Marcos Coelho Benjamim | Simões de Assis Galeria de Arte

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A Simões de Assis Galeria de Arte abre a exposição individual do artista Marcos Coelho Benjamim, com apresentação de Guilherme Bueno.

BENJAMIM – TUDO ESTÁ AQUI

A obra recente de Marcos Coelho Benjamim aglutinou um desdobramento de seus feitos anteriores e um novo passo. Isso não significa ter havido uma “superação” de seus trabalhos realizados até então ou a ruptura com os mesmos; aponta somente para o fato de que certas questões abriram-se para novas abordagens – e nisso, pensamos especificamente no seu trato composicional dos materiais e em suas consequências no entendimento da cor.

Característico de seu trabalho pelo menos desde a metade final da década de 1980 é a criação de objetos passíveis de abordarem três frentes: uma primeira em que os campos da pintura e da escultura se mostram intercambiáveis; num segundo caso, eles denotam uma ambivalência entre abstração e figuração, sem, contudo, proporem isso como um dilema ou drama, mas como jogo visual (isto é: como olhamos para uma obra de arte – ou o quê esperamos dela); por fim, na sua capacidade de assimilar simultaneamente uma visualidade “popular” e uma erudita. Exemplificam-nos a série dos Raladores com sua silhueta demarcada e total do suporte (visto que ele não fechava a composição, mas era a forma mesma do trabalho como um todo articulado), a menção a um objeto comum – antes um apelido contingente do que uma descrição, uma legenda ao trabalho – depurada por uma geometria e uma espacialidade pictórica (bidimensional) conjugada a uma plasticidade escultórica (a presença viva da matéria). A paleta terrosa, no seu trato espesso, por sua organicidade, obtinha uma inesperada sensualidade para uma cor quase sempre tratada como tom – uma cor por outros reprimida.

Tais colocações, indicativas da parcela de continuidade vista na trajetória do artista, têm sua contrapartida no modo como passam a ser abordadas nos últimos tempos. De imediato, há uma nova paleta em jogo. Benjamim explora cores de uma vibração menos contida; elas decididamente avançam rumo ao espaço. Aqui temos uma interessante comparação: as cores terrosas funcionavam como uma espécie de regulagem entre o quanto a obra tendia a transbordar (por conta de sua textura marcante) ou ter sua área de “influência” e dispersão delimitada ao suporte (dada – perdoe-se o termo – a “frieza” das cores terciárias, a “segurar” a expansão da pintura). A luminosidade média das cores terrosas funcionava como um fiel entre bidimensionalidade do suporte e corporeidade explícita dos materiais. Agora vemo-nos diante de obras cuja luminosidade, ora propelida, ora profunda (e às vezes as duas coisas ao mesmo tempo), optam por uma intercambiável e rica oscilação e vibração do trabalho, algo conquistado paulatinamente pelo seu método de construção.

Benjamim persiste em criar obras que não se constroem dentro do suporte, mas com ele. Se o modo disso acontecer anteriormente já foi assinalado, os seus tondi da última década deixam claro como isso tem ocorrido. A forma (e sem querer forçar paralelos, mas apenas sugerir uma analogia) se desenvolve similarmente a certos procedimentos da pintura inicial de Frank Stella, em que uma determinada unidade ou módulo progressivamente se expande. Em Benjamim o tondo também surge a medida em que os arcos metálicos são agregados e conjugados. No entanto, há dentre outras diferenças, uma fundamental – o fato de no artista mineiro tal repetição não ser uma operação programada, mas antes o resultado de escolhas feitas somente no decurso mesmo de realização do objeto. A contraprova está em outras séries que optam por um chassis quadrado, no qual o emaranhado de tiras não replicam o seu perfil, mas que, das pequenas tiras das extremidades às maiores próximas ao centro (onde estão parte dos perfis mais extensos), nele resultam, em uma iridescência luminosa que ora parte, ora proporciona um crescente das bordas para o ápice quase epifânico próximo ao centro do “quadro”.

O “emaranhado”, por sua vez, parece fruto de dois problemas: mais uma vez dialogando consigo, o artista encontra aqui uma nova solução para sua investida pictórica por meio de dispositivos escultóricos: as tiras são como linhas desenhadas com objetos reais em um espaço real. Melhor dito, ao invés de desenhar, Benjamim prega uma linha – linha que é também plano e volume. O intervalo entre elas, intensifica, na sua diferença de profundidade, a vibração da cor que, dada variação de ângulos conforme as chapas foram colocadas, obtêm intensidades particulares a partir de uma mesma matriz. Daí o farfalhar vivo e ondulante de algumas peças, como nos quadrados e retângulos, ou o caráter mais grave dos losangos, cujo contraste é acrescido da oposição entre frios e quentes das partes frontais e laterais das lâminas. Resumidamente, Benjamim não se enquadra nem no estereótipo “extremamente mental”, nem no “ingenuamente popular (intuitivo)”, nem no “habilmente formalista”. Sua arte transita entre tudo aquilo que se mostra disponível, cuja validade, porém, se ratifica apenas quando algo faz sentido plástico para ele. Benjamim é um artista honestamente visual: nele, tudo é dito pela maneira como as formas são operadas para dar consecução a um trabalho, cuja validade se traduz em sua aptidão para ser efetivamente autêntico, e não justificar empréstimos formais tomados alhures (sem renegar, contudo, sua amplitude de repertório). A melhor palavra para descrever uma obra sua é presença. A sua verdade está no esplendor e maravilhamento sem culpas ou tergiversações que uma obra de arte pode despertar. Óbvio que não indica nem um método nem um princípio exclusivo como a arte deve ser hoje; outrossim deixa-nos perceber que é uma das inúmeras modalidades autênticas segundo as quais ela pode existir.

Resta ainda um aspecto a indicar nisso tudo. Foi dito que Benjamim mostrou-se sempre capaz de entrelaçar uma visualidade popular com aquela outra “erudita”. Esse sempre foi um tema espinhoso, pois abria margem para leituras incompletas e reducionistas do artista. Isso ficava patente na discutível “mineiridade” ancestral e profunda de seu trato com sua invenção (valendo-nos da precisa expressão usada por Olívio Tavares de Araújo ao falar do artista). O princípio de Benjamim não é nem descoberta ingênua e acidental nem a pré-determinação da forma: é acima de tudo a potência de testar os mais discrepantes modos de se chegar a arte. Dito concretamente, é sua generosidade plástica de fazer com que cor, forma e matéria – em um resumo simplista, a tríade inicial de seu processo – lograssem com ele a conjugar uma evidência carnal e matérica dos elementos construtivos, com um esplendor e presença quase “mágicos” que, hoje em dia, apenas a arte (mais verdadeiramente) popular consegue atingir. Seus azuis e violetas têm a potência cativante dos antigos santos, mas são igualmente elementos de um mundo próximo e corriqueiro da cultura visual urbana. O desafio que Benjamim nos oferece é o de ser um artista sem classificações ou molduras. É o desafio da honestidade; simples porque tudo está dito, mas numa plástica generosa e inquiridora de todos os seus horizontes.

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