500 anos de história da arte na UNIFOR

© Divulgação

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Coleção particular do chanceler Airton Queiroz é tema da nova exposição em cartaz no Espaço Cultural da Universidade de Fortaleza. A abertura será dia 15 de junho e a visitação, gratuita, acontece a partir de 16 de junho.

Perspicácia, instinto, faro. Com esses atributos, além de um amor incontestável pela arte, o chanceler da Universidade de Fortaleza, Airton Queiroz, construiu, ao longo de cinco décadas, um panorama extraordinário da arte brasileira, que vai do Brasil holandês aos dias atuais. A coleção, uma das mais importantes e completas do país, reúne cinco séculos de história. Parte desse enorme legado estará aberto à visitação, na exposição Coleção Airton Queiroz, em cartaz a partir do dia 15 de junho, no Espaço Cultural Airton Queiroz, localizado no campus da Universidade de Fortaleza – Unifor.

Com curadoria de Fábio Magalhães, José Roberto Teixeira e Max Perlingeiro, sob o olhar atento do chanceler, a exposição reúne 251 obras dos principais nomes das artes plásticas brasileiras, além de artistas internacionais do porte de Monet, Renoir, Miró e Dalí. Em uma oportunidade única, o público cearense e brasileiro poderá apreciar telas, instalações e esculturas pertencentes a uma das maiores coleções da América Latina e que, em sua maioria, nunca foram expostas no Ceará.

A exposição divide as obras entre períodos históricos e movimentos artísticos, totalizando cinco eixos: Do Brasil Holandês à República, Modernismo, Abstração, Contemporâneos e Presença Estrangeira. Para Fábio Magalhães, “a Coleção Airton Queiroz é notável por reunir um elenco tão abrangente no tempo, como pela qualidade das obras colecionadas. O acervo vai além da arte brasileira ao incluir obras de arte europeia, de mestres como Renoir e Max Ernst, entre outros. Certamente, é resultado de uma vida inteira dedicada a reunir obras de qualidade, criadas por artistas que se destacaram no seu tempo”.

“Difícil encontrar, na história de nosso colecionismo de arte, qualquer outro colecionador que, mais que Airton Queiroz, tenha sido capaz de amorosamente construir, ao longo de cinco décadas, um acervo de obras significativas cobrindo cinco séculos de arte brasileira, de Albert Eckhout a Lygia Clark e de Tunga ao Aleijadinho, ou seja, do longínquo Seiscentos aos dias de hoje”, destaca José Roberto Teixeira Leite.

De acordo com Max Perlingeiro, “a exposição é de grande importância, em primeiro lugar, porque o colecionador é cearense. E poderia ser feita em qualquer parte do mundo porque tem uma representatividade da arte brasileira muito grande. E não é uma coleção curada. Não houve um personagem que orientasse o colecionador a adquirir as suas obras. Foi o olhar estético dele. O que é mais emocionante é que ele está sendo generoso ao compartilhar com um público anônimo a sua coleção. Você sabe quando essas obras vão ser vistas novamente? Nunca. Essa oportunidade é única. Uma exposição como essa geralmente é formada, por exemplo, por um museu que quer fazer um panorama da arte brasileira. Ele vai buscar as obras em diversas coleções pelo país, em vários museus, coleções particulares em diversos estados. Aqui, são todas de uma única casa. É extraordinário”, comenta.

“A exposição Coleção Airton Queiroz apresenta ao público, pela primeira vez, um panorama significativo da coleção de artes visuais do chanceler Airton Queiroz. Trata-se de um acervo excepcional não só pela qualidade indiscutível das obras, mas também pela ampla abrangência histórica da arte brasileira, que vai do século 17 à atualidade, bem como pela presença de obras de grandes artistas estrangeiros. Essa mostra, em cartaz no Espaço Cultural Airton Queiroz, também traduz o espírito de generosidade do chanceler ao abrir à visitação pública obras que pertencem a sua coleção privada, com base na ideia de que a arte e a cultura são instrumentos efetivos de educação, fundamentais à formação completa dos mais distintos públicos”, afirma o vice-reitor de Extensão e Comunidade Universitária da Unifor, prof. Randal Pompeu.

DO BRASIL HOLANDÊS À REPÚBLICA 

Primeiro país do Novo Mundo a ser retratado pelos artistas dos colonizadores, o Brasil está representado, em seus primórdios e transformações, em trabalhos como o desenho de Albert Eckhout (1610-1655) sobre um menino tapuia, a obra mais antiga da coleção. Eckhout foi um dos pintores a serviço do Conde Maurício de Nassau quando governador do Brasil Holandês, entre 1637 e 1644.

Três óleos de Frans Post (1612-1680), que dividia com Albert Eckhout a tarefa de retratar o Brasil, compõem a presença do século 17 na coleção – paisagens das Índias Ocidentais (como eram chamadas à época), como Paisagem da Várzea, datada de 1657. Representa o século 18 uma imagem de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814), considerado por muitos como o maior artista nascido nas Américas.

O século 19 é um dos destaques desse primeiro eixo da exposição. A começar por Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830) e Jean-Baptiste Debret (1768-1848), destacados membros da Missão Artística Francesa chegada ao Rio de Janeiro em 1816. Segue por um conjunto de pintores de paisagem, gênero e história, entre eles Henri Vinet, Georg Grimm, Antônio Parreiras, Castagneto, Benedito Calixto, Nicolao Facchinetti, Eliseu Visconti, entre outros. Um grupo de três obras do pintor e gravador cearense Raimundo Cela (1890-1954) fecha este capítulo da Coleção Airton Queiroz.

MODERNISMO 

Um dos principais eixos da mostra tem como ponto de partida a obra de Anita Malfatti, na antessala do modernismo. A tela, Mulher de Cabelo Verde “é, sem dúvida, uma das peças mais importantes do acervo. Trata-se de uma obra icônica, de grande significado para a história da arte brasileira e, em particular, para todo o movimento modernista”, aponta Fábio Magalhães.

A tela participou da Exposição de Pintura Moderna – Anita Malfatti, em São Paulo, no ano de 1917. Na época, a artista tinha 28 anos. A mostra causou enorme impacto, provocou escândalo e revolucionou o ambiente artístico e cultural paulista. “Podemos afirmar que a exposição de 1917 foi a faísca que fez eclodir a Semana de Arte Moderna de 1922, pois muitos jovens intelectuais e artistas, atraídos pela obra inovadora de Anita Malfatti, abriram o debate sobre arte moderna no país ao polemizar contra Monteiro Lobato, autor de um artigo conservador publicado no jornal o Estado de S. Paulo no qual, sob uma argumentação violenta, demolia o expressionismo da artista. A polêmica contra Lobato ajudou a revelar e agrupar os futuros modernistas, entre eles Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia”, prossegue Fábio Magalhães.

Também na exposição, obras que deram início, ainda na década de 80, à coleção de arte moderna de Airton Queiroz: uma tela de Di Cavalcanti e duas aquarelas de Ismael Nery. A estas somaram-se, ao longo dos anos, conjuntos expressivos de obras de Lasar Segall, Antônio Gomide, Cícero Dias e Vicente do Rego Monteiro.

Da década de 1920, a década da Semana de Arte Moderna, a mostra apresenta seis pinturas de Di Cavalcanti dos anos 1930 a 1960. Três pinturas de Ismael Nery: Perfil Feminino, Adalgisa, Retrato de Adalgisa Nery (1905-80), mulher do pintor, e o guache Figura, de 1929, representando um arlequim de forte expressão gráfica que se aproxima à linguagem do cartaz.

Vicente do Rego Monteiro (1899-1970) e Cícero Dias (1907-2003), pernambucanos que fizeram carreira em Paris, trazem seus universos particulares, intrinsecamente ligados à temática modernista: a questão indígena, no caso de Rego Monteiro, e a temática popular e a sociedade canavieira, na obra de Dias.

No segundo momento do Modernismo, Candido Portinari (1902-1963) se posiciona como o artista de maior relevo. Com uma narrativa realista de grande força dramática, denunciadora das injustiças sociais, o artista está representado na coleção com um conjunto de 17 pinturas e 15 desenhos, compreendendo seus períodos de ascensão e de consagração.

As esculturas também estão presentes na mostra. O chanceler Airton Queiroz reuniu um elenco de grandes escultores brasileiros que se destacaram no panorama artístico do século 20, entre os quais Victor Brecheret, (1894-1955), Maria Martins (1894-1973) Ernesto de Fiori (1884-1945) e Bruno Giorgi – escultor que colaborou com Oscar Niemeyer (1907-2012) em obras relevantes na implantação de Brasília.

ABSTRAÇÃO 

Entre as obras da Coleção, merece destaque o Bicho, de Lygia Clark, que faz parte da série de construções geométricas articuláveis produzidas entre os anos de 1960 e 1964. É um não-objeto que exige interatividade, feito para ser manipulado. Lygia apresentou os bichos na VI Bienal de São Paulo, em 1961, e ganhou o prêmio de melhor escultura nacional.

Na Coleção, artistas construtivos de atuação independente, que não se filiaram às tendências paulista e carioca, também estão representados. É o caso de Willys de Castro (1926-1988), representado por 3 trabalhos realizados entre os anos 1950 e 1980. Há ainda a obra cinética de Abraham Palatnik, que foi um pioneiro a desenvolver pesquisas no campo da luz e do movimento. Merece realce a colagem de Sérvulo Esmeraldo (1929) da série Excitáveis, obra mutável e de efeito óptico provocado pela presença de barbantes de algodão que atuam como um conjunto de linhas, mas que na verdade são volumes que atuam sobre um plano de cor.

No conjunto de seis trabalhos do cearense Antonio Bandeira reunidos na Coleção destaca-se o expressivo conjunto abstrato realizado entre 1950 e 1964 pela riqueza das possibilidades de cor e de forma exploradas pela gestualidade lírica e espontânea do pintor poeta.

Também presentes Manabu Mabe, Tomie Ohtake, Hermelindo Fiaminghi, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Alfredo Volpi.

CONTEMPORÂNEOS 

Foi do interesse pelo modernismo que surgiu, por parte do colecionador, o apreço pela arte contemporânea, também presente na exposição em obras de artistas como Adriana Varejão e Beatriz Milhazes – que tiveram suas individuais no Espaço Cultural Airton Queiroz em 2015 –, além de Leonilson, Leda Catunda e outros.

PRESENÇA ESTRANGEIRA

A mostra trará também a evolução da arte europeia ao longo dos séculos, desde o Renascimento até os movimentos modernistas da primeira metade do século 20. Nesse segmento, a obra mais antiga e certamente das mais importantes é uma pintura a óleo sobre madeira atribuída ao célebre mestre barroco flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640), um dos expoentes máximos da história da pintura ocidental.

Claude Monet (1840-1926) é o autor de La Maison dans les Roses, um óleo sobre tela de executado no verão de 1925 e representando um recanto nos jardins da residência do grande pintor em Giverny. Outra importante pintura impressionista na Coleção Airton Queiroz é um óleo de Pierre Auguste Renoir (1841-1919) representando Gabrielle, contra um fundo de paisagem, com o segundo filho do pintor, o futuro cineasta Jean Renoir.

Na pintura de Marc Chagall (1887-1985), tudo se passa como num sonho: libertos da lei da gravidade, um casal de noivos flutua; cabeças de animais de súbito irrompem em meio a perfis de cidades, noivas de buquês em punho alternam-se a menorás, mulheres podem ser vermelhas. Em um autorretrato ele tem sete dedos, há cavalos verdes e luas negras como carvão, relógios possuem asas, um enorme olho desponta do seio de uma montanha.

O surrealismo está representado por trabalhos significativos de três importantes pintores, cada qual exibindo características próprias: o alemão Max Ernst (1891-1976) e os espanhóis Joan Miró (1893-1983) e Salvador Dali (1904-1989).

América Latina – O olhar de Airton Queiroz voltou-se também para a arte da América Latina, representada pelos uruguaios Joaquín Torres García (1874-1949) e Carmelo Arden-Quin (1913-2010), além do mexicano Diego Rivera (1886-1957) e do colombiano Fernando Botero (1932).

De Diego Rivera há um desenho e duas pinturas, sempre observando a temática social. Fernando Botero se define como o mais colombiano dos artistas colombianos, havendo, inclusive, quem, como Dawn Ades, nele veja o equivalente em artes plásticas de Gabriel García Marques. Nascido em Medellín, aos 16 anos ele se mudou para Bogotá, dos 20 aos 22 perambulou pela Europa e em 1960 fixou-se em Nova York, antes de em 1973 abrir ateliê em Paris e dez anos mais tarde mudar-se para a Itália.

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