casarão em Botafogo, RJ, para voltar a sensação de tristeza que tomou o circuito artístico em maio, quando a instituição anunciou que fecharia as portas (leia aqui). Conforme divulgado na ocasião, a exposição “Ficción y fantasía – Arte de Cuba” – aberta a partir de 12 de setembro – será a última no espaço, que fecha as portas logo após o encerramento da mostra em 13 de dezembro.

“Ficción y fantasía – Arte de Cuba” reúne cerca de 130 obras pertencentes à Coleção Daros Latinamerica, sediada em Zurique, na Suíça, de 15 destacados artistas cubanos: Ana Mendieta, Belkis Ayón, Ivan Capote, Javier Castro, José Bedia, Juan Carlos Alom, Lázaro Saavedra, Los Carpinteros, Manuel Piña, Marta María Pérez Bravo, René Francisco, Santiago Rodríguez Olazábal, Tania Bruguera, Tonel e Yoan Capote. Os curadores Hans-Michael Herzog e Katrin Steffen selecionaram obras produzidas entre 1975 e 2008, cobrindo um período de mais de 30 anos. A maioria dos artistas presentes na exposição vive e trabalha em Havana. A seleção não pretende abarcar todas as correntes artísticas de Cuba, mas busca transmitir uma excelente ideia das facetas mais importantes dessa produção nas últimas décadas. O ponto central de todas as considerações e estratégias artísticas continua a ser a ilha de Cuba, sua cultura e sua história. O sistema singular de governo, o bloqueio e a precária situação econômica continuam a ser, em larga medida, o centro das atenções.

A partir de uma distância crítica, desde uma fina ironia até o sarcasmo, pode-se observar a análise política e social dos trabalhos de Lázaro Saavedra, René Francisco e Tonel. As relações e contradições especificamente cubanas, frequentemente bizarras, são igualmente refletidas por Ivan e Yoan Capote, utilizando os mais simples materiais. O conceitualismo lúdico caracteriza os projetos no desenho, em sua maioria não realizados, de Los Carpinteros. A tensão entre a saudade e a realidade inevitável nos chega a partir dos trabalhos de Manuel Piña e Juan Carlos Alom, de uma maneira poética. Enquanto Javier Castro, em seus vídeos sobre o cotidiano, observa de forma inteligente a opinião do povo. Ana Mendieta e Tania Bruguera colocam, em suas performances radicais, sua feminilidade em relação à sociedade dominada pelos homens. Marta María Pérez Bravo analisa seu papel perante o contexto iconográfico da santería, uma das religiões sincréticas semelhantes ao candomblé praticado no Brasil. José Bedia, Belkis Ayón e Santiago Rodríguez Olazábal discutem, por fim, sobre o mundo imaginário, misterioso, sobrenatural das religiões afro-cubanas.

Com certeza, vem aí mais uma grande exposição que, assim como a primeira mostra realizada no espaço – que apresentava incríveis obras de artistas colombianos – traz ao público brasileiro uma parcela significativa da produção artística da América Latina, explorando similitudes e contrastes entre os dois países e suas respcetivas formas de criar arte.
Que feche com chave de ouro.

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