35º Panorama da Arte Brasileira homenageia texto de Hélio Oiticica

Laysa Elias

Laysa Elias

Com o título “Brasil por Multiplicação” e curadoria assinada por Luiz Camillo Osorio, a 35ª edição do Panorama de Arte Brasileira tem como inspiração um dos textos seminais de Hélio Oiticica, Esquema Geral da Nova Objetividade, 1967.

“Apesar de problematizar questões do texto escrito para o catálogo da exposição Nova Objetividade Brasileira (MAM Rio, 1967), este Panorama não é uma remontagem da exposição anterior, nem tem uma preocupação em legitimá-la historicamente. O que se faz aqui é uma homenagem a um texto de artista a partir de questões que foram ali levantadas e continuam pertinentes”, explica o curador. Entre os tópicos presentes no texto e reverberados na mostra, estão:

1 – Vontade Construtiva
2 – Tendência para o objeto
3 – Participação do espectador (tátil, visual, semântica)
4 – Tomada de posição política, ética e social
5 – Tendência para proposições coletivas
6 – Novas formulações do conceito de anti-arte

Sem se fechar num diagnóstico definitivo ou numa resposta final, a mostra propõe uma reflexão sobre essas questões, cruciais para a reflexão sobre a arte e a cultura brasileiras, revelando a atualidade do pensamento de Oiticica em sobreposição à realidade do país e de sua arte ainda hoje. Entre sua origem ameríndia, africana e a referência europeia, o Brasil nunca chega a uma definição clara quanto a sua identidade nacional, seja dentro de suas fronteiras ou inserido no mundo globalizado. Portanto, é oportuna a menção ao segundo texto que inspira o Panorama e seu título, Nacional por Subtração (1986), de Roberto Schwarz.

Nele, Schwarz reflete sobre como a produção da identidade nacional se dá sempre pela subtração diante do estrangeiro, do que vem de fora, sem se ater à tradição e ao passado do próprio país. Subvertendo a tese schwarziana em favor da ideia de multiplicação de referências, o 35º Panorama compreende a identidade nacional como formada pelo acúmulo de camadas superpostas, aglutinadas, mas nunca alinhavadas harmonicamente.

Nas palavras de Luiz Camillo Osorio, “No caso da cultura brasileira – e isso foi colocado de modo muito original pela geração tropicalista sob a influência da Antropofagia – a singularidade deveria ser vista como construção de um próprio em constante metamorfose, ou seja, como multiplicação identitária e não como subtração originária em busca de uma essência formadora”.

Assim, é coerente com sua proposta o fato de que a lista de artistas do Panorama inclui, além de nomes conhecidos do circuito das artes, o Coletivo Mão na Lata, do Complexo da Maré (comunidade carioca), e IbãHuniKuin, do povo indígena HuniKuin, do Acre (que fará o Projeto Parede durante o Panorama). “Não queremos contar suas histórias no lugar deles, com um olhar externo, mas queremos que os grupos étnicos considerados minorias estejam contemplados na mostra e possam falar por si”, explica Osorio.

A multiplicidade da lista de artistas extrapola as artes visuais, trazendo nomes também da arquitetura, da dança e do cinema. “A ideia é alargar o campo das artes visuais, incorporando outras manifestações, justamente para explicitar como essa divisão de gêneros artísticos, no momento em que o Hélio Oiticica escrevia, já era limitante, e hoje em dia parece de fato superada.”

ARTISTAS
Sala envidraçada João Modé (Rio de Janeiro) – na instalação inédita, o carioca cria um jardim dentro da sala envidraçada do MAM SP, na tensão entre natureza e cultura.

Sala Paulo Figueiredo
Coletivo Mão na Lata e Tatiana Altberg (Rio de Janeiro) – seleção da produção fotográfica dos participantes do coletivo fotográfico da Maré, que, ao retratar seu cotidiano, assume a representação de sua própria identidade com o olhar intrínseco, de quem vive na comunidade carioca.

Dora Longo Bahia (São Paulo) – a paulistana exibe videoinstalação inédita comissionada pela Bolsa de Fotografia ZUM/ IMS 2016. Traçando um paralelo entre as queimadas na Amazônia e o degelo na Patagônia, discute a relação entre vontade construtiva e distopia ambiental.

Lourival Cuquinha e Clarisse Hoffmann (Pernambuco) – Macunaíma Colorau é uma videoinstalação que fala sobre a mestiçagem do povo brasileiro. As pessoas são gravadas descrevendo a cor da própria pele, resultando numa amostragem de narrativas criativas pela imprecisão e variação das tonalidades de pele do brasileiro.

Projeto Parede
IbãHuniKuin – Isaías Sales (Acre) – o artista indígena, do povo HuniKuin, apresenta o Projeto Parede com um desenho baseado nas tradições da vida na floresta.

Grande Sala
Barbara Wagner e Benjamin de Burca (Brasília/ Alemanha)- a dupla pernambucana-alemã exibe trabalho realizado em São Paulo e ainda inédito.

Beto Shwafaty (São Paulo) – trabalho inédito e outro já apresentado anteriormente, com instalações e esculturas em que elementos utilitários são deslocados de sua função original para o campo do trabalho braçal, na clivagem de sentidos.

Cadu (São Paulo) – o artista exibe instalação inédita, uma mandala gigante feita de peças de crochê, e um vídeo.

Fernanda Gomes (Rio de Janeiro) – a artista apresenta instalação inédita que remete a uma síntese do projeto construtivo no Brasil.

Jorge Mario Jáuregui (Rio de Janeiro) – o arquiteto carioca apresenta seu projeto para um espaço comunitário no Morro do Alemão (RJ).

José Rufino (Paraíba) – o artista paraibano apresenta a videoinstalação Almoxarifado, gravada especialmente para o Panorama no interior do almoxarifado da antiga Usina Santa Teresinha, município de Água Preta, fronteira Pernambuco-Alagoas, com a participação de oito ex-funcionários da empresa.

Karin Aïnouz e Marcelo Gomes (Ceará/ Pernambuco) – os cineastas cearense e pernambucano, respectivamente, apresentam videoinstalação e fotografia.

Leandro Nerefuh (São Paulo) – em Uma Breve História da Banana na História da Arte da Banana, inspirado em seu livro homônimo, Nerefuh toma essa fruta como símbolo da brasilidade e a ressalta em obras de diversos períodos.

Marcelo Evelin (Piauí) – na abertura, o coreógrafo piauiense realiza uma performance inédita, concebida especialmente para o Panorama.

Marcelo Silveira (Pernambuco) – traz uma série de esculturas em madeira acompanhadas de textos.

Ricardo Basbaum (São Paulo) – na abertura, faz uma performance – uma leitura coletiva, que resultará em um diagrama desenhado na parede da Grande Sala, exibido durante a mostra.

Romy Pocztaruk (Rio Grande do Sul) – a artista gaúcha apresenta série de fotografias inéditas sobre as usinas nucleares brasileiras com imagens das instalações internas.

RUA Coletivo (Rio de Janeiro) – o coletivo carioca traz para o Panorama o Varanda Products, projeto de objetos funcionais para espaços que são ao mesmo tempo externos e internos e têm sua tradução mais popular nas lajes das periferias. Entre eles estão o ombrelone que protege do sol e ao mesmo tempo capta água, a espreguiçadeira que também tampa a caixa d’água, cadeiras e mesas descartáveis, etc.

Wagner Schwartz (Rio de Janeiro) – na abertura, o coreógrafo apresenta La Bête, performance em que ele se torna um Bicho de Lygia Clark e pode ser manipulado pelo público (o registro será exibido ao longo da mostra).

A exposição acontece no Museu de Arte Moderna de São Paulo, de 26 de setembro a 17 de dezembro.

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