Candelaria Silvestro | OCUPAÇÃO DELEUZE

Uma figura feminina nua na tela central. Ao seu lado, jaulas e corpos de mulheres, homens e pássaros. A exposição Cortaderas, de Candelaria Silvestro, reúne assim um grande díptico e uma série de gravuras com intervenções de aquarelas. Evidenciando tensões entre os corpos e seus entornos, as obras presentes na mostra desafiam associações normativas entre as ideias de liberdade e dominação.

Na pintura Cortaderas (2017), utilizou a planta silvestre que dá título à obra como um opulento pincel feito por ela mesma para chicotear a tela e dar vida ao espaço abstrato da cena. A força dessa gestualidade contrasta com os traços naturalistas que compõem um corpo e feições intrigantes.

Nos trabalhos de Candelaria Silvestro, não encontramos retratos de corpos passivos em estado de espera por nosso olhar ativo. São provocados deslocamentos que repelem tentativas de categorizações. Assim, a figura de Cortaderas parece colocar em xeque qualquer essência que defina o que seja feminilidade. Por que ri? Quantos anos tem? A que era pertence? Seria um ser mitológico?

Já na série Jaulas (iniciada em 2004 e desenvolvida até hoje), o processo contou com gravuras realizadas sobre aquarelas. A fluidez do contorno dos corpos confere a sensação de que sempre há algo a vazar pelas grades. Não há encaixe e conformidade possíveis. Se em um primeiro momento as poses dessas mulheres e homens remetem-nos ao universo das revistas eróticas e partidas de futebol, em seguida transportam-nos para além das reflexões sociais em direção a uma esfera onde nossas familiaridades pré-concebidas podem ser dissolvidas.

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