Mariana Mauricio | Galeria Leme

A Galeria Leme apresenta a terceira exposição individual de Mariana Mauricio em São Paulo, onde a artista expõe um conjunto de obras inéditas através das quais aprofunda a sua exploração sobre a carga simbólica de simples objetos do cotidiano, as rotinas que lhes são inerentes e a construção subjetiva de noções de intimidade, domesticidade e feminilidade que surgem a partir das interrelações entre sujeito e tais itens.

As obras apresentadas se estruturam a partir da assemblage de objetos que a artista encontra e coleta das ruas, com itens que ela própria cria e retrabalha. Se a qualidade plástica dos objetos abandonados e apropriados por Mauricio resultam de forças exteriores e anteriores às da artista, os objetos e materiais novos que ela inclui em suas composições são trabalhados de modo a adquirirem uma qualidade tátil e corporal que recria o efeito físico do passar do tempo e de memórias que nunca de fato existiram. Através de ponderadas combinações e justaposições, Mauricio cria composições que amplificam as “vibrações” de cada uma das partes, intensificando os limites formais de cada elemento e consequentemente retrabalhando a subjetividade dos mesmos, de modo a possibilitar a emergência de outras narrativas que lhes são inerentes mas que permanecem adormecidas sob a banalidade do “uso”.

Este tipo de processo é evidente no trabalho que Mariana Mauricio elabora a partir de um dos elementos estruturantes da exposição, uma tábua de passar roupas que resgatou de um beco em Londres. A artista descontruiu as suas camadas de tecido e espuma, descobrindo as manchas e evidências que narravam a sua historia doméstica. Ao dissecar este elemento se deparou com dois tipos distintos de impressões digitais. Por um lado, as manchas da fricção do ferro quente sobre o tecido, e por outro, as malhas ortogonais dadas pelos vincos da dobragem do pano que desenhavam um grid cartesiano sobre a matéria mole. A artista explora o confronto entre o caráter abstrato e ordenador desse grid e as formas orgânicas e viscerais acidentalmente impressas nesses materiais. Assim, o grid, como trama ortogonal ordenadora do nosso tempo-espaço é replicado manualmente por Mariana a partir do processo de dobrar e passar tecidos, criando um “loop” que conecta as marcas impressas involuntariamente ao longo da “vida útil” desses materiais encontrados e a “ação artística” que as replica, ecoando a operação rotineira que as originou num momento anterior.

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