Artistas promovem abaixo-assinado para reabertura de exposição censurada no Santander Cultural

Cena de interior II, da artista Adriana Varejão.

Artistas e envolvidos das artes visuais se mobilizam em abaixo-assinado para pedido de reabertura da exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira”. A lista já conta com mais de 23 mil assinaturas.

Neste fim de semana, a Instituição Santander Cultural na cidade de Porto Alegre, declarou por meio de um comunicado em suas redes sociais, o encerramento da exposição depois de receber inúmeras reclamações e críticas a respeito de algumas das obras que fazem parte da coletiva. As queixas de críticos e religiosos diziam que as algumas obras promoviam blasfêmia contra símbolos religiosos e também apologia à zoofilia e pedofilia.

As manifestações foram lideradas principalmente pelo Movimento Brasil Livre (MBL), que pediu o encerramento da exposição. O prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr. (PSDB) também se manifestou contra a mostra dizendo que elas exibiam “imagens de zoofilia e pedofilia”.

A mostra que pretendia promover o questionamento entre a realidade das obras e o mundo atual, tem curadoria de Gaudêncio Fidelis e reunia 270 trabalhos de 85 artistas que abordavam a temática LGBT, questões de gênero e de diversidade sexual. As obras – que percorrem o período histórico de meados do século 20 até os dias de hoje – são assinadas por grandes nomes como Adriana Varejão, Cândido Portinari, Fernando Baril, Hudinilson Jr., Lygia Clark, Leonilson e Yuri Firmeza.

Veja o comunicado da Instituição:

“Nos últimos dias, recebemos diversas manifestações críticas sobre a exposição Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira. Pedimos sinceras desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra.
O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia. Nosso papel, como um espaço cultural, é dar luz ao trabalho de curadores e artistas brasileiros para gerar reflexão. Sempre fazemos isso sem interferir no conteúdo para preservar a independência dos autores, e essa tem sido a maneira mais eficaz de levar ao público um trabalho inovador e de qualidade.
Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.
O Santander Cultural não chancela um tipo de arte, mas sim a arte na sua pluralidade, alicerçada no profundo respeito que temos por cada indivíduo. Por essa razão, decidimos encerrar a mostra neste domingo, 10/09. Garantimos, no entanto, que seguimos comprometidos com a promoção do debate sobre diversidade e outros grandes temas contemporâneos.”

Após comunicado, a Instituição recebeu milhares de mensagens e o assunto tornou-se um dos mais comentados no twitter.

Gaudêncio Fidelis, curador da exposição e que já curou duas Bienais do Mercosul, em Porto Alegre, disse ao Jornal “O Globo” que nunca havia visto algo parecido. “As manifestações foram muito organizadas e se debruçaram sobre algumas obras muito específicas, que não dão a verdadeira dimensão da exposição. Esses grupos [de críticos] mostraram uma rapidez em distorcer o conteúdo, que não é ofensivo”, complementou o curador.

Nesta terça-feira, dia 12 de setembro, está prevista um ato de protesto contra o encerramento da exposição na frente do prédio da Instituição pelo grupo Nuances (Grupo pela livre expressão sexual).

Acompanharemos de perto o desenrolar por todos nossos canais e deixamos aqui uma frase do filósofo italiano Umberto Eco para reflexão:

“As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”
Umberto Eco
(Após uma cerimônia na Universidade de Turim, 2015)

 

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