Mario Ramiro | Zipper Galeria

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Um dos representantes da produção conceitual dos anos 1980 em novos meios como arte-xerox e outros experimentos, Mario Ramiro (Taubaté, 1957) realiza na Zipper sua primeira individual em São Paulo: “Improvável”. Ex-integrante do importante coletivo 3NÓS3 junto com Hudinilson Jr. (1957-2013) e Rafael França (1957-1991), grupo precursor de intervenções urbanas no país, o artista apresenta um panorama de sua produção visual, incluindo trabalhos recentes e outros mais históricos. Ronaldo Entler assina o texto crítico da exposição.
O primeiro conjunto reúne, no piso térreo da galeria, séries de xerografias produzidas entre 1979 e 1991. Os trabalhos – muitos inéditos – remetem à origem da produção do artista, que participou à época de quatro edições da Bienal Internacional de São Paulo (1981, 1983, 1985 e 1989). Nesta seção, parte das sequências de cópias se assemelham a story-boards, que tratam do surgimento e do desaparecimento de objetos e partes do corpo humano, como também da realização de ações simples e banais, num clima de magia e ilusionismo. Em outras sequências, o artista discorre sobre um certa ambiguidade visual entre o suporte da obra (o papel) e o espaço tridimensional registrado pela copiadora. Há ainda a série “Últimas de Lascaux” (1991), em referência à famosa gruta francesa com desenhos rupestres, nas quais as imagens, tal como no espaço sem paredes ou teto de uma caverna, se sobrepõe umas às outras, sem uma orientação espacial determinante.
Estes trabalhos históricos convivem com duas séries recentes de Ramiro. A escultura sonora “Rádio Dante” (2014) é composta de fotografias, um aparelho de rádio sintonizado fora de estação, transmitindo ruídos, um microfone e um mini-amplificador. A escultura remete às pesquisas realizadas por Hilda Hilst no Brasil nos anos 1970, nas quais ela procurava uma forma de contato com o mundo dos espíritos por meio de aparelhos de rádio e gravadores. Já em “Mesas de acesso” (2017), constrói uma mesa de madeira e diversos materiais a partir das especificações dadas pelo espiritualista norte-americano Andrew Jackson Davis em seu livro “Present age and inner life; a sequel to spiritual intercourse”, publicado em Nova York em 1853. Segundo o autor, seria possível estabelecer contato com a dimensão do intangível por meio de uma “bateria espiritual”, feita por um cabo que circunda a mesa e cujas extremidades terminam num balde de cobre e num balde de zinco.
O último núcleo da mostra, acomodado no piso superior da Zipper, remonta uma instalação realizada em 2013 no Centro Cultural São Paulo. “Gabinete de fluídos” reúne cerca de 400 reproduções de fotografias que documentam supostas ocorrências de materializações de espíritos, exalações de ectoplasma e manifestações paranormais registradas no Brasil ao longo do século 20. O título faz referência a uma carta escrita em 25 de março de 1913 pelo escultor alemão Anton Rönnebeck  ao pintor Wassily Kandinsky, em que narra seu encontro em Paris com Louis Darget, “um homem que mantinha um espaço de trabalho em seu apartamento chamado de ‘cabinet fluidifié’ no qual ele exibia uma coleção de fotografias do fluído vital, do pensamento e fotografias espíritas, colocadas em pequenos envelopes presos às paredes, que iam do chão até o teto”, que Darget havia produzido ao longo de décadas.
Em “Improvável”, Mario Ramiro reflete sobre a crença de que as tecnologias elétricas funcionariam como mediadoras entre o mundo concreto e dimensões invisíveis, uma noção que, no século 19, serviu como inspiração para superar as barreiras entre o mundo físico e o metafísico. Sobre a mostra, o crítico Ronaldo Entler escreve: “Difícil situar o que seria o lugar próprio de cada coisa: das antigas “novas tecnologias” que continuam se reinventando e provocando surpresa, do ectoplasma que dá contorno claro aos espíritos, dessas mãos que tateiam os ambientes escuros – seja o da caverna, seja o da caixa preta das tecnologias – senão para desvendá-los, ao menos, para colocar-se como sujeito de seus mistérios. O tempo destas imagens também é complexo. Tudo aqui trata de uma espécie de superação (o aufhebung da dialética hegeliana), noção que aponta tanto para a morte como para a ressurreição das coisas, para aquilo que, ao deixar de existir, realiza mais plenamente suas potências ao transformar-se em algo outro.”
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