© Chiharu Shiota, The Key in the hand, no Pavilhão do Japão

© Chiharu Shiota, The Key in the hand, no Pavilhão do Japão

A 56ª Bienal de Arte de Veneza, curada por Okwui Enzwezor, foi inaugurada no dia 9 de maio com mais de 136 artistas de 53 países diferentes, dos quais 89 exibem seus trabalhos na bienal pela primeira vez.
A bienal completa 120 anos de existência e, segundo o presidente da fundação La Biennale di Venezia, o senhor Paolo Baratta, com o tema All the World’s Futures, fecha um ciclo, concluindo uma importante trilogia para a definição de importantes caminhos da arte contemporânea hoje. A curadora de 2011, Bice Curiger, trouxe o tema ILLUMInation, que tratava da percepção, da luz, da criação de conhecimento de forma intuitiva; tratava da relação entre artista e espectador, mostrando novas possiblidades de conexões, interpretações e formas de dialogar com a arte. O curador de 2013, Massimiliano Gioni, estava interessado em observar os impulsos internos que movem a humanidade e os artistas a criar imagens e dar vida a representações imaginárias. Ele investigou as utopias e ansiedades que levam o homem à inevitável necessidade de criar.
Ainda observando o relacionamento entre arte e o desenvolvimento do mundo no âmbito social, político e humano, o objetivo da atual bienal é investigar como as grandes tensões do mundo em que vivemos atuam e afetam a sensibilidade, a energia vital e expressiva dos artistas e seu desejo de criar. Okwui não quis elaborar julgamentos ou previsões de possíveis futuros, seu principal desejo foi o de juntar arte e artistas do mundo todo e de disciplinas diferentes para instaurar uma espécie de Parlamento de Formas, uma exposição global onde nós, espectadores, temos a liberdade de questionar, conhecer e escutar o que os artistas têm a nos dizer acerca do mundo em que vivemos.
Essa Bienal examina a violência e o conflito, é provocante e fala claramente da realidade em que vivemos. Em outras palavras, fala sobre dor. As obras de arte apresentadas focam lutas políticas e econômicas, guerras e os prejuízos psíquicos, econômicos e físicos gerados pelo capitalismo global. É uma exposição forte, até angustiante em certo ponto, mas também recheada de momentos de silêncio, contemplação e imensa beleza resiliente.

TODOS OS FUTUROS DO MUNDO

Como em todos os anos, nos dias da inauguração, a ansiedade é enorme e as filas são gigantes para entrar no Giardini e ver ao vivo o que os artistas nos reservavam. Logo na entrada, o trabalho intitulado Coronation Park, feito pelo coletivo indiano RAQS Media Collective, recebe os visitantes: um conjunto de enormes estátuas de figuras representantes do poder tradicional com os corpos mutilados de alguma forma.
À entrada do Pavilhão Central, onde está a mostra universal curada por Enzwezor, bandeiras de tecido negro de Oscar Murillo, e as palavras Blues, Blood, Bruise (tristeza, sangue e ferida) de Glenn Ligon em letreiro luminoso dão o tom. Uma vez dentro da primeira sala são expostos desenhos com as palavras The End e Fine, realizados pelo falecido artista italiano Fabio Mauri (1926-2009), entre outras obras do mesmo artista. Ali, no início da jornada, já se percebe que o clima é escuro, sombrio, desconfortável… Começamos pelo fim!
Entre as muitas obras-primas nesse pavilhão, destacam-se o trabalho de Robert Smithson, Dead Tree (1969); os famosos trabalhos de Hans Haacke, incluindo o Moma Poll (1970); a sala dedicada às caveiras de Marlene Dumas, Skull series (2013-2015); e o trabalho vencedor do Leão de Ouro de Adrien Piper, Everything will be taken away (2003).
Além disso, no centro do pavilhão foi construído um auditório onde acontecem leituras de trechos de O capital, de Karl Marx, realizadas por convidados ou pelo público voluntário, chamado para participar de leituras conjuntas.
No Arsenale, onde continua a exposição central da bienal, o clima segue sombrio. Entramos por uma sala escura repleta de facas, trabalho do artista Adel Abdessemed, e de sinais luminosos de Bruce Nauman anunciando War, Death Love, Pain Life, Hate Pleasure. Logo adiante, avistamos o canhão de Pino Pascali e outros trabalhos de grande impacto visual como o do artista Kutlug Ataman, The Portrait of Sakip Sabanci, 2014, feito com 9.216 painéis de LCD que, juntos, parecem um tapete voador, exibindo milhares de faces sem parar, de forma impactante.
A brasileira Sonia Gomes está presente com um trabalho que foi florescendo durante a montagem da obra, tomando forma, ganhando vida, encaixando-se nas fendas das colunas, como se tivesse nascido para aquele espaço.
Outros trabalhos imperdíveis que valem a pena citar são a instalação de Katharina Grosse, Untitled Trumpe, impactante e cheia de emoção; os trabalhos de Eduardo Basualdo, que ocupam uma sala com destaque para O grito; o trabalho de Barthélémy Toguo, Urban requiem (2015); a obra de Maja Bajevic, Arts, Crafts and Facts (2015); e a instalação de GLUKLYA, Clothes for the Demonstration Against False Election of Vladimir Putin (2011-2015).
Ainda falando do Arsenale, é importante mencionar o novo espaço inaugurado e aberto pela primeira vez ao público, a Sale d’Armi, reformada de maneira impecável, onde estão os pavilhões da África do Sul, do Peru, de Singapura, da Turquia, dos Emirados Árabes Unidos, entre outros países que contribuíram para a reforma.

É TANTA COISA QUE NÃO CABE AQUI

Curado por Luiz Camillo Osorio, o pavilhão brasileiro foi muito procurado e respeitado pela crítica e imprensa internacionais, sendo um enorme sucesso de público e crítica. O ponto de partida foram as manifestações que se espalharam por nosso país em 2013 e o nome escolhido para a exposição vem de um dos mais emblemáticos cartazes vistos durante as passeatas.
Antonio Manuel, além da instalação Ocupações/Descobrimentos – que os cariocas puderam admirar na última individual do artista no MAM-RJ –, apresentou o trabalho Até que a imagem desapareça (2013) e um vídeo muito forte de 1975, Semi-ótica, que mostra fotos de jornais de bandidos torturados e mortos durante a ditadura. Berna Reale, cujos vídeos emocionam o público, aparece na obra Americano (2013), correndo e carregando uma tocha olímpica pelo presídio de segurança máxima de Americano, nos arredores de Belém. Já o jovem e talentoso André Komatsu apresenta duas obras: status quo, para a qual criou uma gaiola de arame coberta por plástico que, para o público entrar, é necessário atravessar um corredor que vai se estreitando cada vez mais, dando uma terrível sensação de claustrofobia. Apresenta também o trabalho O estado das coisas 2 (três Poderes) (2011), um mastro com um par de tênis exposto como bandeira.
É interessante como os trabalhos dos artistas falam de aprisionamento, como se dissessem que para ser livre é preciso estar preso em estruturas, regras e normas, uma falsa liberdade, espaços limitantes. Os trabalhos dos três artistas dialogam fortemente entre si, reforçando ainda mais a mostra central da bienal.

PAVILHÕES QUE FICAM NA MEMÓRIA:

Itália
Codice Italia é uma mostra que trata dos fundamentos essenciais da arte através dos séculos, tão presentes e perceptíveis na arte contemporânea italiana, quase como um código genético. Apresenta trabalhos de tirar o fôlego de artistas como Vanessa Beecroft, Jannis Kounellis e Claudio Parmiggiani.

Japão
The Key in The Hand é um trabalho da artista Chiharu Shiota que emociona. Toca os espectadores pela delicadeza do tema, que trata de chaves como um elemento familiar, sempre muito valioso, que protege pessoas e espaços importantes, além de sempre inspirar a abertura de novas portas e a exploração de novos mundos, do desconhecido. Fala de teias de relação e emoção, mostradas através das conexões das chaves por fios vermelhos.

Uruguai
Global Myopia II é imperdível. Foi necessário esperar 40 minutos na fila para entrar no pavilhão, em virtude de estritos limites de lotação impostos pelo artista. Marco Maggi usou papel e lápis para desenhar mais de dez mil microelementos em folha adesiva branca, que se transformam em um alfabeto único do artista, que passou os três meses precedentes à bienal pacientemente dobrando e colando esses microelementos nas paredes também brancas do pavilhão. Trabalho de sutileza e delicadeza extremas, quase imperceptível aos olhos em um primeiro momento, branco sobre fundo branco. Passados os primeiros segundos, começamos a perceber os indícios nas quinas das paredes e o desenho começa a surgir diante dos olhos, uma linda descoberta. Um lugar para se observar, leva tempo e é necessário espaço para se perceber bem as paredes brancas, a fim de descobrir o trabalho.

Sérvia
United Dead Nations é uma das minhas instalações preferidas. Ao entrar no pavilhão, percebemos inúmeras bandeiras sujas, gastas, algumas parcialmente queimadas e pintadas formando montes espalhados pelo chão. A instalação visa estabelecer um diálogo sobre as noções de nação e o que elas representam em nossos tempos pós-globais, colocando em foco as nações que já não existem mais, mas cujos fantasmas ainda controlam e regulam os territórios antes ocupados por elas.

Tuvalu
Crossing the Tide, instalação do artista Vincent Huang, é impressionante: duas pontes que os visitantes atravessam, meio alagadas, cruzando um rio de águas cristalinas com uma bruma no ar que preenche todo o ambiente. O trabalho chama a atenção para as crises causadas pelas mudanças climáticas. Tuvalu é um grupo de nove pequenas ilhas do Pacífico Sul. Todas com baixíssima altitude, nenhum ponto no arquipélago supera 4,5 m acima do nível do mar. Caso as mudanças climáticas continuem a avançar e aumentar o nível do mar, essas ilhas provavelmente serão as primeiras a desaparecerem.

Armênia
Armenity/Haiyutioun, o pavilhão da Armênia foi o ganhador do Leão de Ouro deste ano e está localizado na ilha de St. Lazzaro. A ilha era um importante centro de impressão armênio de 1789 até o início do século 20, e agora é um dos locais históricos mais conhecidos da diáspora armênia. O pavilhão discute a noção de deslocamento e território, justiça e reconciliação, caráter e resiliência. Os artistas selecionados todos têm origem armênia, sendo, de uma forma ou outra, netos dos sobreviventes do genocídio armênio que, juntos, puderam reconstruir, por meio de uma montagem transnacional, as sobras de uma identidade destruída.

Saímos todos do circuito dos pavilhões internacionais com a cabeça e o espírito mexidos. Por revolta, emoção ou tristeza, mas, sem dúvidas, mexidos, e refletindo sobre o mundo que vivemos e os possíveis futuros que nos esperam.

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