A liberdade em curto-circuito

rodrigo-agrellos1

Por Liege Gonzalez Jung

Em 2010, visitei a exposição de Nuno Ramos no MAM Rio. Muitas obras me impressionaram, mas a que cabe no contexto deste texto era uma espécie de oca de areia na qual era projetado um vídeo. Nele, dois atores liam um texto de Nuno e, no final, faziam sexo envolvendo instrumentos musicais, mostrado de forma explícita. A intersecção entre o lado seminal do ser humano, a literatura e a música é o ponto onde Nuno atua com maestria. Confesso que a obra me atordoou, com sua imensidão e seus sons estrondosos, mas funcionava no conjunto da exposição, que foi uma das melhores que o MAM fez naquele ano.
Terrível imaginar que hoje, sete anos mais tarde, esta exposição talvez estivesse condenada a nunca ocorrer.

Estamos vivendo uma época de contrastes, em que é difícil compreender o que choca as massas. O sexo – uma forma de contato entre dois (ou mais) indivíduos que em geral traz benefícios a todos os envolvidos – parece ofender mais que o homicídio. Já a coisificação da mulher, explícita em praticamente todos os comerciais de cerveja, parece não ofender ninguém. Políticos usam as instituições das quais mais nos orgulhamos para nos fazer de palhaços e a população fica com preguiça de se manifestar, mas basta uma mostra incluir uma pintura mostrando formas variadas de copulação e preparem os ouvidos, pois lá vem protesto.
Claro que, se queremos liberdade de expressão, temos que aceitar que ela será usada por todos, inclusive os que se ofendem com arte. Teremos, por nossa vez, a liberdade de responder. O assunto torna-se grave quando pessoas em posição de poder passam a colocar suas opiniões pessoais acima desta liberdade garantida pela Constituição.
Isto está acontecendo agora com o veto à vinda da exposição Queermuseum para o MAR – Museu de Arte do Rio. O prefeito evangélico Marcelo Crivella empreendeu esforço pessoal para isto, publicando um vídeo em que diz que “o povo do Rio não tem interesse em ver pedofilia e zoofilia”. Desconsidera a conclusão do Ministério Público Federal, que investigou o caso Santander e concluiu que não há obras na mostra que façam apologia ao crime da pedofilia ou que incitem a zoofilia.
Poucos dias depois, a exposição Curto Circuito, no Castelinho do Flamengo, recebeu um comunicado de que deveria ser encerrada por problemas elétricos. Os envolvidos testaram todas as luzes e tomadas e não acharam nenhum problema. Foi quando perceberam que algumas imagens de nudez e indicação de homossexualidade haviam sido retiradas do local.
Primeiramente, um prefeito não deveria ter poder de decisão sobre a programação de um museu, mesmo de um museu municipal. Esta independência é vital para garantir espaço para a arte e seu desenvolvimento que não seja constrito por ideologias ou política. As leis e regulamentos preveem esta independência, mas Crivella as atropela, assim como atropela o MPF e a Constituição. Acredita estar representando o desejo de seu eleitorado, mas nem este desejo não dá a um governante o poder de agir acima das leis.
Possivelmente, Queermuseum também não ache local em São Paulo. O prefeito João Doria divulgou nas redes na semana passada um lamentável vídeo em que se mostra indignado pelo que considera uma “afronta à liberdade” – sobre Queermuseum – e afirma que a performance no MAM “fere o estatuto da Criança e do Adolescente”. Assim como Crivella, Doria parece querer flexibilizar as leis para que encaixem em suas opiniões pessoais, pois obras expostas em locais fechados, de acesso opcional, não interferem na liberdade de ninguém. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente deixa claro que obras que contenham nudez devem ser precedidas de aviso e o acesso a elas por menores deve ser permitido apenas na companhia dos pais, como ocorreu na mostra do MAM.
Defendi em meu texto anterior que o MAM poderia ter evitado a polêmica orientando pais de crianças menores de 14 anos a não assistir à performance La Bête. Seria uma forma de facilitar nosso trabalho de aproximar pessoas da arte e derrubar muros de preconceito, que os vídeos vazados reforçaram. No entanto, sou radicalmente contra a proibição da mostra de qualquer obra de arte que não seja ilegal.
Liberdade inclui poder optar por visitar ou não uma exposição, assistir ou não a uma performance. Esta decisão cabe a cada indivíduo ou a seus responsáveis legais. Não elegemos um governante para que ele decida por nós. É vital nos manifestarmos sobre o assunto diretamente a Crivella e Doria, ou corremos o risco de nunca mais ver Nuno Ramos e tantos outros artistas em sua totalidade.

Atualização: A suspensão da programação de conteúdo LGBTQ no espaço municipal Castelinho do Flamengo, no dia da estreia, não passou em branco. Artistas se organizaram pelas redes sociais e realizaram um protesto contra censura na frente do local na noite desta sexta-feira (6/9), que culminou com a ocupação do espaço e a presença da polícia.

Compartilhar: